O MAPA DAS IDÉIAS SOBRE A MÍDIA
Em um primeiro momento, abordaram-se aqui as definições
de cultura elaboradas a partir da ênfase nos contextos sócio
históricos do emissor (o positivismo, o funcionalismo, o marxismo).
Depois, apresentaram-se as definições de cultura que ressaltam a
linguagem (o estruturalismo, a semiótica). E, finalmente, chegamos
as definições elaboradas a partir dos contextos sócio históricos
da recepção (a midiologia e a sociologia da mídia).
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EUA
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EUROPA
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FUNCIONALISMO
(Parsons,
Lasswell, Moles e Merton)
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ESCOLA
DE FRANKFURT
(Benjamim,
Adorno, Habermas)
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2 Guerra
Mundial (1945)
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CIBERNÉTICA
(Nobert
Wiener) McLuhan
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SEMIÓTICA E
ESTRUTURALISMO
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Contracultura
(1968)
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MIDIOLOGIA
(Debret, Barbero, Flusser) X
SOCIOLOGIA DA
COMUNICAÇÃO (Castell, Morin, Thompson)
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Na Europa, Houve um longo caminho teórico do
estruturalismo até à Pós-modernidade: Lévi-Strauss (a estrutura
como grande síntese); Lacan (o inconsciente linguístico); Bourdieu
(teoria dos campos); Foucault (análise discursiva e genealogia do
poder); Baudrilard (sedução e simulacro) e outras Semióticas
(Peirce, Barthes, Eco, Greimas, Bystrina) das quais não falamos.
Elegemos Habermas e a noção de democracia deliberativa
como sendo a contribuição mais importante deste percurso.
Democracia deliberativa é a democracia representativa ampliada
através dos meios de comunicação.
A noção de democracia deliberativa é baseada na
sociedade se estruturar em um tripé entre: a ação instrumental (o
campo econômico, a objetividade e a esfera privada); a ação
estratégica (o campo político, os sujeitos históricos e a esfera
pública); e a ação comunicativa (o campo cultural, a
intersubjetividade e a sociedade civil).
Nos EUA, também houve um longo percurso de
desenvolvimento teórico: a Teoria hipodérmica é a primeira
tentativa de explicar o comportamento condicionado pela mídia e
acreditava na manipulação completa das massas através dos meios de
comunicação. Em seguida, veio a Teoria da Persuasão, abordagem
psicológico experimental baseada na retórica de Aristóteles:
Harold Lasswell e a análise de conteúdo (quem diz o quê por meio
de qual meio a quem com que efeito?) Surge, então, a abordagem
funcionalista. Robert Merton, Abraham Moles, Paul Lazarsfeld. A
questão de fundo já não são os efeitos mas as funções exercidas
pela comunicação de massa na sociedade. Estudo da comunicação a
partir do problema do equilíbrio e do conflito sociais. A
cibernética, o sistema tende a entropia e não a homeostase; a
disfunção é compreendida como ruído. Os feedbacks promovem auto
organização contra a incerteza.
A cibernética e McLuhan (a midiologia) são
aperfeiçoamentos da sociologia funcionalista. Como também são as
novas abordagens (Agenda-setting, Gatekeeper, Newsmaking, Espiral do
silêncio) sobre os receptores, os processos produtivos nas
comunicações ou sobre os fatores internos e externos à organização
do trabalho comunicativo.
Elegemos Marshall McLuhan e o conceito de mediação
como os mais importantes deste segundo percurso.
E mediação não é o mesmo que midiatização.
Mediação com ‘e’ é um agenciamento que transforma conflitos em
diálogos simbólicos. Já ‘midiatização’ (com ‘i’)
significa um regime em que as relações entre diferentes agentes são
mediadas (com ‘e’) pelos meios de comunicação. Diz-se que algo
foi ‘midiatizado’ quando sua existência virtual se torna mais
importante do que sua materialidade.
Da mesma forma que uma sociedade não formula problemas
que não seja capaz de responder, também podemos dizer que as
diferentes definições da noção de cultura refletem diferentes
tempos e etapas de nossa vida social recente. Vivemos em um tempo
midiático. Nada mais normal que nossa definição de cultura ser
baseada nas ideias de mediação e de midiatização da sociedade.
Mas, o que exatamente significa
‘mídia’? E quais as mudanças ela coloca na prática de contar
estórias? Pode-se entender o conceito de mídia em três sentidos
diferentes: o sociológico (a mídia é o conjunto dos meios de
comunicação); o midiológico (a mídia é o suporte de uma
mediação, por exemplo: o relógio de pulso (mídia) é uma mediação
entre o batimento cardíaco e o tempo social); e a teoria das três
mídias de Pross (1997).
No primeira definição, a mídia
é uma instituição de poder simbólico, ao lado de outras
instituições de poder simbólico (como a igreja, a escola); em uma
sociedade formada ainda por instituições de poder econômico
(fábricas, empresas), de poder político (governos, parlamentos,
tribunais) e de poder coercitivo (polícia, exército). A
centralidade da mídia sobre as outras instituições, deste ponto de
vista, se dá pela sua capacidade de circulação e distribuição de
imagens e informações de forma simultânea para um grande número
de pessoas.
O conceito de mídia como suporte
de mediação foi criado por McLuhan (1964) e seguido de diferentes
modos por Kerckhove (1997), Debret (1993), Martin-Barbero (1997),
Levy (1993), entre outros. Este grupo tende a ver o mundo como um
conjunto de mediações simultâneas. A escrita é uma tecnologia de
reforço e ampliação do tempo histórico (da memória social e do
pensamento científico objetivo) em um universo de eventos
simultâneos. Para eles, a TV (e a internet) apenas nos torna
conscientes da simultaneidade temporal do universo – da qual
estávamos parcialmente esquecidos.
E há também a teoria das três
mídias de Harry Pross (1997) - adotada por Bystrina (1995), Flusser
(2007, 2008), Baittello Jr. (2010), entre outros - uma sofisticada
interpretação culturalista dos processos de comunicação atual. A
teoria que combina aspectos das definições anteriores e ainda
insere o corpo como suporte comunicativo, propondo um modelo ternário
semelhante ao das ‘tecnologias da inteligência’ de Levy. Por
"mídia primária" entende-se toda comunicação
presencial, em que os interlocutores partilham de um mesmo contexto,
sediada no corpo, principalmente na fala (PROSS, 1997). Levy (1993)
chama-a de modo de interação um-um. Neste contexto, a comunicação
é sempre oral e a recepção é a memória do corpo, a imitação de
gestos, sons, palavras. E o consumo é coletivo e se confunde a
produção econômica de bens materiais e simbólicos. Na mídia
primária, o consumo e a recepção são presenciais e espontâneos,
ancorados no corpo como suporte em um contexto único de
interlocução. O que é produzido comunitariamente; é consumido
pelo grupo.
"Mídia secundária"
aqui é entendida como a comunicação em que os contextos de
transmissão e de recepção se dissociaram. Segundo Pross, é
formada por suportes extra corporais em que a mensagem fica fixa no
tempo e no espaço. A mídia primária do ponto de vista social e
cognitivo é um fator determinante para o aparecimento da história,
da memória social, do pensamento científico objetivo. Para Levy, é
o modo de interação um-muitos, em que um emite e os outros recebem
passivamente.
Neste cenário, a recepção é
formada por representações mentais foneticamente codificadas da
realidade - a memória social objetiva, descontextualizada e
mimetizada através de representações mentais codificadas. Com a
escrita, surge a divisão entre trabalho manual e trabalho
intelectual, entre a produção de bens materiais e a produção de
bens simbólicos. E o consumo passa a ser dissociado da produção. A
equivalência econômica do modo de interação um-muitos é o modelo
industrial em que alguns poucos produzem e muitos consomem. O consumo
deixa assim de ser grupal e se individualiza: o leitor como receptor
da escrita é análogo ao consumidor individual.
Assim, na mídia secundária,
surge à recepção do signo, a representação mental
descontextualizada e codificada em marcas fonetizadas; e com ela: a
práxis histórica, a memória social e a percepção objetiva do
tempo.
Em contrapartida, o consumo
torna-se pouco a pouco individual e se divorcia da produção social.
E a própria produção material aparentemente se dissocia da
produção de bens simbólicos. A sociedade se industrializa
economicamente e se desencanta culturalmente. A reprodução social
(os esquemas subjetivos) modifica as condições objetivas de
produção social.
A mídia secundária não anula a
primária, mas se sobrepõe a ela. Assim, a recepção e o consumo
primários continuam ativos nos contextos dos processos secundários
de industrialização cultural. Mas, também é importante observar
que gradativamente, no decorrer dos últimos séculos, a comunicação
secundária tornou-se dominante culturalmente.
E mídia terciária ou elétrica,
segundo Pross, implica na existência de suportes tecnológicos nos
dois polos da comunicação. Há dois momentos aqui: a televisão,
quando a mídia terciária funciona ainda de forma unilateral; e as
redes sociais interativas, que funcionam em um modelo
descentralizado, que Pierre Levy entende como o modo de interação
muitos-muitos.
Com o advento da mídia terciária,
a recepção tornou-se uma experiência do corpo recontextualizada
por imagens e sons mediados por tecnologia. Com a televisão, a
própria cultura se industrializa: irrompe a recepção fragmentada
das narrativas seriadas e o comportamento de consumo de massa.
Consumo, além de padronizado e uniforme, posto em universo cultural
de repetição mecânica, de acumulação e gasto em intervalos
regulares e constantes. As rotinas de consumo são retroalimentadas
pelas narrativas seriadas que as representam.
No entanto, é preciso observar que ela também
representa um aperfeiçoamento progressivo do termo e de suas
definições anteriores. Para compreendermos que há uma mediação
externa e uma mediação interna às relações sociais foi
necessário entender as definições antropológica e sociológica de
Cultura.
Também podemos dizer que para explicarmos a mediação
interna da cultura foi necessário estudar as definições voltadas
para a crítica do papel dissimulador da cultura (freudiana, marxista
e estruturalista); enquanto para definir a mediação externa da
cultura com o meio ambiente foi preciso revisar as definições que
enfatizam a consciência coletiva, a identidade social, a memória e
a ciência (positivistas, funcionalista e cibernéticas).
A cultura como dupla mediação social combina do
conceito de Meio de McLuhan com a noção de democracia deliberativa
de Habermas. Ação comunicativa é o cimento e o combustível das
relações sociais (ambientais e culturais).
LEIA MAIS EM: A cultura como dupla mediação social
NOTAS