sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

os 5 macacos


 Um grupo de cientistas colocou 5 macacos em uma gaiola e no meio da gaiola colocaram uma escada com bananas no topo. Cada vez que um macaco subia a escada, os cientistas disparavam um jato de água fria nos demais macacos. Depois de um tempo, cada vez que um macaco tentava subir a escada, os outros macacos batiam nele. Com o passar do tempo, nenhum macaco ousava subir a escada apesar da tentação. Os cientistas então decidiram substituir um dos macacos. A primeira coisa que esse novo macaco fez foi subir a escada. Imediatamente os outros macacos bateram nele. Depois de alguns espancamentos, o novo macaco aprendeu a não subir a escada mesmo que não soubesse o porquê. O segundo macaco foi substituído e a mesna coisa aconteceu: apanhou. O primeiro macaco participou do espancamento do segundo macaco. Um terceiro macaco foi substituído e o mesmo se repetiu. O quarto foi substituído e o espancamento foi repetido e finalmente o quinto macaco foi substituído. O que restou foi um grupo de 5 macacos que mesmo sem nunca terem recebido um banho de água fria, continuaram a bater em qualquer macaco que tentasse subir a escada. Se fosse possível perguntar aos macacos por que eles bateriam em quem quer que tentasse subir a escada, eu apostaria que a resposta deles seria: “Eu não sei. É assim que as coisas funcionam por aqui.”

A menção mais antiga sobre essa história é de um livro de 1996 chamado Competindo Pelo Futuro: Estratégias Inovadoras Para Obter o Controle do seu Setor e Criar os Mercados de Amanhã, de autoria de Gary Hamel e C. K. Prahalad, mas a história contada lá é um pouco diferente:

Quatro macacos em uma sala. No centro da sala há um poste alto com um cacho de bananas suspenso no topo. Um dos macacos escala o poste e pega as bananas. Assim que ele pega a banana, ele é atingido por uma torrente de água fria vinda do teto. Ele corre como o diabo de volta para a base do poste sem as bananas. Eventualmente, os outros três tentavam fazer a mesma coisa e com as mesmas consequências. Finalmente, ele apenas sentavam e nem mesmo tentavam outra vez. Para o inferno com as bananas. mas então, eles removeram um dos quatro macacos e substituíram por um novo. O novo macaco entra na sala, vê as bananas e decide ir até lá. Quando ele está prestes a escalar o poste, os outros três o alcançam e o puxam para baixo. Depois de um tempo, ele entende a mensagem. Há algo errado, ruim ou demoníaco que acontece se você for atrás daquelas bananas. Então, eles substituíram um macaco por outro de cada vez e nenhum dos novos macacos sequer tentou escalar. Todos entenderam a mensagem. Não suba naquele poste. Nenhum deles sabia exatamente porque não se deveria subir no poste; eles só sabiam que não deveria subir. Todos eles respeitavam o precedente bem estabelecido. MESMO DEPOIS QUE O CHUVEIRO FOI REMOVIDO!

Em um livro de 1976 chamado Social Transmission of Acquired Behavior: A Discussion of Tradition and Social Learning in Vertebrates, o autor cita um experimento conduzido em 1967 por G. R. Stephenson, que foi publicado sob o nome de Cultural acquisition of a specific learned response among rhesus monkeys. Esse experimento é diferente daquele descrito, mas parece que essa foi a fonte de inspiração daquele livro de 1996:

Stephenson (1967) treinou machos e fêmeas adultos de macacos rhesus para evitar que manipulassem um objeto e então colocou animais ingênuos em uma jaula junto com animais treinamos da mesma idade e sexo e adicionou os objetos em questão. Em um dos casos, um macho treinado realmente afastou seu parceiro ingênuo do objeto cuja manipulação lhe causou punição anteriormente durante o período em que eles interagiram; os outros dois machos treinados exibiram o que foi descrito como “expressões faciais ameaçadoras junto com uma postura amedrontada” quando um animal ingênuo se aproximava do objeto manipulado. Quando deixado sozinho na jaula com o objeto em questão, macho ingênuos que foram expostos aos seus pares treinados demonstraram grande redução da manipulação do objeto em comparação com os controles. Infelizmente, treinamento e testa não foram conduzidos com um procedimento discriminatório. Assim, a natureza das informações transmitidas não pode ser determinada, mas mesmo assim os dados são de considerável interesse.

Referências

1. THROWCASE. That “Five Monkeys Experiment” Never Happened. Throwcase. Disponível em: [ http://www.throwcase.com/2014/12/21/that-five-monkeys-and-a-banana-story-is-rubbish/ ]. Acesso em 01 abr. 2020.

2. BLUERAJA. Was the experiment with five monkeys, a ladder, a banana and a water spray conducted?. StackExchange. Disponível em: [ https://skeptics.stackexchange.com/questions/6828/was-the-experiment-with-five-monkeys-a-ladder-a-banana-and-a-water-spray-condu ]. Acesso em 01 abr. 2020.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

carta aberta

Prezados colegas do DECOM/UFRN,

Escrevo-lhes para solicitar uma solução para um problema do ensino de comunicação no Brasil que nos aflige faz muitas décadas e que só agora, nos primórdios dos séculos XXI, se torna possível enfrentar. Trata-se da ausência de cursos (e consequentemente de profissionais capacitados) em comunicação organizacional (1) no Brasil.

Tal ausência acarretou no fato dos jornalistas ocuparem o espaço dos profissionais de Relações Públicas através de assessorias de imprensa. Além de atrasar adaptação das instituições sociais à sociedade de consumo através das estratégias de marketing formuladas pelos profissionais de RP, a ausência do ensino de comunicação organizacional descaracteriza o jornalismo do ponto de vista ético. O jornalismo está para promotor, assim como, a publicidade está para o advogado. Os dois primeiros defendem o interesse público, enquanto os últimos defendem os interesses de seus clientes. Colocar o jornalista como assessor de imprensa para cumprir o papel de uma agência de comunicação é um “desvio de função” ou um conflito de interesses (2).

Há inclusive várias monografias, dissertações e teses sobre o assunto. 

A criação de um curso de comunicação organizacional, assim, atenderia tanto a uma demanda social quantitativa enorme (empresas, sindicatos, igrejas, escolas, etc), como também a uma demanda qualitativa relevante: a correção de um sério desequilíbrio estrutural na economia política do mercado de comunicação. A comunicação organizacional, principalmente o marketing é uma ferramenta importante para passagem da sociedade industrial para sociedade de consumo. 

E, seguindo essa tendência histórica, várias universidades brasileiras nos últimos anos passaram a oferecer essa graduação: UFAL, UFMA, UFMG, UFSM, PUCs, ESPM, etc.

Na UFRN

Em 1998, o projeto de extensão OFFICINA DE COMUNICAÇÃO, coordenado pela professora Miriam Moema, do qual tive orgulho de participar, desencadeou uma verdadeira revolução no curso de comunicação e na UFRN, apresentando várias propostas, inclusive uma campanha institucional para universidade – que não chegou a ser produzida na íntegra. 

O aluno Alan Kardec, hoje repórter internacional da Rede Globo, chegou a esbouçar um plano de marketing para UFRN. Mas, o entendimento dos dirigentes da época era que marketing era uma forma de planejamento para as empresas posicionarem seus produtos no mercado (e não de reorganização institucional em relação ao atendimento de seus públicos-alvo específicos) fez com que suas ideias fossem engavetadas.

A AGECOM foi criada em resposta ao movimento, mas as ideias da professora e dos seus alunos não foram levadas adiante. E a agência se tornou uma 'agência de notícias' e não uma agência de comunicação (que trabalha com diferentes públicos externos e internos, centraliza os eventos, zela pela imagem da instituição, de elabora pesquisa de opinião). 

Paralelamente a isso, a proposta de uma habilitação em RP foi derrotada em plenária no DECOM, que deu preferência ao curso de radialismo e, posteriormente, ao de publicidade. 

Recentemente, no entanto, devido ao excelente trabalho do professor Francisco Duarte, a AGECOM tornou-se especializada em divulgação científica e ganhou outra missão institucional. 

Mas, a missão institucional de comandar a TVU, a rádio universitária e os demais meios de comunicação com estratégias e campanhas para otimizar as relações institucionais com a sociedade e com os próprios professores, alunos e funcionários nunca foi realmente efetivada. 

Os cursos de Relações Públicas se tornaram uma necessidade no alvorecer do século XXI e convergem com as mudanças que o mundo vem experimentando nas últimas décadas, em relação às inovações estruturais nos modos de produção e circulação de informação,  

Hoje, mais do que nunca, há oportunidade de corrigir esse desequilíbrio estrutural que se arrasta por décadas, não apenas na universidade, mas sobretudo, na sociedade. 

Concluo, agradecendo ao colegas pela paciência de me ouvirem e reitero o pedido que criem uma comissão de trabalho para elaboração de Projeto Político Pedagógico de Comunicação Organizacional, lembrando que já contamos com parte da estrutura e dos profissionais necessários a essa empreitada. 

Marcelo Bolshaw Gomes


1A profissão de relações públicas é disciplinada desde 1967, pela Lei 5.377, e pelo Regulamento que define o seu exercício, por meio do Decreto 63.283, de 26/09/68. A constituição do Conselho Federal e dos Conselhos Regionais de Profissionais de Relações Públicas foi instituída pelo Decreto-Lei 860, de11/09/69. A Resolução Normativa nº 43, de 24/08/02, atualizou as funções e atividades privativas dos profissionais de Relações Públicas, tendo como fundamento as conclusões do Parlamento Nacional de Relações Públicas, que foi o esforço nacional realizado e organizado pela categoria sob o comando do seu Conselho Federal, com o intuito de modernizar a atividade a adequar-se às exigências dos novos tempos.

2O texto Assessoria de imprensa não é jornalismo: conflito de interesses no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros faz uma revisão completa da questão <https://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/view/14355>

sábado, 21 de novembro de 2020

memoria e narrativa

Um memorial é uma forma de agradecimento às coisas e pessoas que não queremos esquecer, que não queremos que sejam esquecidas pelos que vierem depois de nós: um monumento à assimilação mimética. Comemora a descoberta surpreendente de que estudo a imitação através da imitação; de que sou a soma criativa de várias assimilações miméticas, e que, um dia, certamente também serei assimilado.

Nietsche disse que a felicidade estava no esquecimento. Mas, escrever as próprias memórias é também se esquecer delas e ser feliz. Tirá-las da cabeça e coloca-las no papel para todos. Porém, talvez, essa seja a causa da infelicidade!

Temos memórias inatas (filogenéticas, hereditárias) e memórias adquiridas (ontogenéticas). Somos os animais com a menor memória filogenética de espécie e com a maior memória social do planeta. Perdemos a capacidade de transmitir experiência através do DNA, mas, em compensação, desenvolvemos a habilidade, aparentemente única, de transmissão de experiência em memórias sociais externas para o aprendizado cultural. Os neurocientistas reconhecem três tipos de memória adquirida: a memória operacional ou de curto prazo (semelhante ao microprocessador de um computador), responsável por gerenciar as atividades cognitivas imediatas; a memória de longo prazo (que pode ser comparado a um HD, o disco rígido em que se armazenam programas e arquivos); e a memória externa ou social (análoga à internet para as máquinas).

Lembremos também que as memórias artificiais estão atualmente diminuindo a necessidade da memória biológica de curto-prazo e permitindo a expansão de nossas memórias de longo prazo; e que o presente memorial foi escrito em um período de transição entre dois regimes de registro temporal.

A ciência distingue dois tipos de memória de longo prazo: a memória declarativa (ou explícita) e a não-declarativa (ou implícita). A memória declarativa armazena a informação sobre algo que aconteceu, e a memória não-declarativa como isto aconteceu. E usamos partes diferentes do cérebro para realizar as duas ações.

A memória declarativa se subdivide ainda em: episódica (lembranças de eventos específicos) e semântica (lembranças de fatos, pessoas, lugares, objetos). A memória declarativa equivale a uma ‘gramática’ (um sistema operacional), subdividida em uma memória lexical cronológica e uma memória sintática, que combina as lembranças.


Memória ontogenética

Curto Prazo

Imediata e de trabalho/rotinas

Longo Prazo

Declarativa

Episódica

Semântica

Não Declarativa

De procedimento;

Associativa;

Não associativa; e

de representação perceptual.

Coletiva

Representação cultural, meta memória

Memória filogenética

Inata, hereditária

Fonte: elaborado pelo autor

A memória não declarativa ou implícita, por sua vez, também tem diferentes modalidades: a memória de procedimento (que recorda de habilidades, como tocar um instrumento musical ou andar de bicicleta); a memória associativa (adquirida por condicionamento), a memória não associativa (aprendizado involuntário) e a representação perceptual (os sonhos, a imaginação, a emergência de insights, dicas, soluções lógicas, ‘mensagens’).

A memória não declarativa é aquela que apreendida através de Mimese, da imitação criativa, que interpreta o objeto imitado. Na máquina, ela se dá através da simulação e de emuladores, modeladores da linguagem binária. Emulação é a replica virtual, a duplicação reconfigurada do objeto. Na mimese, há uma consciência interpretante, criativa e crítica; que sutilmente compara o objeto copiado ao seu modo, agregando-lhe outras referências. Assemelha-se ao que Vilém Flusser chama de ‘devoração’, à assimilação antropofágica de conteúdo simbólico e sua reinterpretação.

Somos a soma das pessoas que admiramos e que imitamos criativamente em nossa personalidade, meu texto é uma síntese dos textos que mimetizei. Na cultura, no entanto, há apenas reprodução, mesmo que uma reprodução que planeja e reestrutura seus próprios parâmetros de organização. Há homens mecanicamente emuladores, papagaios de outros; mas não há máquinas criadoras de novos padrões ontológicos.

A analogia entre as memórias artificiais e biológicas termina aqui. Não apenas porque a Mimese difere muito da simulação, mas, sobretudo, porque o acesso às meta-memórias culturais difere da troca de dados através da internet. Há, na verdade, uma grande confusão sobre memórias coletivas, pois alguns pensam na memória filogenética da espécie, outros na memória não-declarativa e outros ainda nas memórias sociais. 

Joel Candau (2018) faz a mais completa revisão dos estudos a respeito da memória. Para ele, memória e identidade formam uma contradição dialética indissociável. A memória é uma reelaboração cognitiva permanente do passado e a identidade é elaborada, definida e redefinida na interação social no contexto presente. A memoria é uma narrativa organizada pela identidade e a identidade, uma imagem formada pela memória. Ambas, no entanto, estão a serviço do futuro, de um projeto, do devir. Da contradição entre a memória e a identidade, nasce um destino. 

Candau estabelece três tipos de memória: a) memória de baixo nível ou protomemória (equivalente às memórias filogenéticas e às memórias não-declarativas); 2) memória de alto nível - constituída por lembranças e/ou por reconhecimentos; e 3) a metamemória – uma representação da memória atrelada à identidade e às noções de semelhança ou pertencimento. 

A rigor, para ele, não existiria uma memória coletiva biológica, mas sim a identidade reforçando os sentimentos de procedência, historicidade e pertencimento. Assim, sua análise não aceita expressões e figuras totalizantes supostos conjuntos estáveis, duráveis e homogêneos de  representações como realidades empíricas, embora os aceite como instrumento analítico ou como “configurações narrativas”. 

No polo oposto ao de Candau, existe também a hipótese dos campos morfogênicos elaborada por Rupert Sheldrake de que há memórias atemporais (espíritos, situações, arquétipos) armazenadas em um campo elétrico-magnético embutido na realidade. Nesse caso, a ‘mente mamífera’ (formada pelas memórias não declarativas de representação perceptual) funcionaria telepaticamente como uma internet biológica, uma ‘telenet’.

Não há, no momento de transição desse memorial, como saber sobre o impacto que as memórias artificiais (e a internet) terão sobre as biológicas. Tanto podemos desenvolver um ‘chip cerebral’ criando uma prótese telepática (aumentando nossa distancia da memória filogenética) como, ao contrário, readquirir e ampliar nossa capacidade de lembrança hereditária, diminuindo a necessidade de aprendizado e treinamento: o sonho do esquecimento feliz que Nietzsche desejou. Seja como for, esse memorial deseja descrever a riqueza de seu momento para que não seja esquecido.

Descrever o presente (sempre) para narrar (novamente) o passado e (re) imaginar o futuro.

Agostinho faz uma reflexão sobre o tempo e o ser. O tempo já foi (não existe mais) e será (ainda vai existir). Apenas no presente ele é no momento fugaz de sua captura pela consciência. Por outro lado, o tempo contínuo ‘só existe’ em sua representação na linguagem, através de relógios, tabelas lunares, calendários ou marcações arquitetônicas. Embora só exista no presente, o tempo precisa ser representado para ser medido.

Aliás, o primeiro memorial que se tenha notícia é o livro Confissões, de Santo Agostinho. Escrito de forma autobiográfica e teológica, contando sua vida de pecador e sua conversão ao cristianismo, o livro também tinha uma dimensão política, ajudando ao então padre a tornar-se bispo de Hipona. Hoje, o memorial (descritivo) é um documento em que se relata a história acadêmica e profissional, exigido em concursos públicos. Para Agostinho, há a lembrança das coisas dos homens, referente à consciência individual; e a lembrança das coisas de Deus, a memória do Inconsciente coletivo. Os dois lados da caverna de Platão, os hemisférios cerebrais.

Escrever por aforismos é estabelecer uma arqueologia da própria memória em módulos, um inventário de arquivos que nos caracterizam. E essa é nossa proposta aqui: descrever memórias através de aforismos sobre contextos de formação. A ideia foi organizar uma arqueologia de memórias históricas de forma fragmentada. Embora os aforismos pareçam desconexos, não guardando relação causal de continuidade entre si, na verdade, eles formam um mosaico de meu percurso biográfico e intelectual.

Escrever através de aforismos (ou pensar 'por marteladas' como disse Nietzsche) nos torna assistemáticos, deixando várias lacunas e pontas soltas. Os aforismos tornam-se densos, desconexos e sua sequência, aparentemente fragmentada; mas com um fio condutor que se torna visível durante a leitura: a produção dos transgressores pelas regras e a assimilação dos contrários – pelo sistema como negação da negação. Mais do que um sentimento de perda (do que nunca me pertenceu), essa constatação é libertadora, trazendo a leveza alegre da vida sem a responsabilidade de resolver os problemas do mundo. 

Dedico esses trabalhos a todos de quem assimilei conhecimentos (vocês vivem em mim) e aos futuros leitores que entenderem e assimilarem de alguma forma a experiência de vida oferecida por este memorial. E, por tudo isso, só me resta agradecer a oportunidade de reconhecer a liberdade deste exercício.

Fragmentos de um tempo presente - memorial acadêmico

Autobiografia teórica de um intelectual autista - memórias completas


Referências bibliográficas

BAUMAN, Zigmunt. Modernidade líquida. RJ: Jorge Zahar, 2005.

CANDAU, Jöel. Memória e Identidade. 1. ed. São Paulo: Contexto, 2018.

domingo, 1 de novembro de 2020

O SEQUESTRO DA FALA

MÉTODO TRÍPLICE DE ANÁLISE DOS SÍMBOLOS DA MÍDIA 

A mídia, na modernidade, sequestrou o 'lugar da fala' da autoridade pública e religiosa. Nas culturas pré-modernas, a informação era distribuída unicamente a partir dos estados e das igrejas. Ao se estabelecerem instituições de mediação com autonomia relativa, o 'monopólio da fala' foi terceirizado. Assim, a mídia é, ao mesmo tempo, um campo aberto para o diálogo direto entre os atores políticos e o público; e também mais um ator político com interesses próprios em um contexto social mais amplo. Ela é simultaneamente um campo para os agentes políticos e um agente social invisível que seleciona, hierarquiza e dá visibilidade aos acontecimentos. 

Thompson prescreve uma metodologia hermenêutica não como uma alternativa aos outros métodos de análise já existentes, mas sim como um referencial metodológico geral, dentro do qual alguns desses métodos e técnicas específicas podem ser correlacionadas entre si. 

Por entender que os processos de compreensão e de interpretação devem ser vistos não como uma dimensão metodológica que exclua radicalmente uma análise subjetiva, mas antes como uma dimensão que está no início e no final do conhecimento ao mesmo tempo, Thompson: a) parte da compreensão imediata que se tem de uma determinada forma simbólica na vida cotidiana, b) analisa objetivamente esta interpretação preliminar (consorciando vários métodos), e c) reinterpreta o significado da forma simbólica. A esta metodologia geral de interpretação dos discursos dos meios de comunicação, chama-se “enfoque tríplice” (THOMPSON, 1995: 355).


Emissor

Mensagem

Receptor

OBJETO

Análise sócio-histórica da produção e transmissão

Análise Formal ou Discursiva

Análise sócio-histórica da apropriação

METODOS

Situações espaço-temporais

Campos de interação

Instituições Sociais

Estrutura Social

Meios técnicos de transmissão

Análise semiótica

Análise de conversação

Análise sintática

Análise narrativa

Análise argumentativa

Interpretação das Mensagens

Mapa das diferentes interpretações

Re-interpretação da interpretação

RESULTADO

Síntese Hermenêutica


Inicialmente (1995, 366), o objetivo da análise sócio histórica é reconstruir as condições sociais e históricas de produção, circulação e difusão das formas simbólicas. As maneiras como essas condições influenciam podem variar de acordo com a situação e o objeto pesquisado. Thompson propõe alguns níveis de análise: as situações de tempo/espaço em que as formas simbólicas são produzidas; os campos de interação (face a face, interação mediada); as instituições sociais; a estrutura social (as classes sociais, as relações entre gêneros e outros fatores sociais permanentes) e os meios técnicos de transmissão de mensagens (a fixação material e a reprodução técnica dos sinais). Em um segundo momento (1995: 369), toma-se a forma simbólica como um texto, isto é, uma estrutura narrativa relativamente autônoma de sua produção e de seu consumo. Neste sentido, a análise simbólica implica em uma abstração metodológica das condições sócio históricas de produção e recepção das formas simbólicas. Thompson adota vários métodos de análise discursiva: semiótica, sintática, narrativa, argumentativa, etc.

Finalmente (1995: 375), na última fase de sua hermenêutica, Thompson leva em conta a interpretação criativa do significado das formas simbólicas em diferentes contextos de recepção, inclusive no próprio contexto do analista/enunciador da interpretação. A análise dos diferentes contextos de recepção demonstra que por mais rigorosos que sejam os métodos e técnicas, eles não podem abolir a liberdade de interpretação dos públicos e das situações em que se encontram inseridos.

Aliás, temos, dentro da proposta do enfoque tríplice, uma síntese entre três tipos de estudos distintos da área de comunicação: a) A sociologia dos meios de comunicação (os estudos centrados no contexto de transmissão – seja na versão crítica que denuncia a indústria cultural ou na funcionalista que enaltece a comunicação de massa); b) a semiótica (e os vários tipos de estudos em torno da linguagem verbal e visual, retórica, filosofia analítica, analise discursiva e a própria hermenêutica); c) e, finalmente, os diferentes tipos de estudos de recepção (pesquisas de opinião quantitativas e qualitativas, pesquisas de agendamento e de análise bibliográfica especializada).

Thompson considera que em estudos midiáticos, ao contrário da hermenêutica literária tradicional, a “autonomia semântica das mensagens” é secundária diante dos contextos históricos de transmissão e recepção. E com essa ênfase sociológica nos contextos históricos dos interlocutores, Thompson não está apenas ampliando o alcance teórico da hermenêutica para além do discursivo, mas também adaptando a teoria da interpretação para o âmbito da sociologia da comunicação.


LINGUAGEM

EMISSOR

Práticas Sociais

RECEPTOR

Produção de Sentido


Atualmente, chama-se de 'Práticas Sociais' aos estudos envolvendo a relação entre a estrutura e a mensagem; e de 'Produção de Sentido' para os que enfatizam a relação entre linguagem e recepção.



Bibliografia

THOMPSON, John B. Ideologia e Cultura Moderna – teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. Petrópolis: Vozes, 1995.


Teoria da Comunicação

 


O MAPA DAS IDÉIAS SOBRE A MÍDIA

Em um primeiro momento, abordaram-se aqui as definições de cultura elaboradas a partir da ênfase nos contextos sócio históricos do emissor (o positivismo, o funcionalismo, o marxismo). Depois, apresentaram-se as definições de cultura que ressaltam a linguagem (o estruturalismo, a semiótica). E, finalmente, chegamos as definições elaboradas a partir dos contextos sócio históricos da recepção (a midiologia e a sociologia da mídia).


EUA

EUROPA

FUNCIONALISMO

(Parsons, Lasswell, Moles e Merton)

ESCOLA DE FRANKFURT

(Benjamim, Adorno, Habermas)

2 Guerra Mundial (1945)

CIBERNÉTICA

(Nobert Wiener) McLuhan

SEMIÓTICA E ESTRUTURALISMO

Contracultura (1968)

MIDIOLOGIA (Debret, Barbero, Flusser) X

SOCIOLOGIA DA COMUNICAÇÃO (Castell, Morin, Thompson)


Na Europa, Houve um longo caminho teórico do estruturalismo até à Pós-modernidade: Lévi-Strauss (a estrutura como grande síntese); Lacan (o inconsciente linguístico); Bourdieu (teoria dos campos); Foucault (análise discursiva e genealogia do poder); Baudrilard (sedução e simulacro) e outras Semióticas (Peirce, Barthes, Eco, Greimas, Bystrina) das quais não falamos.

Elegemos Habermas e a noção de democracia deliberativa como sendo a contribuição mais importante deste percurso. Democracia deliberativa é a democracia representativa ampliada através dos meios de comunicação1.

A noção de democracia deliberativa é baseada na sociedade se estruturar em um tripé entre: a ação instrumental (o campo econômico, a objetividade e a esfera privada); a ação estratégica (o campo político, os sujeitos históricos e a esfera pública); e a ação comunicativa (o campo cultural, a intersubjetividade e a sociedade civil).

Nos EUA, também houve um longo percurso de desenvolvimento teórico: a Teoria hipodérmica é a primeira tentativa de explicar o comportamento condicionado pela mídia e acreditava na manipulação completa das massas através dos meios de comunicação. Em seguida, veio a Teoria da Persuasão, abordagem psicológico experimental baseada na retórica de Aristóteles: Harold Lasswell e a análise de conteúdo (quem diz o quê por meio de qual meio a quem com que efeito?) Surge, então, a abordagem funcionalista. Robert Merton, Abraham Moles, Paul Lazarsfeld. A questão de fundo já não são os efeitos mas as funções exercidas pela comunicação de massa na sociedade. Estudo da comunicação a partir do problema do equilíbrio e do conflito sociais. A cibernética, o sistema tende a entropia e não a homeostase; a disfunção é compreendida como ruído. Os feedbacks promovem auto organização contra a incerteza.

A cibernética e McLuhan (a midiologia) são aperfeiçoamentos da sociologia funcionalista. Como também são as novas abordagens (Agenda-setting, Gatekeeper, Newsmaking, Espiral do silêncio) sobre os receptores, os processos produtivos nas comunicações ou sobre os fatores internos e externos à organização do trabalho comunicativo.

Elegemos Marshall McLuhan e o conceito de mediação como os mais importantes deste segundo percurso.

E mediação não é o mesmo que midiatização2. Mediação com ‘e’ é um agenciamento que transforma conflitos em diálogos simbólicos. Já ‘midiatização’ (com ‘i’) significa um regime em que as relações entre diferentes agentes são mediadas (com ‘e’) pelos meios de comunicação. Diz-se que algo foi ‘midiatizado’ quando sua existência virtual se torna mais importante do que sua materialidade.

Da mesma forma que uma sociedade não formula problemas que não seja capaz de responder, também podemos dizer que as diferentes definições da noção de cultura refletem diferentes tempos e etapas de nossa vida social recente. Vivemos em um tempo midiático. Nada mais normal que nossa definição de cultura ser baseada nas ideias de mediação e de midiatização da sociedade.

Mas, o que exatamente significa ‘mídia’? E quais as mudanças ela coloca na prática de contar estórias? Pode-se entender o conceito de mídia em três sentidos diferentes: o sociológico (a mídia é o conjunto dos meios de comunicação); o midiológico (a mídia é o suporte de uma mediação, por exemplo: o relógio de pulso (mídia) é uma mediação entre o batimento cardíaco e o tempo social); e a teoria das três mídias de Pross (1997).

No primeira definição, a mídia é uma instituição de poder simbólico, ao lado de outras instituições de poder simbólico (como a igreja, a escola); em uma sociedade formada ainda por instituições de poder econômico (fábricas, empresas), de poder político (governos, parlamentos, tribunais) e de poder coercitivo (polícia, exército). A centralidade da mídia sobre as outras instituições, deste ponto de vista, se dá pela sua capacidade de circulação e distribuição de imagens e informações de forma simultânea para um grande número de pessoas.

O conceito de mídia como suporte de mediação foi criado por McLuhan (1964) e seguido de diferentes modos por Kerckhove (1997), Debret (1993), Martin-Barbero (1997), Levy (1993), entre outros. Este grupo tende a ver o mundo como um conjunto de mediações simultâneas. A escrita é uma tecnologia de reforço e ampliação do tempo histórico (da memória social e do pensamento científico objetivo) em um universo de eventos simultâneos. Para eles, a TV (e a internet) apenas nos torna conscientes da simultaneidade temporal do universo – da qual estávamos parcialmente esquecidos.

E há também a teoria das três mídias de Harry Pross (1997) - adotada por Bystrina (1995), Flusser (2007, 2008), Baittello Jr. (2010), entre outros - uma sofisticada interpretação culturalista dos processos de comunicação atual. A teoria que combina aspectos das definições anteriores e ainda insere o corpo como suporte comunicativo, propondo um modelo ternário semelhante ao das ‘tecnologias da inteligência’ de Levy. Por "mídia primária" entende-se toda comunicação presencial, em que os interlocutores partilham de um mesmo contexto, sediada no corpo, principalmente na fala (PROSS, 1997). Levy (1993) chama-a de modo de interação um-um. Neste contexto, a comunicação é sempre oral e a recepção é a memória do corpo, a imitação de gestos, sons, palavras. E o consumo é coletivo e se confunde a produção econômica de bens materiais e simbólicos. Na mídia primária, o consumo e a recepção são presenciais e espontâneos, ancorados no corpo como suporte em um contexto único de interlocução. O que é produzido comunitariamente; é consumido pelo grupo.

"Mídia secundária" aqui é entendida como a comunicação em que os contextos de transmissão e de recepção se dissociaram. Segundo Pross, é formada por suportes extra corporais em que a mensagem fica fixa no tempo e no espaço. A mídia primária do ponto de vista social e cognitivo é um fator determinante para o aparecimento da história, da memória social, do pensamento científico objetivo. Para Levy, é o modo de interação um-muitos, em que um emite e os outros recebem passivamente.

Neste cenário, a recepção é formada por representações mentais foneticamente codificadas da realidade - a memória social objetiva, descontextualizada e mimetizada através de representações mentais codificadas. Com a escrita, surge a divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual, entre a produção de bens materiais e a produção de bens simbólicos. E o consumo passa a ser dissociado da produção. A equivalência econômica do modo de interação um-muitos é o modelo industrial em que alguns poucos produzem e muitos consomem. O consumo deixa assim de ser grupal e se individualiza: o leitor como receptor da escrita é análogo ao consumidor individual.

Assim, na mídia secundária, surge à recepção do signo, a representação mental descontextualizada e codificada em marcas fonetizadas; e com ela: a práxis histórica, a memória social e a percepção objetiva do tempo.

Em contrapartida, o consumo torna-se pouco a pouco individual e se divorcia da produção social. E a própria produção material aparentemente se dissocia da produção de bens simbólicos. A sociedade se industrializa economicamente e se desencanta culturalmente. A reprodução social (os esquemas subjetivos) modifica as condições objetivas de produção social.

A mídia secundária não anula a primária, mas se sobrepõe a ela. Assim, a recepção e o consumo primários continuam ativos nos contextos dos processos secundários de industrialização cultural. Mas, também é importante observar que gradativamente, no decorrer dos últimos séculos, a comunicação secundária tornou-se dominante culturalmente.

E mídia terciária ou elétrica, segundo Pross, implica na existência de suportes tecnológicos nos dois polos da comunicação. Há dois momentos aqui: a televisão, quando a mídia terciária funciona ainda de forma unilateral; e as redes sociais interativas, que funcionam em um modelo descentralizado, que Pierre Levy entende como o modo de interação muitos-muitos.

Com o advento da mídia terciária, a recepção tornou-se uma experiência do corpo recontextualizada por imagens e sons mediados por tecnologia. Com a televisão, a própria cultura se industrializa: irrompe a recepção fragmentada das narrativas seriadas e o comportamento de consumo de massa. Consumo, além de padronizado e uniforme, posto em universo cultural de repetição mecânica, de acumulação e gasto em intervalos regulares e constantes. As rotinas de consumo são retroalimentadas pelas narrativas seriadas que as representam.

No entanto, é preciso observar que ela também representa um aperfeiçoamento progressivo do termo e de suas definições anteriores. Para compreendermos que há uma mediação externa e uma mediação interna às relações sociais foi necessário entender as definições antropológica e sociológica de Cultura.

Também podemos dizer que para explicarmos a mediação interna da cultura foi necessário estudar as definições voltadas para a crítica do papel dissimulador da cultura (freudiana, marxista e estruturalista); enquanto para definir a mediação externa da cultura com o meio ambiente foi preciso revisar as definições que enfatizam a consciência coletiva, a identidade social, a memória e a ciência (positivistas, funcionalista e cibernéticas).

A cultura como dupla mediação social combina do conceito de Meio de McLuhan com a noção de democracia deliberativa de Habermas. Ação comunicativa é o cimento e o combustível das relações sociais (ambientais e culturais).

LEIA MAIS EM: A cultura como dupla mediação social


NOTAS

1 Habermas foi associado a Gramsci pelo eurocomunismo, fundamentando uma estratégia de chegar ao poder pela via eleitoral (e através da organização política da sociedade civil ampliando a esfera pública).

2 Há extensas discussões sobre os termos ‘mídia’ e ‘média’ como traduções do conceito de ‘Meio’ do inglês e do latim. A ideia de que a sociedade é um conjunto de mediações e que existem três meios fundamentais (a fala, a escrita e o vídeo) é o que faz de McLuhan um pioneiro e que caracteriza a midiologia como movimento teórico, incluindo não apenas Martin Jesus Barbero e Regis Debret, mas pensadores como Flusser e Pross.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

feminismo1

 

FEMINISMO, LUTA DE CLASSES E MOVIMENTOS IDENTITÁRIOS

Este texto é para você que - como Nancy Fraser - acha que a afirmação de identidades individuais divide a luta política contra o capitalismo.



Marcelo Bolshaw Gomes1

  1. Introdução

Por uma questão de honestidade, temos que declarar apriori que a liberdade (de escolha e do Ser2) é inversamente proporcional à identidade cultural e pessoal, imagens de pertencimento que fazemos de nós mesmos - que sempre inclui apenas alguns poucos elementos simbólicos em detrimento de muitos. A identidade é uma entidade exclusora, que aprisiona simbolicamente o homem. O homem livre é aquele que não se identifica com nada, não tem raça nem sexo, que não é ninguém. Assim, toda identidade territorial é um convite para o fascismo. E até mesmo a identidade humana em relação ao meio ambiente nos parece limitar novas possibilidades.

Portanto, somos totalmente suspeitos para tratar de um tema que não nos diz respeito: que a luta política pela afirmação das identidades étnicas e de gênero estão fragmentando os movimentos sociais e os partidos de esquerda. E, talvez, por isso mesmo, por não termos 'lugar de fala' sobre o tema, tenhamos sim alguma coisa nova a dizer a respeito. Justamente pela 'não identidade' com os diversos pontos de vista desse debate.

Um primeiro ponto a esclarecer é que o movimento feminista não parece ser um movimento identitário equiparável às lutas anti racistas e LGBT. Mas, uma parte do movimento feminista acolheu essa bandeiras e acabou se confundindo com elas. Hoje é comum ver a extrema direita (Trump, Bolsonaro, etc) combater o feminismo criticando moralmente seus aliados.

O mesmo equivoco ocorre com a esquerda ortodoxa, que considera que o feminismo e seus agregados estão 'dividindo o movimento' político anti capitalista e levando a extrema direita novamente ao poder. Para esses: “A classe nos une, o gênero nos divide” (VAZQUEZ 2018). E, assim, é preciso derrotar o capitalismo antes e o patriarcado, depois. E é esse argumento que vamos aqui contestar3.

  1. Homens falando de mulher

Para essa contestação descabida, convocamos alguns autores 'bem' masculinos, portanto, também suspeitos e ao mesmo distantes do debate atual: Morin, Bourdieu e Enriquez.

Para Edgar Morin (1977), a contracultura representou uma 'revolução feminina' (e não necessariamente feminista) em termos de valores. Morin acredita que a entrada das mulheres no mercado de trabalho e na vida social as tornou sujeitas de si, gerando uma 'desobjetificação' do feminino e da natureza. Para ele, a natureza deixa de ser representada como um objeto a ser explorado, deixa de ser visto como algo 'econômico' e quantitativo para ser como algo ecológico e qualitativa. O valor de troca uniforme-serial do modelo industrial é substituído pela noção de biodiversidade em diferentes níveis, de que a riqueza está, não em possuir uma grande quantidade de uma única coisa, mas pequenas quantidades de muitas coisas.

Outra contribuição masculina relevante é a de Pierre Bourdieu, em seu livro A Dominação Masculina (2002). Bourdieu não utiliza o conceito de 'Gênero', mas sim os de 'violência simbólica', 'habitus' e 'arbitrário cultural' para caracterizar os mecanismos de submissão semi voluntários. Para ele, é o poder simbólico que impõe significações culturais como legítimas, dissimulando e naturalizando as relações de força que as sustentam. Segundo Bourdieu, a dominação masculina é uma forma particular de violência simbólica. Uma entre outras. E não aquela que fundamenta todas as outras. Há também um certo estruturalismo sem saída, um determinismo estrutural, em que os agentes em conflito não percebem a realidade além do seu campo de ação.

Na ótica dominante, o feminino está sempre ligado à necessidade, à terra, à explicação; enquanto o masculino reconhece-se no sonho, nos céus e no planejamento do futuro. A infraestrutura está por baixo; a superestrutura, em cima. Talvez por isso, o materialismo tenha sido tão invocado pelas classes dominadas e os mitos tenham tantas vezes sida considerada ideologia da classe dominante - porque essas imposições simbólicas culturais enraizavam-se na própria dominação de gênero. Ou o que equivale a dizer que não existe como mudar a reprodução das desigualdades entre os sexos porque nós mesmos estamos envolvidos nessa reprodução.

Menos fatalista e mais focado em uma explicação histórica de conjunto, a sociologia clínica de Eugenie Enriquez (1991) entende que o vínculo social de exploração entre os sexos é o modelo para a dominação entre grupos étnicos e, depois, de classes sociais. Se Bourdieu antecipa a noção de 'Gênero' de Joan Scott e das feministas pós estruturalistas; pode-se dizer que Enriquez equivale a Angela Jones e a interseccionalidade entre sexo, raça e classe.

Hoje existem várias mulheres que desenvolveram essa ideia de que a exploração feminina é anterior (e serve de base sobre a qual se ergue) a exploração social. Citamos algumas em seguida.

  1. As mulheres por elas próprias

Se você for marxista, acha que a exploração antecede a dominação. A dominação é necessário para exploração. Já se você for weberiano, ou mesmo gostar de Michel Foucault, pensa que a dominação – o desejo de impor sua vontade – é o fator primário e que a exploração econômica é apenas um usufruto da posse do outro. Porém, se você for uma mulher, essa distinção entre ser explorada e ser dominada não vai fazer muito sentido.

Mesmo assim existem feministas mais weberianas, como Barroso (2018) que problematiza a exploração e a dominação a partir da perspectiva de que o capitalismo está estruturalmente ligado ao patriarcado e ao racismo — não como legado, mas como necessidade. Enquanto outras preferem abordagens marxistas, como Kon (2002), que revisa discussões recentes sobre divisão de trabalho entre gêneros na economia política; discute a distribuição ocupacional por sexo, do ponto de vista histórico até as causas das diferenças salariais.

A mais contudente pensadora marxista é Silvia Federici (2019), que o 'trabalho reprodutivo' e 'de cuidados' que as mulheres fazem de graça é a base que torna possível o capitalismo. As mulheres, invisíveis, seriam a infraestrutura familar da infraestrutura social. Nos anos 70, Frederici foi uma das impulsoras das campanhas que começaram a reivindicar um salário para o trabalho doméstico realizado pelas mulheres sem nenhuma retribuição.

  1. Conclusão

E o que aprendemos com essas ideias?

Com Morin aprendemos que, para alterar a forma predatória pela qual o ser humano explora a natureza, não bastar extinguir a exploração do homem pelo homem, mas também a exploração do homem sobre a mulher. Com Bourdieu descobrimos que apesar do gênero ser uma violência simbólica não apenas contra as mulheres mas também contra os homens, esses últimos não são totalmente confiáveis no que se refere a abrir mão de seus interesses. Com Enriquez sonhamos com a possibilidade de reinventar o laço social.

As mulheres (sempre mais práticas sem contudo serem menos teóricas) nos ensinam todos os dias à resiliência e à adaptação aos novos tempos.

E, combinamos, meninos e meninas concordam que os tempos são realmente novos. A divisão social do trabalho por gênero colapsou. Acumulação primária de capital pela família se descapitalizou. O modelo patricarcal em que o capitalismo se organizou está ruindo.

No século que vem, os historiadores vão achar graça dos que acreditaram que as eleições de Trump e Bolsonaro eram mais importantes do que a mudança histórica global do comportamento feminino depois de muitos séculos de opressão. Eles ririam do fato de não percebemos que personagens como o presidente Trump e o capitão inominável serem meros catalizadores do futuro e que as mudanças estavam apenas começando.


REFERÊNCIAS


BARROSO, Milena Fernandes. Notas para o debate das relações de exploração-opressão na sociedade patriarcal-racista-capitalista. Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 133, p. 446-462, set./dez. 2018 http://dx.doi.org/10.1590/0101-6628.153


BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Tradução de Maria Helena Kuhner. Rio de Janeiro: Editora Bertrant Brasil, 2002.


ENRIQUEZ, E. Da Horda ao Estado - Psicanálise do Vínculo Social. Rio de Janeiro: Zahar, 1991.


FEDERICI, Silvia. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista; tradução de Coletivo Sycorax — São Paulo: Elefante, 2019. 388 p.


KON, Anita. Economia Política do Gênero: Determinantes da Divisão do Trabalho. Revista de Economia Política, vol. 22, nº 3 (87), pp. 473-490, julho-setembro/2002.


MORIN, Edgar. Cultura de Massas - o Espírito dos Tempos II (Necrose). Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 1977.


VAZQUEZ, Ana Carolina Brandão. A classe nos une, o gênero nos divide: imbricações entre patriarcado e capitalismo. Argum., Vitória, v. 10, n. 2, p. 135-147, maio/ago. 2018.



1 Homem branco, heterossexual e pequeno-burguês.

2“Liberdade de Escolha” é a 'liberdade de alguma coisa', ou a capacidade de decidir entre diferentes possibiidades. E “Liberdade do Ser” é a 'liberdade para alguma coisa', o sentir-se capaz de adaptação e mudança.

3Argumento já bem contestado pelo feminismo interseccional: https://www.geledes.org.br/sindrome-cansei-da-feminista-branca-uma-resposta-nancy-fraser/

terça-feira, 29 de setembro de 2020

DUALIDADE DOS MUNDOS

IGBÁKETÁ: O Senhor das três cabaças1


Olodumaré, deus demiurgo, deu ao seu filho Oxalá a missão de criar o mundo. Um saco com três cabaças. A primeira cabaça continha as cinzas de Ododua, a mãe terra. A segunda tinha o pó das estrelas de Obatalá, o céu. E a terceira estava vazia.

Oxalá partiu em sua jornada para cumprir sua missão de manhã, quando ainda era uma criança, Oxaguiã, e se esqueceu de agradecer a seu pai e de honrar a memória de todos os seres, com sacrífcios e oferendas. Ao cair da noite, quando se transforma no ancião Oxalufan e se apoia em seu cajado mágico, o Paxoró; Oxalá chegou a porta do Orum, o mundo espiritual. Lá encontrou seu irmão Exú – que descontente com a falta de consideração fraterna, havia planejado em pegar uma peça no mais velho.

“Tudo começa com a dádiva” - disse Exu da Porta do Céu.

- O que você deseja, Exu? - perguntou o ancião.

- Na verdade desejo partilhar com vocês as oferendas que recebo – disse Exu, materializando um prato de pipocas apimentadas e uma cabaça de água ardente em uma toalha vermelha e preta aos pés de Oxalá.

Oxalá havia caminhado o dia inteiro e estava faminto. Aceitou e comeu a pipoca oferecida por Exú sem perceber que ela estava fortemente temperado com pimenta de dendê. Quando a ardência se manifestou, Oxalá pediu água para Exú, que lhe deu a água ardente destilada do vinho de palma. Bêbado, o orixá caiu inconsciente e dormiu.

Exú, então, foi até o saco e retirou as três cabaças do saco da criação. Em seguida, misturou os pós negativo e positivo na cabaça vazia; sacudiu bem e soprou pelos quatro cantos do mundo, criando o Ayè, o mundo material.

Por isso, se diz que Oxalá é o senhor de Orum, o mundo espiritual; e que Exu é o senhor de Ayè, o mundo material.


1 Livre adaptação do mito compilado por Pierre Verger.