Para conhecer melhor o anarquismo, seus conceitos, suas fases e vertentes.
V. a Biblioteca Anarquista Lusófona < https://bibliotecaanarquista.org/special/index >
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PORQUE (AINDA) SOU ANARQUISTA
Notas para uma teoria política cyberpunk
1. Introdução
Em 2020, arrumei alguns desafetos devido ao texto “Porque não sou marxista (mas continuo estudando sociologia crítica)”, em que afirmo que Bourdieu e Foucault são muito mais radicais do que Marx. Entre as várias críticas que recebi, a mais interessante me acusa de confundir deliberadamente ideologia política com teoria social; e que eu deveria, ao invés de explicar “o que não sou”, dizer em que realmente acredito, uma política propositiva a partir da sociologia contemporânea.
Então, surgiu a ideia deste texto, não mais voltado para mostrar ao público político uma teoria social mais crítica e contundente que o marxismo, mas, sobretudo, para repensar uma ideologia política mais completa, atual e sociologicamente fundamentada do que a professada pelo senso comum de direita e de esquerda.
Quando me declaro politicamente anarquista, não é um virtude de Bakunin e Proudhon. Aliás, concordo com as críticas de Marx e Lenin a esses autores. E, embora goste de Emma Godman, Piotr Kropotkin e de Henry David Thoreau (e concorde com suas ideias sobre feminismo, mutualismo e desobediência civil), considero que essas ideias são distorcidas e apropriadas pela ideologia anarco-capitalista.
Meu anarquismo tem mais a ver com o espírito da Guerra Civil Espanhola; e com três conjunto teóricos dispersos e diferentes: a antropologia política da contracultura, a cibercultura atual (que incorpora a ideia de máquina e de informação) e o conceito de ‘Autopoesis’ (a auto-eco-organização) elaborado pela teoria dos sistemas complexos.
Vamos detalhar AQUI cada um desses pontos em três revisões.
Marcelo Bolshaw Gomes
INTRODUÇÃO
A comunicação, como campo teórico, sempre oscilou epistemologicamente entre a sociologia da mídia e a sociolinguística, entre as práticas sociais e a produção de sentido, entre um mundo construído por mensagens e o lugar em que o pensamento usa a linguagem para conhecer o universo. acredita no intercâmbio simbólico entre as consciências, pressupõe, uma base consensual partilhada entre os sujeitos: a intersubjetividade.
Hoje pensamos que a comunicação é mímese, replicação, duplicação. Não há emissor nem receptor. Não há código. Todos são emissores/receptores; e tudo é processado em cada um. Deixamos a concepção que via o comunicar como ‘algo’ que saia de um lugar para outro (o paradigma transmissionista), para uma forma de pensar simultânea (o paradigma da comunicação instantânea).
A mudança no significado de como se dá a comunicação acompanha a mudança em outro conceitos e também de uma forma de pensar a ciência - que antes acreditava na objetividade e agora enfatiza o compreender para então explicar.
O conceito de sistema, por exemplo. Maturana vai redefinir Sistema em função da autorreferência (o sistema observa a si próprio) e de autopoiesis (o sistema produz e reproduz a si mesmo). O importante não é a interação dos elementos internos, mas sim a relação entre a auto-organização do sistema e seu entorno, ou ambiente externo. O novo conceito de Sistema implica em um lado de dentro que observa um lado de fora, em autorreferência. A observação de si também é uma operação sistêmica com consequências no sistema/ambiente observado.
Todo o sistema que se autoproduz, que se faz unidade de diferença, se singulariza e passa a se constituir numa identidade. O sistema também ganha autonomia, uma vez que diversifica seus acoplamentos de entrada e saída do ambiente, diminuindo sua dependência estrutural do exterior. A autopoiesis ou auto-organização é assim uma conquista de autonomia do sistema em relação às incertezas do ambiente externo.
Luhmann distingue quatro tipos de sistemas: o inorgânico, o biológico (a célula, o cérebro, o corpo, o meio ambiente, etc), o psíquico e social. Esses tipos de sistemas são interpenetrados uns aos outros. O inorgânico é ambiente externo para o sistema biológico, que por sua vez é ambiente para os sistemas psíquico e social. Somos sistemas biológicos, com suporte inorgânico, que se observam através de um sistema psíquico condicionado por um sistema social.
Os quatro sistemas têm interseções e entornos próprios, incluindo/excluindo parte dos outros dois sistemas. Nesse modelo sistêmico não existe nem ação nem estrutura, nem sujeito nem objetividade, apenas o sistema/entorno, em seu crescimento através de operações de diferenciação voltadas para dentro, reduzindo a complexidade externa através da autoorganização. Os sistemas se assemelham a filtros da complexidade.
Assim, todo sistema é autoreferente e autopoético. Não existem sistemas lineares e fechados. Todo sistema é um ecossistema aberto, todo sistema é complexo de outros sistemas acoplados. O sistema é algo que estabelece relações consigo mesmo e se diferencia dessas relações frente às de seu entorno.
Comunicação
Nesse novo paradigma, a comunicação é um sub-sistema de controle atrelado a cada sistema (uma metalinguagem reduzida e simplificada de cada sistema), justamente para cada sistema tenha uma relação com outros e se atualize e/ou reafirme em sua auto organização. A esses sistemas chamamos ‘mídias’, em um sentido geral, sejam empresas de comunicação, fenómenos culturais ou meros aparelhos celulares.
E “Ecologia das Mídias” significa o conjunto desses sistemas de diferenciação em relação ao ambiente formado por todos os outros sistemas. Há quatro formas de diferenciação: segmentação horizontal, estratificação vertical, centro-periférica e diferenciação de sistemas funcionais. Nos sistemas sociais mais evoluídos, Luhmann identifica quatro subsistemas funcionais: adaptação (economia), realização de metas (política), integração (sistema legal), manutenção de padrões latentes (instituições culturais como a escola, a igreja e … os meios de comunicação). Então, há também um conceito mais estrito de ‘mídia’ como um sistema funcional de manutenção dos padrões. A ecologia de um programa de rádio, por exemplo, seria estabelecer o programa como sistema (com entradas e saídas) dentro de vários outros agregados internos (o sistema-programação, o sistema-emissora) e externos (o sistema-público, o sistema-anunciantes, o sistema-concorrentes).
A comunicação, para Luhmann, é a permuta (de energia, informação, recursos) entre sistemas sociais e não entre pessoas. Não há transferência de informação ou de conteúdos semânticos entre interlocutores. A Comunicação é produção de redundância instantânea (uma Mímese entre sistemas). Luhmann considera que a comunicação como unidade discreta de análise sociológica é mais precisa do que a Ação Social ou a Ação Comunicativa (RODRIGUES, NEVES, 2017, 86).
Há três tipos de comunicação segundo a duração: a interação, a organização e a sociedade. A interação é a relação imediata; a organização é menos breve e serve para tomar decisões; e a própria sociedade, formada por interações e organizações, também pode ser considerada uma comunicação na perspectiva histórica. Assim, o sistema social (imbricado aos sistemas biológico e cognitivo) é formado por comunicações (trocas sistêmicas).
Segundo Luhmann, "a função dos meios de comunicação consiste em orquestrar a auto-observação do sistema social" (2005, 158). Para ele, os meios de comunicação não buscam a integração social como pensa funcionalismo ou a manipulação da realidade como imagina a teoria crítica. Sua função é “observar dos observadores”, criando uma “memória sistêmica”, um "background" para as futuras comunicações da sociedade. É através dessa memória sistêmica de fundo que a realidade é constantemente reconstruida.
GOMES, Marcelo Bolshaw. Autopoesis & as três mídias: máquina mimética e teoria sistêmica da comunicação. Revista Temática, ANO XVIII. N. 03. p.96-206 – NAMID/UFPB, 2022.
LUHMANN, N. A realidade dos meios de comunicação. São Paulo: Paulus, 2005.
RODRIGUES, Léo Peixoto; NEVES, Fabrício. A sociologia de Niklas Luhmann. Petrópolis: Vozes, 2017.