segunda-feira, 18 de maio de 2026

pq sou anarquista

PORQUE (AINDA) SOU ANARQUISTA

Notas para uma teoria política cyberpunk 

1. Introdução

Em 2020, arrumei alguns desafetos devido ao texto “Porque não sou marxista (mas continuo estudando sociologia crítica)”, em que afirmo que Bourdieu e Foucault são muito mais radicais do que Marx. Entre as várias críticas que recebi, a mais interessante me acusa de confundir deliberadamente ideologia política com teoria social; e que eu deveria, ao invés de explicar “o que não sou”, dizer em que realmente acredito, uma política propositiva a partir da sociologia contemporânea.

Então, surgiu a ideia deste texto, não mais voltado para mostrar ao público político uma teoria social mais crítica e contundente que o marxismo, mas, sobretudo, para repensar uma ideologia política mais completa, atual e sociologicamente fundamentada do que a professada pelo senso comum de direita e de esquerda.

Quando me declaro politicamente anarquista, não é um virtude de Bakunin e Proudhon. Aliás, concordo com as críticas de Marx e Lenin a esses autores. E, embora goste de Emma Godman, Piotr Kropotkin e de Henry David Thoreau (e concorde com suas ideias sobre feminismo, mutualismo e desobediência civil), considero que essas ideias são distorcidas e apropriadas pela ideologia anarco-capitalista.

Meu anarquismo tem mais a ver com o espírito da Guerra Civil Espanhola; e com três conjunto teóricos dispersos e diferentes: a antropologia política da contracultura, a cibercultura atual (que incorpora a ideia de máquina e de informação) e o conceito de ‘Autopoesis’ (a auto-eco-organização) elaborado pela teoria dos sistemas complexos.  Vamos detalhar cada um desses pontos em três revisões.

 

2. A arqueologia política

Noberto Bobbio (2002) resume o pensamento político em dois polos discursivos – descritivo e prescrito. Quando o discurso político se aproxima do discurso científico, a retórica se torna uma teoria da persuasão e do convencimento; quando a política se aproxima da arte, ela é uma retórica-poética, a “arte do bem dizer”. Os primeiros dizem que o verossímil não pode ser mais importante que o verdadeiro; os últimos afirmam que a verdade quando mal defendida será sempre derrotada pela ignorância do senso comum; e por mais que todos concordem que tanto o ético como o estético se inter-relacionam na arte retórica, não há até hoje uma palavra final sobre quem predomina nesta relação. A essa dicotomia clássica da retórica política, Bobbio dá um valor universal e a denomina de discurso prescritivo ao aspecto poético da política e discurso descritivo ao seu aspecto científico.

Utilizando a dicotomia de Bobbio, A arqueologia Política (GOMES, 2023. p. 45) observa várias camadas históricas sobrepostas da teoria política: a filosofia política, a ciência política, a economia política, a sociologia política, a antropologia política, a epistemologia política, chegando finalmente à comunicação política e ao debate contemporâneo entre ciber-democracia participativa x democracia deliberativa ou a democracia representativa orquestrada pelos meios de comunicação social.

Tabela 1: Arqueologia Política Completa

 

PRESCRITIVO

DESCRITIVO

FILOSOFIA POLÍTICA

PLATÃO

A república ótima, a Utopia - uma sociedade perfeita em que haja justiça para todos e para cada um.

ARISTÓTELES

A cidade democrática - O homem é um ser gregário, que obedece em função de seus interesses

CIÊNCIA POLÍTICA

ROUSSEAU

O Direito (Igualdade, Liberdade, Fraternidade) e o Contrato Social – as necessidades frente à natureza formaram a sociedade.

MAQUIAVEL

Amor x Medo – o poder age ora por  afeto, ora por violência

SOCIOLOGIA POLÍTICA

WEBER

O Estado e a Cultura tem autonomia em relação à economia, podendo também, em alguns casos, condicioná-la.

MARX

A economia política – a infraestrutura material determina a cultura e política

ANTROPOLOGIA POLÍTICA

HABERMAS

Democracia deliberativa (Mercado, Estado e Comunicação)

FOUCAULT

O poder não está centralizado no Estado, mas disperso nas relações sociais

EPISTEMOLOGIA  POLÍTICA

ANTHONY GIDDENS

A ação social produz regras estruturais que (re)formatam a atividade humana. Recursividade.

BOURDIEU

A estrutura social condiciona as práticas sociais que reproduzem ou transformam seu contexto.

COMUNICAÇÃO POLÍTICA

JOHN THOMPSON

Democracia deliberativa (Mercado, Estado e Comunicação)

PIERRE LEVY

Ciber democracia direta e participativa

Fonte: elaborada pelo autor

Na Grécia antiga, onde nasceu a atividade política, A República (PLATÃO, 2004) e A Política (ARISTOTELES, 2004) já representavam dois pontos de vistas opostos sobre a atividade política: uma visão política prescritiva (que quer mudar o mundo) e uma visão política descritiva (que quer entender seu funcionamento).

Na Idade Moderna, com aparecimento histórico simultâneo do Estado e do mercado também haverá uma visão mais idealista e outra mais cínica da atividade política. Hobbes e Maquiavel são o lado mais descritivo e explicativo, que prefere enfatizar as relações reais de poder que seu aspecto ideal; enquanto a tendência prescritiva e compreensiva será representada pelo liberalismo, principalmente por Rousseau. Ele foi o mais prescritivo de todos pensadores liberais e pode ser considerado em muitos aspectos um contraponto simétrico a Maquiavel no polo descritivo – embora tenha posições contrárias diferentes aos pensadores clássicos sobre os fundamentos do poder. Um fala ao Príncipe e ao executivo; o outro, ao legislador e ao parlamento. Um transforma o elemento simbólico em artifício de sedução política; o outro reintroduz a política no encantamento democrático, em que a liberdade é a causa e o objetivo das relações entre os homens. 

Houve uma inversão das perspectivas descritivas e prescritivas da antiguidade clássica para os tempos modernos, principalmente em relação aos dois fundamentos da atividade política: a coerção e a cooperação. Platão é defende uma política prescritiva e acredita que o medo e a esperança são os fundamentos da vida social; Maquiavel também, mas em uma ótica descritiva. Aristóteles e Rousseau defendem que o fundamento principal da vida social e da ação política é a cooperação, mas o primeiro o faz de modo descritivo, enquanto o outro entende a política de forma prescritiva. Bobbio é um dos pensadores contemporâneos para quem Maquiavel funda a ciência política, enquanto Rousseau, o Direito, gêmeo dialético da política liberal.

Tabela 2: Discurso x fundamento da política 

 

Prescritivo

Descritivo

O medo como fundamento da política

Platão

Maquiavel

A cooperação como fundamento da política

Rousseau

Aristóteles

Fonte: elaborado pelo autor

Na Era industrial, a polaridade entre a descrição cínica da política e a sua prescrição cívica vai reaparecer na forma de duas construções teóricas de amplo alcance: a economia política marxista, encarnando o polo crítico descritivo, e a sociologia política weberiana, representando o polo prescritivo.

Há duas contribuições decisivas de Karl Marx para o pensamento político: a luta de classes como motor da história; e a relação dialética entre determinismo (infraestrutura econômica) e ação social (superestrutura política e cultural). Seja nas versões mais ortodoxas ou nas mais flexíveis, o caráter explicativo e descritivo da economia política marxista polarize com a abordagem idealista multi-determinista e prescritiva da sociologia política weberiana.

Aqui é preciso abrir um parênteses: Marx é ‘descritivo’ e Weber é ‘prescritivo’ se comparados isoladamente, mas se incluirmos Durkhein em nossa equação observaremos uma caracterização diferente. Durkhein é que constrói uma metodologia de regras para descrição objetiva de um fenômeno social. Diante dele, Marx é um homem que prescreve uma revolução para acabar com a sociedade de classes.

E Weber?

Pode ser considerado o primeiro pensador político misto (descritivo e prescritivo ao mesmo tempo) - característica será seguida por Bourdieu e Giddens.

Com o movimento contracultural de 1968, o eixo da luta política (e a discussão sobre a legitimidade da autoridade) se desloca do Estado central para dentro das instituições civis (a escola, o hospital, a fábrica). 

Uma demonstração importante é A Sociedade contra o Estado (Clastres,1978) sobre os índios Guaranis. Clastres argumenta que sociedades indígenas (como as da América do Sul) não eram "atrasadas" por não terem Estado, mas sim organizadas de forma a impedir ativamente o surgimento de um poder centralizado e autoritário. As decisões são coletivas e consensuais, com as figuras do cacique e do pajé exercendo papéis complementares que garantem a coesão social sem a necessidade de uma autoridade coercitiva centralizada. O cacique atua como o gestor e porta-voz da comunidade. Seu poder não é absoluto, mas baseado no prestígio e na capacidade de persuadir. E o pajé é o guardião dos saberes ancestrais e da conexão com o mundo espiritual. É o "médico/sacerdote" da aldeia, dominando o conhecimento sobre plantas medicinais, ervas e rituais de cura física e espiritual.

A antropologia política se inicia nos anos 40, com o estudo das sociedades ditas primitivas, “sem Estado” ou “sem história” (Firth, Leach, Gluckman e Balandier – para citar os mais famosos) e acaba, nos fim dos anos 60, por se prestar também ao estudo das práticas políticas nas sociedades complexas atuais, dentro deste novo poder microfísico, ‘privado’. Foucault é o principal teórico desse anarquismo pós-moderno da contracultura, derrubando uma série de teses tradicionais da sociologia. O poder foucaultiano não é ‘propriedade’ de uma classe que o teria conquistado, mas um conjunto de estratégias materializadas em práticas, técnicas e disciplinas diversas e dispersas. Foucault também contesta a tese de que o Estado funciona como centro de organização social, vendo o poder disperso em uma multiplicidade de disciplinas e de manobras táticas: “o poder não nem global nem local, não está em lugar nenhum, mas infinitesimalmente difuso no espaço”.

Enquanto Foucault é extremamente descritivo, Habermas ocupa o polo prescritivo na pós-modernidade. Habermas pode ser colocado no polo oposto ao de Foucault devido a terem posições simétricas sobre relação entre poder e visibilidade. Segundo Foucault, o poder é invisível e silencioso e a linguagem é uma duplicação através da qual vislumbramos a correlação de forças externas; conforme Habermas, há ampliação da esfera pública pelos meios de comunicação, produzindo um regime de hiper visibilidade. Para Foucault, um vê a todos (o Panóptico); para Habermas, todos veem um (a Opinião Pública) – e os dois têm parte da razão sobre o poder.

Habermas (1984, 2012) faz parte da Escola de Frankfurt, defende que a sociedade civil organizada promova uma ampliação na esfera pública. É a proposta de uma 'Democracia Deliberativa', união da ação comunicativa com a racionalidade estratégica contra a razão instrumental do mercado. Nos anos 90, a ideia de democracia deliberativa - estruturada em um tripé entre o Estado (o campo da igualdade jurídica), o Mercado (o campo desigualdade econômica) e a Sociedade Civil (o campo das comunidades) será retomada por Giddens e Thompson.

Bourdieu e Giddens são sociólogos do conhecimento que substituíram a ênfase na ação social e na racionalização (Weber, Parson e Habermas) pelo estudo de conflito e cooperação através das instituições. É a sociologia política que assimilou a antropologia e o estruturalismo, produzindo uma nova sociologia mais consciente de si - chamada aqui de ‘epistemologia política’. No entanto, enquanto o francês tem uma queda pelo lado estrutural; o inglês é assumidamente interpretativo, defendendo a primazia dos atores e seus recursos sobre as condições coercitivas do sistema. Giddens assimila e integra o funcionalismo e o estruturalismo a uma forma de pensar fenomenológica; enquanto Bourdieu, ao contrário, coloca as práticas sociais dentro de contextos de condicionamentos. Assim, todos são híbridos, mas cada um de seu jeito: Weber prescrevendo modelo para ação social; Marx pregando mudanças estruturais; Bourdieu descrevendo o condicionamento estrutural da práxis em diferentes campos e contextos; e, finalmente, Giddens descrevendo como ação social produz, reproduz e modifica as regras estruturais que organizam nossas vidas. Bourdieu é o discurso descritivo-prescritivo; e, Giddens, o discurso prescritivo-descritivo 

Hoje, os polos prescritivo e descritivo giram em torno da comunicação. No polo descritivo, seguindo os passos do anarquismo pós-moderno, temos Pierre Levy (1993) e, no polo prescritivo, adotando as referências teóricas de Habermas e Giddens, temos John Thompson (1995, 1998, 2002). Levy acredita que a internet e as novas formas de interatividade nos levarão de volta à democracia participativa e ao voto direto: a tecnodemocracia ou ecologia cognitiva.

Segundo Levy, ecologia e solidariedade passam muito mais por um redimensionamento das desigualdades cognitivas que de uma redistribuição material das riquezas ou de uma reorganização das relações de força. Thompson defende a proposta da democracia deliberativa (ou de ampliação midiática da democracia representativa) de Thompson, em que o modelo dominante é a interação mediada não-recíproca à distância. E essa ampliação sociológica extrapola o âmbito discursivo, abrindo um ângulo mais abrangente.

Certamente, uma arqueologia completa das ideias políticas deveria ser mais polifônica e múltipla, não reduzindo autores tão complexos a posições antagônicas com tanta facilidade. Por outro lado, é esse artifício metodológico de ‘bipolarização’ que nos permite, a partir dos focos descritivo e prescritivo, entender o diálogo histórico em seu movimento espiral.

Tabela 3 – Arqueologia dos Discursos Políticos

TEMPO

TEORIA POLÍTICA

PRESCRITIVO

DESCRITIVO

IDADE CLÁSSICA

FILOSOFIA POLÍTICA

PLATÃO

ARISTÓTELES

IDADE MODERNA

A CIÊNCIA POLÍTICA

ROUSSEAU

MAQUIAVEL

ERA INDUSTRIAL

SOCIOLOGIA POLÍTICA

WEBER

MARX

CONTRA CULTURA

ANTROPOLOGIA POLÍTICA

HABERMAS

FOUCAULT

ANOS 80 E 90

EPISTEMOLOGIA POLÍTICA

GIDDENS

BOURDIEU

ANOS 2000

COMUNICAÇÃO POLÍTICA

THOMPSON

LEVY

Fonte: elaborado pelo autor

O diálogo entre formas discursivas prescritivas e descritivas, portanto, deve ser compreendido como um processo histórico de subjetivação, ou mesmo de sujeição da prática política à linguagem. As práticas políticas deixam de ser coercitivas para se tornar cada vez mais mais consensuais. E esse é um dos motivos de minha convicção (ou esperança) anarquista: a política se afasta da luta e se aproxima do jogo, do espetáculo e do debate.

E outro motivo é a proposta de uma ‘Ecologia Cognitiva’.


2. Cibercultura

Para Pierre Levy (1998), existem quatro “espaços antropológicos” sobrepostos como níveis históricos e simultâneos de virtualização: o Espaço da Terra, o Espaço do Território, o Espaço do Mercadorias e o Espaço do Saber. 

l O Espaço da Terra ou Natureza corresponde ao meio ambiente imaginado pela comunidade primitiva. Ele não é o meio ambiente em si, mas uma representação. Em seus primeiros trabalhos (Levy, 1993), esse espaço é definido pela oralidade, pelo Mito e pela linguagem enraizada no corpo e pelo ‘eterno retorno’ de um tempo circular e cosmológico. Nesse espaço, emissor e receptor partilham um contexto único: o modelo de interação um-um.

l O Espaço do território (e do Estado) é marcado pelo aparecimento da vida sedentária, da agricultura, dos deuses solares, da escrita, do direito e das primeiras cidades. Esse espaço é a segunda virtualização, abstração do espaço físico e materialização cultural, é corresponde ao começo da História e da memória social. Passam a existir múltiplos contextos no espaço/tempo, constituindo um modelo de interação um-muitos.

l O Espaço das Mercadorias nasce de dentro do Espaço do Território, como uma estratificação sistêmica econômica, o capitalismo e sua lógica de concorrência e lucro. O mercado surge da desterritorialização do Estado, transformando todas “as posses” em mercadoria. Nesse modelo, os espaços antropológicos não são apenas fases históricas que se sobrepõem, mas realidades simultâneas em desenvolvimento, virtualizações, em que as últimas tentam se sobrepor e controlar as primeiras.

l E, finalmente, o Espaço do Saber, o ciberespaço, em que tudo se torna informação, se datifica.  Nesse espaço, a organização se dá de forma flexível e complexa e por meio de redes digitais em tempo real; o modelo de interação é muitos-muitos, em que todos são interlocutores e há uma reunificação dos contextos no virtual. Ainda estamos em um momento inicial da construção desse espaço antropológico, cujo a função é controlar os espaços anteriores/exteriores: das mercadorias, dos territórios e do meio ambiente.

Levy define ciberespaço como o quarto espaço antropológico, sobrepondo-se à Terra, ao Território e ao Mercado. Os Territórios são virtualização da Terra; a Mercadoria é uma virtualização dos Territórios; e o saber, uma virtualização das Mercadorias. Um exemplo dado por Michel Serres: nosso nome e sobrenome são nossas identidades no espaço antropológico da Terra; nosso endereço, nossa identidade no espaço territorial; a profissão, a posição que ocupamos no mundo das mercadorias; e, atualmente, estamos definindo uma quarta identidade para o espaço antropológico do saber: a senha, a impressão digital do polegar, a íris do olho, o DNA.

Nesse modelo, mais do que explicar conflitos institucionais, o objetivo é imaginar como seria habitar em outros universos simultaneamente. Nosso corpo está inserido no meio ambiente, mas também nas dimensões política, econômica e cultural.

Vejamos agora como o Espaço do Saber se relaciona com os espaços que o antecederam.

Em relação ao Espaço da Mercadoria, a informação está provocando várias mudanças, principalmente a passagem da economia industrial (e da cultura de massas) para uma economia de consumo e para segmentação interativa dos públicos. O final do século XX marca a passagem de um capitalismo industrial, baseado na produção, para o capitalismo informacional orientado pelo consumo. Pode-se dividir esse processo em duas etapas: o período dos meios de comunicação de massa e a fase das redes sociais, cada uma com um conjunto de efeitos sobre a economia. É bom lembrar: os meios de comunicação foram uma parte do mercado que se tornou autônoma e passou a mediar as relações econômicas. As redes sociais (na verdade, a internet e a telefonia móvel) segmentaram em públicos a cultura de massas.

Castells (2009) descreve essa transição do industrial para as redes em detalhes: os bens simbólicos superam os físicos em valor e volume em âmbito global, o setor terciário (comércio e serviços) passa a suplantar a indústria na maioria dos países. Capital e trabalho tendem cada vez mais a existir em diferentes espaços e tempos: o espaço de fluxos e o espaço dos lugares, tempo instantâneo de redes computadorizadas versus tempo cronológico da vida cotidiana. O capital é global; o trabalho, local. Na passagem da produção industrial para o consumo informacional, o marketing se tornou não apenas um modo de adaptação das empresas ao mercado, mas sim uma forma de integração de todas as instituições à sociedade. Daí a possibilidade de um marketing para partidos, governos, ONGs e universidades e outras instituições sociais diferentes das empresas. O marketing pode ser visto como uma ferramenta de reorganização institucional para sociedade de consumo. Escolas, igrejas, associações, o setor público passaram todos a repensar suas práticas sociais em função das necessidades de consumo segmentado.

Além disso, na indústria cultural de massa, o marketing era indiferenciado: um único produto; uma única forma de distribuição; uma única forma de comunicação; e uma única embalagem para todos os segmentos. O mercado ignorava as diferenças existentes entre os consumidores, direcionando a ação para o conceito de consumidor médio. As empresas ofereciam o mesmo produto, ao mesmo preço, com a mesma promessa e nos mesmos locais a todos os consumidores. Com a segmentação interativa gestada pelas redes sociais, o mercado foi subdividido em um número reduzido de subconjuntos. O processo de segmentação comporta quatro parâmetros: os critérios de segmentação em si (demográficos, geográficos, sociais e econômicos); as clivagens de personalidade e de estilo de vida (mensuráveis através da renda, da escolaridade e do nível de sofisticação cultural); e os critérios de comportamento e de atitudes psicológicas relativas ao produto (aferidas através de pesquisas de opinião).

Essa “datificação” do consumidor leva a consequências ainda não entendidas em seu conjunto, mas, com a utilização de algorítmicos e da Inteligência Artificial, é possível prever o comportamento específico de cada um, não apenas aos produtos e serviços, mas também às ideias e propostas. E esse modelo de antecipação baseado nas recorrências reforça ainda mais as tendências conservadoras e inibindo mudanças e novas opções. A datificação é instituicionalização digital do habitus.

Além disso, a segmentação também gerou um marketing e fidelização dos fornecedores; bem como o endomarketing, voltado para os funcionários “vestirem a camisa da empresa” - muitas vezes acompanhado com políticas de distribuição dos lucros e planos de carreira. Porém, a grande mudança em curso provocada pela segmentação interativa das massas foi a “exportação” do marketing para fora do mercado, gerando um processo de adaptação de instituições não comerciais à economia de consumo. O consumidor é mais prestigiado que o cidadão.

Então, observando a relação entre os espaços do saber e da mercadoria, destacamos três aspectos: a passagem para uma sociedade de consumo pós-industrial, a segmentação interativa da cultura de massas e, finalmente, ao consumo datificado, em que as informações sobre cada um são usadas em simulações de comportamento. O regime do consumo e a segmentação interativa são avanços no sentido de otimização dos fluxos econômicos e comunicacionais, mas também aumentam ainda mais a desigualdade social, ampliando a exploração dos subalternizados através exclusão econômica e digital. O consumo é um regime de exclusão de populações. E essa exclusão gera um desejo desesperado de submissão.

O segundo passo em nossa análise sistêmica é observar o efeito do Espaço do Saber sobre o Espaço do Território.

A mídia usurpou o lugar de fala do rei, que o poder de dar a última palavra foi terceirizado pelos meios de comunicação e que esse “olhar externo ao poder” é um dos pilares da democracia. Mas, a democracia representativa nunca conseguiu cumprir a promessa de transparência (Bobbio, 2000a) e de acabar com “o governo invisível” (o lobby, as negociações de bastidores, a corrupção). Ao contrário, a hipervisibilidade seletiva imposta pelos meios de comunicação (e sua inevitável espiral de silêncio) encobre os processos políticos de suborno e chantagem, gerando ainda teorias de conspiração absurdas de que a um governo mundial secreto, por exemplo. Aqui também há uma fase em que a imagem que a sociedade fazia de si era mais monolítica e outra fase em que as redes sociais fragmentaram o império da mídia, implodindo a democracia representativa através da participação direta. A transição econômica do modo de produção industrial para o modo informacional orientado pelo consumo manifesta-se no campo político como a passagem do modelo de interação panóptico (um-muitos) para o modelo de interação rizomático em que todos os pontos se comunicam entre si (muitos-muitos).

Deleuze (2008), citando Foucault, diz que essa transição é uma passagem das instituições de confinamento da sociedade disciplinar para uma sociedade de controle. Foucault (2017) descreve a transição entre um regime de punição baseado no castigo corporal para o aprisionamento em massa, não apenas através dos primeiros presídios, mas também das escolas, hospitais, fábricas e outras organizações de confinamento, formando uma sociedade disciplinar em oposição à antiga sociedade da soberania. Deleuze complementa o pensamento de Foucault propondo uma passagem da sociedade disciplinar para uma sociedade de controle em rede a céu aberto.

Byung-Chul Han (2019) considera que a sociedade de controle produz um trabalhador que é seu próprio patrão, que a submissão foi interiorizada como uma forma responsabilidade social. Na sociedade disciplinar, o coletivo impõe regras e rotinas para o adestramento do corpo; na sociedade de controle, incorporamos mentalmente as regras e as rotinas.

Um bom exemplo da diferença entre disciplina e controle é a noção de “Moratória Ilimitada”. Quando nascemos, contraímos uma dívida com tudo já foi feito antes de nós. E passamos o resto da vida com essa obrigação inconsciente de ressarcir a sociedade pelo que nos foi entregue e que nunca conseguiremos pagar. O dispositivo de controle da moratória ilimitada é uma dívida social inconsciente que nos foi imputada e que nunca conseguiremos saldar. A inversão da “Dádiva” e de sua retribuição voluntária. Há também muitos efeitos secundários importantes da relação entre o Espaço do Saber com o Espaço do Território. A desburocratização é o resultado mais evidente – e isso não é de pequena monta. O Estado aumentou seu poder de controle em abrangência e em detalhe, diminuindo drasticamente o custo e a possibilidade de erros. O efeito mais impactante, no entanto, é o fim da privacidade em geral (e dos sigilos bancário, postal e telefônico). Hoje somos todos rastreáveis em tempo real pelo GPS dos celulares. Deleuze bem antes da internet profetizou que usaríamos “coleiras eletrônicas”. Porém, o controle age principalmente sobre os rastros que deixamos, identificando o que compramos, o que desejamos e o que não queremos. Não é o rei que está nú, mas sim seus súditos! E ninguém percebe a própria nudez, apenas o poder que sabe tudo sobre todos. A transparência total é o fim desse 'governo invisível' que tudo sabe e tudo vê. A raiz de todas as manipulações é a existência de informações privilegiadas. Não existem segredos em uma tribo indígena.

O efeito da informação sobre a mercadoria é o predomínio consumo sobre a produção e o processo de segmentação interativa da cultura de massas. A informação está customizando a mercadoria e excluindo parte da sociedade do processo. O efeito da informação sobre o território é o poder através do controle psicológico e de dados. Ele permite uma democratização relativa, inclusive no interior das instituições, mas produz a moratória ilimitada, a submissão individualista e apatia existencial.

O efeito da informação sobre o espaço da terra, tanto visto como meio ambiente como como corpo, é a tecnologia, as ferramentas com as quais mudamos o mundo. Apenas a automatização da produção material é que pode acabar com o trabalho obrigatório e com a divisão de classes e de gênero. Porém, essa mudança não é automática, nem depende apenas de uma substituição de homens por máquinas. Ela depende principalmente de auto-organização e da tecnologia ser partilhada por todos.

3. Teoria de sistemas complexos

Sistema – para o funcionalismo - é um conjunto cujos diferentes elementos interagem entre si, desempenhando funções de integração e de manutenção do sistema. A interação dos elementos produzia uma ‘homeostase’ – um equilíbrio interno responsável pela estabilidade do sistema durante o tempo. Para o funcionalismo, a comunicação já era uma mediação dos conflitos sociais (em oposição à teoria de manipulação hipodérmica e à teoria da persuasão de Lasswell).

Para a cibernética, o sistema tende para a entropia e não a homeostase; a disfunção é compreendida como ruído. Os feedbacks promovem a auto-organização contra a incerteza. A comunicação passou a ser vista como um fator de aperfeiçoamento sistêmico para diminuição da entropia. A comunicação é o inverso do ruído: a comunicação objetiva a homeostase e autorregulação; o ruído é a própria manifestação da entropia e da dissolução do sistema. O sistema funcionalista era fechado; o sistema cibernético, aberto.

O estruturalismo não dá nenhum sentido especial a ideia de comunicação e a noção de estrutura toma parte das características do conceito de sistema (totalidade, unicidade), que fica então reduzido a espaços de sincronia, áreas de simultaneidade dentro de um conjunto de regras estruturais. Lévi-Strauss considera que a Estrutura Social é formada pelos sistemas de parentesco, de bens e de linguagem – por exemplo. A estrutura é invisível e está por trás dos sistemas, sendo formada por relações e conexões recorrentes, que, com o tempo, se tornam regras estruturais “ocultas”, responsáveis pela reprodução social dos sistemas.

O biólogo chileno Umberto Maturana vai redefinir a ideia de Sistema através da noção de autorreferência sistêmica (o sistema que observa a si próprio) e de autopoiesis (o sistema que produz e reproduz a si mesmo). Nessa definição, o importante não é a interação dos elementos internos, mas sim a relação entre a auto-organização do sistema e seu entorno, ou ambiente externo. O novo conceito de Sistema implica também em um lado de dentro que observa um lado de fora, isto é, na noção de autorreferência. A observação de si também é uma operação sistêmica com consequências no sistema/ambiente observado. Sem diferença com relação ao entorno, não haveria autorreferência. Todo o sistema que se autoproduz, que se faz unidade de diferença, se singulariza e passa a se constituir numa identidade. O sistema também ganha autonomia, uma vez que diversifica seus acoplamentos de entrada e saída do ambiente, diminuindo sua dependência estrutural do exterior. O sistema é algo que estabelece relações consigo mesmo e se diferencia dessas relações frente às de seu entorno. Há quatro formas de diferenciação: segmentação (horizontal), estratificação (vertical), centroperiférica e diferenciação de sistemas funcionais.

Luhmann assimila e aperfeiçoa ainda mais o conceito de sistema autopoiético e autorreferente de Maturana, afirmando que o sistema é uma simplificação da complexidade exterior. E essa redefinição/desenvolvimento do conceito de Sistema tem um significado avassalador para a tradição do pensamento sociológico. O Sistema não é uma categoria analítica, mas uma forma de descrição concreta, que leva em conta a complexidade da realidade. O sociólogo distingue quatro tipos de sistemas: o inorgânico, o biológico (a célula, o cérebro, o corpo, o meio ambiente, etc), o psíquico e social. Esses tipos de sistemas são interpenetrados uns aos outros. O inorgânico é ambiente externo para o sistema biológico, que por sua vez é ambiente para os sistemas psíquico e social. Somos sistemas biológicos, com suporte inorgânico, que se observam através de um sistema psíquico condicionado por um sistema social.

Os quatro sistemas têm interseções e entornos próprios, incluindo/excluindo parte dos outros dois sistemas. Nesse modelo sistêmico não existe nem ação nem estrutura, nem sujeito nem objetividade, apenas o sistema/entorno, em seu crescimento através de operações de diferenciação voltadas para dentro, reduzindo a complexidade externa através da autoorganização.

Os sistemas se assemelham a filtros da complexidade. A autopoiesis ou auto-organização é assim uma conquista de autonomia do sistema em relação às incertezas do ambiente externo.

Assim, todo sistema é autoreferente e autopoético. Não existem sistemas lineares e fechados. Todo sistema é um ecossistema aberto, todo sistema é complexo de outros sistemas acoplados. O sistema estabelece relações consigo mesmo e se diferencia dessas relações frente às de seu entorno.

 

4. Estudos Narrativos

Em outros textos (GOMES, 2012, 2013), comparou-se os três princípios cognitivos de percepção do tempo (narração do passado, a descrição do presente e a simulação do futuro) à teoria das três mídias (PROUSS, 1997) e ao mito das ‘tecelãs da intriga’ – as moiras do destino, antagonistas do herói pós-moderno.

Para teoria das mídias (BAITTELLO JR, 2010. p. 63), a mídia primária é o corpo e a comunicação presencial (sons, ruídos, gestos, aparência, odores e, principalmente, a fala). A mídia secundária são as marcas sobre outros suportes (pedras, ossos, metal, couro, madeira e, principalmente, papel). A escrita, expressão maior da mídia secundária, amplia a memória, possibilitando a comunicação através do tempo/espaço e a história. E a mídia terciária, surge com a eletricidade e marca o retorno da imagem e da simultaneidade do tempo. As três Moiras representam a existência inflexível do tempo acima e além da morte e do destino – quase fora da narrativa. E o mito é o que melhor representa a máquina social de fabricação do tempo formado pelas três mídias. Esse é o principal antagonista do herói pós-moderno (protagonista/narrador) em sua narrativa tragicômica. (GOMES, 2022).

Traduzindo esses três princípios narrativos para a linguagem da teoria de sistemas luhmanniana, pode-se falar em três operações sistêmicas: memória, auto-observação descritiva e simulação de possibilidades. Essas três operações formam o mecanismo de autopoesis, de criatividade sistêmica. Entre o sistema social e o cognitivo, está a linguagem (o software da máquina) e as operações de memória e simulação.

A memória é uma mimese sistêmica que vem do corpo e a simulação é uma mímese de retorno do sistema social. A simulação é interior ao sistema social é feita por aparelhos elétricos. A mímese terciária é social; a mimese secundária é linguística; e a mimese primária é corporal, presencial e imediata (está sempre no aqui e agora). A Máquina Mimética é formada pela alternância recorrente entre as operações de memória e de simulação (Mimese e Diegese sistêmicas) através das três mídias, transversais aos aos sistemas biológico, cognitivo e social. As narrativas orais enfatizam a própria narrativa e definem identidades simbólicas locais. As narrativas modernas são ‘históricas’, centradas no narrador e na metalinguagem, se destinando a um receptor passivo e no sujeito universal. E, nas narrativas audiovisuais, a ênfase está na narratividade do receptor, a fabulação. Também há uma reunificação dos contextos dos interlocutores, dissociados no tempo/espaço pelas narrativas escritas.

Também podemos comparar as três moiras às ideias de memória, identidade e imaginação narrativa em uma tríade indissociável. A memória é uma reelaboração cognitiva permanente do passado e a identidade é elaborada, definida e redefinida na interação social no contexto presente. A memória é uma narrativa organizada pela identidade e a identidade, uma imagem formada pela memória narrativa. Os três conceitos estão sempre a serviço de um projeto, do devir, da imaginação. Do conflito narrativo entre a memória e a identidade, surge uma intriga, um destino invisível embutido no futuro.

Tabela : Três mídias x três narrativas

MÍDIA

NARRATIVA

MEMÓRIA

IDENTIDADE

Primária

ORAL

Aqui e agora (mensagem)

Território local

Secundária

ESCRITA

Metalinguagem (emissor)

Sujeito universal

Terciária

AUDIOVISUAL

Fabulação  (receptor)

Self intercultural

Fonte: elaborado pelo autor

O conceito de sistema só foi possível quando as memórias passaram a ser vista de forma simultânea e não como mais como sucessão contínua de lembranças que formam a história do mundo. A descontinuidade das memórias nos levou a buscar uma observação do mundo diversificada e indireta, através de ferramentas confiáveis. E a multiplicidade de lembranças e repórteres, por sua vez, nos leva à imaginação comum de projetos utópicos.

Articulando esses conceitos observamos que a comunicação sistêmica revela vantagens e desvantagens. A grande vantagem (ou retorno do conceito de sistema sob a memória) é colocar a cognição do ponto de vista coletivo primeiro, analisando o individual em um segundo momento. Porém, ampliar o enquadramento pode levar a uma desumanização da memória, com os agentes reduzidos a fantoches de mudanças sistêmicas.

Não há, nesse momento de transição, como saber sobre o impacto que as memórias artificiais (e a internet) terão sobre as biológicas.

Tanto podemos utilizar a IA para potencializar nossa capacidade (aumentando nossa consciência, a memória de longo prazo sem a preocupação das lembranças de curto prazo) como podemos usá-la para nos escravizar (se delegarmos às máquinas nossas lembranças de longo prazo e nos tornarmos operadores da memória do imediato). Podemos desenvolver um ‘chip cerebral’ criando uma prótese telepática (aumentando nossa distancia da memória filogenética) ou, ao contrário, readquirir e ampliar nossa capacidade de lembrança hereditária, diminuindo a necessidade de aprendizado e treinamento.

Tudo depende de ‘como’ utilizarmos a tecnologia. 

 

5. Considerações finais

É inacreditável que a esquerda (incluindo aí grande parte do anarquismo) não percebe o papel estratégico da tecnologia na construção de mundo sem dominação. A direita, por outro lado, entende as mudanças que a tecnologia instaura no Estado e no Mercado, mas as utiliza para manutenção das desigualdades.

Luta pela diminuição gradativa da jornada de trabalho (e/ou pela substituição progressiva do trabalho por atividades educacionais e culturais), bolsas de estudos em todos os níveis, reestruturação dos meios de comunicação com base comunitária, intercâmbios internacionais entre cidades – são algumas iniciativas dessa forma de ação política. Mas, o principal é um projeto de sociedade em que os meios de comunicação sejam mediadores imparciais dos interesses políticos e econômicos.

Desistimos de acabar com o Estado e com as instituições? Não. Que a escola e a democracia sejam o estado provisório! Que a comunidade seja uma federação de famílias! Que o mercado seja mais cooperativo! Lutar sem Arkhè significa ir mudando o mundo devagar e sempre. Lavando a pia.

A frase "a anarquia começa na pia" associa a organização doméstica e a divisão de tarefas (como lavar louça) à desconstrução de hierarquias tradicionais e patriarcais. Enquanto a teoria anarquista buscava a abolição do Estado e da propriedade concentrada, na prática diária, a “pia” representava a quebra de regras impostas na organização da vida cotidiana.

Anarquia é “sem governo”, “sem Estado” e, para alguns, “sem nenhuma forma de autoridade” imposta, sem coerção. Essa certamente é uma definição utópica: uma sociedade sem hierarquias em que ninguém seja obrigado a fazer o que não quer contra sua vontade, em que todo trabalho seja voluntário e cooperativo.

Há também versões românticas, que veem no anarquismo uma filosofia da liberdade, quase um sentimento anti autoritário, que se modifica com o tempo, adotando várias feições.

Porém, recentemente, definiu-se anarquismo como “sem arkhê” (Schürmann, 1982), sem “uma estrutura que articule comando e origem”. A ideia é de que o carateriza o anarquismo como pensamento político é a falta de uma regra estrutural a ser seguida. O anarquismo, assim, é uma tática sem estratégia, luta que busca a libertação imediata sem utopia ou sonho futuro. Ou como já se poetizou: “O guerreiro luta sem esperança nem desespero” (CASTANEDA, 1998, p. 35).

A “pia” nesse novo contexto representa ‘o local’ em oposição ao ‘universal’. A auto organização implica no desregramento imediato. O ‘rebelde sem causa’, estereótipo do anarquista como uma pessoa indisciplinada, um “sem regras” (ou pior: um ‘sem objetivos’, “sem futuro”), perdura, embora a verdade seja justamente o oposto: anarquista é quem luta por autonomia e autoorganização de sua vida.

Com a extinção de parte da humanidade em virtude de seu comportamento autodestrutivo, os sobreviventes terão que dar um salto quântico em suas relações entre si e com o meio ambiente. Oxalá, o imperativo do autocuidado e a onipresença (do 'outro em mim') sejam os pilares éticos de um novo comportamento. Esse salto para níveis mais complexos e participativos de organização, exige também o desenvolvimento de novas competências de comunicação semi telepática, em que a mentira não será mais possível. O 'controle da informação' é a última trincheira do estado ante o retorno da comuna primitiva tecnologicamente potencializada no final da história. O último bastião do poder a ser derrubando antes da utopia anárquica.

O primeiro resumo apresenta o desenvolvimento do pensamento político através de uma polarização discursiva entre descritivo (incluindo aqui a denúncia de injustiças) e prescritivo ou poético. O resultado é que o pensamento político tornou-se mais crítico e criativo, combinando os dois modos.

O segundo resumo trata da “Ecologia Cognitiva” e de seus quatro espaços antropológicos sobrepostos. Discutirmos o impacto da espaço do saber sobre o mercado e sobre o estado. A informação em relação ao mercado está mudando a sociedade industrial, tornando-a voltada para o consumo. A Informação em relação ao Estado está reorganizando os serviços públicos e a própria democracia.

E, no terceiro resumo, sobre a Teoria dos Sistemas Complexos, tratamos do relacionamento do corpo com “as três mídias” de Prouss, de como as operações coletivas da memória, da observação e da simulação sistêmicas formam uma máquina de produção do tempo. O resultado das três revisões, defendida também em outros textos, é que o relacionamento do corpo com a máquina depende de como é organizada a memórias de longo e curto prazo. Para não ser escravizado pelo máquina midiática, é preciso terceirizar às operações imediatas e aprofundar as lembranças de longo prazo. Que a Inteligência Artificial lave os pratos enquanto eu escrevo meus ensaios - e não o contrário.

Sou anarquista porque acredito que a Comunidade está no começo e no final da História. No começo, como comunidade primitiva anterior ao Estado; e, no final, como uma utopia democrática comunitarista, posterior ao Estado, ao Mercado e à divisão da sociedade em classes sociais. Essa utopia passa muito mais por um redimensionamento das desigualdades cognitivas que de uma redistribuição material das riquezas ou de uma reorganização das relações de força.

Sou um anarquista pós-moderno (Passeti, 2000) com viés feminista (acho que a dominação sexual é a base da dominação social) e ecológico, acredito que o crescimento econômico só é legítimo através da produtividade (e não do aumento da produção). Sou favorável à automatização do trabalho manual, à diminuição progressiva das horas de trabalho, à educação integral voltada para o desenvolvimento ético, ao pleno emprego.

Mas, principalmente, transparência. O controle da informação passou a ser o ponto central do meio ambiente, da democracia e do mercado. Por isso, mais do que derrubar o parlamento ou o lucro, é preciso garantir o acesso universal à informação. É preciso lutar contra o governo invisível e o império da hipervisibilidade seletiva.

E acho que o nome adequado para esse posicionamento político é “Anarquismo Cyberpunk”.

 

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