domingo, 10 de maio de 2026

ARQUEOLOGIA

 


(MINI) ARQUEOLOGIA DOS DISCURSOS POLÍTICOS

Marcelo Bolshaw Gomes

Noberto Bobbio (2002b) resume o pensamento político em dois polos discursivos – descritivo e prescrito. Quando o discurso político se aproxima do discurso científico, a retórica se torna uma teoria da persuasão e do convencimento; quando a políica se aproxima da arte, ela é uma retórica-poética, a “arte do bem dizer”. Os primeiros dizem que o verossímil não pode ser mais importante que o verdadeiro; os últimos afirmam que a verdade quando mal defendida será sempre derrotada pela ignorância do senso comum; e por mais que todos concordem que tanto o ético como o estético se inter-relacionam na arte retórica, não há até hoje uma palavra final sobre quem predomina nesta relação. A essa dicotomia clássica da retórica política, Bobbio dá um valor universal e a denomina de discurso prescritivo ao aspecto poético da política e discurso descritivo ao seu aspecto científico.

Utilizando a dicotomia de Bobbio, A arqueologia Política (GOMES, ) observa várias camadas históricas sobrepostas: teoria política, filosofia política, ciência política, economia política, sociologia política, antropologia política, epistemologia política, chegando finalmente à comunicação política e ao debate contemporâneo entre democracia ciber-participativa x democracia deliberativa ou a democracia representativa orquestrada pelos meios de comunicação social.

Tabela 1: Arqueologia Política Completa

 

DESCRITIVO

PRESCRITIVO

FILOSOFIA POLÍTICA

ARISTÓTELES

A cidade democrática - O homem é um ser gregário, que obedece em função de seus interesses

PLATÃO

A república ótima, a Utopia - uma sociedade perfeita em que haja justiça para todos e para cada um.

CIÊNCIA POLÍTICA

MAQUIAVEL

Amor x Medo – o poder age ora por  afeto, ora por violência

ROUSSEAU

O Direito (Igualdade, Liberdade, Fraternidade) e o Contrato Social – as necessidades frente à natureza formaram a sociedade.

SOCIOLOGIA POLÍTICA

MARX

A economia política – a infraestrutura material determina a cultura e política

WEBER

O Estado e a Cultura tem autonomia em relação à economia, podendo também, em alguns casos, condicioná-la.

ANTROPOLOGIA POLÍTICA

FOUCAULT

O poder não está centralizado no Estado, mas disperso nas relações sociais

HABERMAS

Democracia deliberativa (Mercado, Estado e Comunicação)

EPISTEMOLOGIA  POLÍTICA

BOURDIEU

A estrutura social condiciona as práticas sociais que reproduzem ou transformam seu contexto.

ANTHONY GIDDENS

A ação social produz regras estruturais que (re)formatam a atividade humana. Recursividade.

COMUNICAÇÃO POLÍTICA

PIERRE LEVY

Ciber democracia direta e participativa

JOHN THOMPSON

Democracia deliberativa (Mercado, Estado e Comunicação)

Fonte: elaborada pelo autor

Na Grécia antiga, onde nasceu a atividade política, A República (PLATÃO, 2004) e A Política (ARISTOTELES, 2004) já representavam dois pontos de vistas opostos sobre a atividade política: uma visão política prescritiva (que quer mudar o mundo) e uma visão política descritiva (que quer entender seu funcionamento).

Na Idade Moderna, com aparecimento histórico simultâneo do Estado e do mercado também haverá uma visão mais idealista e outra mais cínica da atividade política. Hobbes e Maquiavel são o lado mais descritivo e explicativo, que prefere enfatizar as relações reais de poder que seu aspecto ideal; enquanto a tendência prescritiva e compreensiva será representada pelo liberalismo, principalmente por Rousseau. Ele foi o mais prescritivo de todos pensadores liberais e pode ser considerado em muitos aspectos um contraponto simétrico a Maquiavel no polo descritivo – embora tenha posições contrárias diferentes aos pensadores clássicos sobre os fundamentos do poder. Um fala ao Príncipe e ao executivo; o outro, ao legislador e ao parlamento. Um transforma o elemento simbólico em artifício de sedução política; o outro reintroduz a política no encantamento democrático, em que a liberdade é a causa e o objetivo das relações entre os homens. 

Houve uma inversão das perspectivas descritivas e prescritivas da antiguidade clássica para os tempos modernos, principalmente em relação aos dois fundamentos da atividade política: a coerção e a cooperação. Platão é defende uma política prescritiva e acredita que o medo e a esperança são os fundamentos da vida social; Maquiavel também, mas em uma ótica descritiva. Aristóteles e Rousseau defendem que o fundamento principal da vida social e da ação política é a cooperação, mas o primeiro o faz de modo descritivo, enquanto o outro entende a política de forma prescritiva. Bobbio é um dos pensadores contemporâneos para quem Maquiavel funda a ciência política, enquanto Rousseau, o Direito, sua gêmea dialética da política liberal.

Tabela 2: Discurso x fundamento da política 

 

Prescritivo

Descritivo

O medo como fundamento da política

Platão

Maquiavel

A cooperação como fundamento da política

Rousseau

Aristóteles

Fonte: elaborado pelo autor

Na Era industrial, a polaridade entre a descrição cínica da política e a sua prescrição cívica vai reaparecer na forma de duas construções teóricas de amplo alcance: a economia política marxista, encarnando o polo crítico descritivo, e a sociologia política weberiana, representando o polo prescritivo.

Há duas contribuições decisivas de Karl Marx para o pensamento político: a luta de classes como motor da história; e a relação dialética entre determinismo (infraestrutura econômica) e ação social (superestrutura política e cultural). Seja nas versões mais ortodoxas ou nas mais flexíveis, o caráter explicativo e descritivo da economia política marxista polarize com a abordagem idealista multi-determinista e prescritiva da sociologia política weberiana.

Tabela 3 – Comparação entre Marx e Weber

 

Marx

Max Weber

Método

Materialismo Histórico e Dialético

Tipologia ideal e história dos coletivos

Objeto

Modo de produção e Classes Sociais

O sentido da ação social determinado por múltiplos fatores

Futuro

Revolução, o socialismo levará ao fim progressivo do Estado

Racionalização progressiva das relações sociais (burocratização do Estado)

Ênfase

Exploração

Dominação e Poder

Fonte: elaborada pelo autor

Aqui é preciso abrir um parênteses: Marx é descrito e Weber é prescrito se comparados isoladamente, mas se incluirmos Durkhein em nossa equação observaremos uma caracterização diferente. Durkhein é que constrói uma metodologia de regras para descrição objetiva de um fenômeno social. Diante dele, Marx é um homem que prescreve uma revolução para acabar com a sociedade de classes. E Weber? Pode ser considerado o primeiro pensador político misto (característica será seguida por Pierre Bourdieu e Anthony Giddens entre outros).

Com o movimento contracultural de 1968, o eixo da luta política (e a discussão sobre a legitimidade da autoridade) se desloca do Estado central para dentro das instituições civis (a escola, o hospital, a fábrica).

A antropologia política se inicia nos anos 40, com o estudo das sociedades ditas primitivas, “sem Estado” ou “sem história” (Firth, Leach, Gluckman e Balandier – para citar os mais famosos) e acaba, nos fim dos anos 60, por se prestar também ao estudo das práticas políticas nas sociedades complexas atuais, dentro deste novo poder microfísico, ‘privado’. Foucault é o principal teórico desse anarquismo pós-moderno da contracultura, derrubando uma série de teses tradicionais da sociologia. O poder foucaultiano não é ‘propriedade’ de uma classe que o teria conquistado, mas um conjunto de estratégias materializadas em práticas, técnicas e disciplinas diversas e dispersas. Foucault também contesta a tese de que o Estado funciona como centro de organização social, vendo o poder disperso em uma multiplicidade de disciplinas e de manobras táticas: “o poder não nem global nem local, não está em lugar nenhum, mas infinitesimalmente difuso no espaço”.

Enquanto Foucault é extremamente descritivo, Habermas ocupa o polo prescritivo na pós-modernidade. Habermas pode ser colocado no polo oposto ao de Foucault devido a terem posições simétricas sobre relação entre poder e visibilidade. Segundo Foucault, o poder é invisível e silencioso e a linguagem é uma duplicação através da qual vislumbramos a correlação de forças externas; conforme Habermas, há ampliação da esfera pública pelos meios de comunicação, produzindo um regime de hiper visibilidade. Para Foucault, um vê a todos (o modelo do Panóptico); para Habermas, todos veem um (o modelo da Opinião Pública) – e os dois têm parte da razão sobre o poder.

Jurgen Habermas (1984, 2012) faz parte da Escola de Frankfurt, defende que a sociedade civil organizada promova uma ampliação na esfera pública. É a proposta de uma 'Democracia Deliberativa', união da ação comunicativa com a racionalidade estratégica contra a razão instrumental do mercado. Nos anos 90, a ideia de democracia deliberativa - estruturada em um tripé entre o Estado (o campo da igualdade jurídica), o Mercado (o campo desigualdade econômica) e a Sociedade Civil (o campo das comunidades) será retomada por Giddens e Thompson.

Pierre Bourdieu e Anthony Giddens são sociólogos do conhecimento que substituíram a ênfase na ação social e na racionalização (Weber, Parson e Habermas) pelo estudo de conflito e cooperação através das instituições. É a sociologia política que assimilou a antropologia e o estruturalismo, produzindo uma nova sociologia mais consciente de si - chamada aqui de ‘epistemologia política’. No entanto, enquanto o francês tem uma queda pelo lado estrutural; o inglês é assumidamente interpretativo, defendendo a primazia dos atores e seus recursos sobre as condições coercitivas do sistema. Giddens assimila e integra o funcionalismo e o estruturalismo a uma forma de pensar fenomenológica; enquanto Bourdieu, ao contrário, coloca as práticas sociais dentro de contextos de condicionamentos.

Tabela 4 – Quadrado da autores híbridos

 

Prescritivo

Descritivo

Ação Social

Weber

Giddens

Estrutura

Marx

Bourdieu

Fonte: elaborado pelo autor

Assim, todos são híbridos, mas cada um de seu jeito: Weber prescrevendo modelo para ação social; Marx pregando mudanças estruturais; Bourdieu descrevendo o condicionamento estrutural da práxis em diferentes campos e contextos; e, finalmente, Giddens descrevendo como ação social produz, reproduz e modifica as regras estruturais que organizam nossas vidas. Bourdieu é o discurso descritivo-prescritivo; e, Giddens, o discurso prescritivo-descritivo 

Hoje, os polos prescritivo e descritivo giram em torno da comunicação. No polo descritivo, seguindo os passos do anarquismo pós-moderno, temos Pierre Levy (1993) e, no polo prescritivo, adotando as referências teóricas de Habermas e Giddens, temos John Thompson (1995, 1998, 2002). Levy acredita que a internet e as novas formas de interatividade nos levarão de volta à democracia participativa e ao voto direto: a tecnodemocracia ou ecologia cognitiva. Segundo Levy, ecologia e solidariedade passam muito mais por um redimensionamento das desigualdades cognitivas que de uma redistribuição material das riquezas ou de uma reorganização das relações de força. Thompson defende a proposta da democracia deliberativa (ou de ampliação midiática da democracia representativa) de Thompson, em que o modelo dominante é a interação mediada não-recíproca à distância. E essa ampliação sociológica extrapola o âmbito discursivo, abrindo um ângulo mais abrangente.

Certamente, uma arqueologia completa das ideias políticas deveria ser mais polifônica e múltipla, não reduzindo autores tão complexos a posições antagônicas com tanta facilidade. Por outro lado, é esse artifício metodológico de ‘bipolarização’ que nos permite, a partir dos focos descritivo e prescritivo, entender o diálogo histórico em seu movimento espiral.

Tabela 5 – Arqueologia dos Discursos Políticos

TEMPO

TEORIA POLÍTICA

PRESCRITIVO

DESCRITIVO

IDADE CLÁSSICA

FILOSOFIA POLÍTICA

PLATÃO

ARISTÓTELES

IDADE MODERNA

A CIÊNCIA POLÍTICA

ROUSSEAU

MAQUIAVEL

ERA INDUSTRIAL

SOCIOLOGIA POLÍTICA

WEBER

MARX

CONTRA CULTURA

ANTROPOLOGIA POLÍTICA

HABERMAS

FOUCAULT

ANOS 80 E 90

EPISTEMOLOGIA POLÍTICA

GIDDENS

BOURDIEU

ANOS 2000

COMUNICAÇÃO POLÍTICA

THOMPSON

LEVY

Fonte: elaborado pelo autor

A arqueologia dos discursos políticos descritivos e prescritivos nos revela um mapa das éticas e das ideias políticas. É claro que o discurso político sempre reflete uma determinada prática política, mas também é verdade que os discursos políticos contextualizam e formatam as práticas que representam.

Tabela 6: Dimensão x Social

 

Atores

Campo

Objetivo

Luta

Debate

Subjetivo

Jogo

Espetáculo

Fonte: elaborada pelo autor

Estas quatro características surgem nos discursos políticos de todos os tempos, mas, no discurso político atual há uma caraterística específica: o público ou audiência deixou de ser presencial e foi ampliado no tempo e no espaço pelos meios de comunicação – o que levou a uma aparente fusão do debate com o espetáculo e da luta com o jogo político. Fusão aparente porque a luta permanece viva por detrás do jogo e porque o debate continua dentro do espetáculo. O regime de hiper visibilidade tornou a luta e o debate invisíveis, mas não os extinguiu.

O debate e o espetáculo se aproximam porque dependem de uma audiência não presencial, que aprova ou rejeita as ações dos atores; enquanto a luta e o jogo enfatizam a relação entre os adversários independente do público. Há uma luta que se desenvolve através do poder econômico e do uso da máquina governamental, há um jogo em que os atores políticos devem demonstrar sua capacidade em diversos itens, há um debate de ideias propostas para soluções dos problemas sociais e, finalmente, há uma apresentação teatral na mídia.

E essa distinção de quatro tipos ideais de prática política (política-luta, política-jogo, política-debate e política-espetáculo) nos fornece um outro mapa precioso para entender o quadro histórico arqueológico dos discursos políticos descritivos e prescritos aqui proposta.

Platão opunha a política-luta à política-debate, Aristóteles contrapõe a luta ao jogo. Transversalmente aos clássicos, Maquiavel combina a política-luta à política-espetáculo; enquanto Rousseau, seu oposto simétrico, alia a política-debate à política-jogo. Marx, adotando o modelo de Maquiavel e assimilando o polo rousseniano – transforma a legitimidade em legitimação, enquanto Weber fez o mesmo em uma perspectiva contrária, compreendendo o uso da força e da cultura dentro de um quadro de referências institucionais. Com a ‘sociologia da sociologia’ política prescritiva-descritiva de Bourdieu e a ‘teoria das teorias sociais’ descritiva-prescritiva de Giddens chega-se a um novo patamar de síntese e conflito entre discursos. Com a contracultura, no entanto, a política espetáculo chega ao primeiro plano e as formas discursivas prescritivas e descritivas se modificam. O polo prescritivo (Habermas) confunde a racionalidade dos objetivos da luta com a racionalidade do debate (contrapondo a força ao discurso e ignorando a diferença entre o debate e o espetáculo). E o polo descritivo (Foucault) tende à anulação do sujeito (da auto referência do observador), não distinguindo o aspecto lúdico (o risco do jogo) do teatral (o desempenho da interpretação) da política. Mas, a visibilidade do debate político e do espetáculo político apenas escondem a luta política e o jogo político. Há uma luta que se desenvolve através do poder econômico e do uso da máquina governamental. Há um jogo em que os atores políticos devem demonstrar sua capacidade em diversos itens.

A diferença entre a retórica do discurso político clássico e a gramática imposta pelos meios de comunicação atuais é que os aspectos subjetivos do discurso político – o jogo e o espetáculo, antes tidos como idealistas, passaram a desempenhar um papel cada vez importante diante da correlação de forças e dos argumentos.

A discussão atual entre democracia ciber-participativa de Levy e democracia midio-representativa de Thompson espelha, à luz desses conceitos, é que ambos concordam com a subjetivação da política no espetáculo da mídia em detrimento da luta política baseada na correlação das forças; mas que, enquanto a cibercultura opta pelo aspecto lúdico da política, o sociólogo se decide pela política debate.

O diálogo entre formas discursivas prescritivas e descritivas, portanto, deve ser compreendido como um processo histórico de subjetivação, ou mesmo de sujeição da prática política à linguagem, em que a política espetáculo, cumpre um papel de dar visibilidade crítica às relações de poder.

 

ARISTÓTALES, A políica. São Paulo: Editora Marin Claret, 2004.

BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda. São Paulo: UNESP, 2001.

______ Teoria geral da políica. Brasília: Editora da UnB, 2000.

BOURDIEU, P. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 2004.

_____. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertand Brasil, 2001.

 _____. A disinção: críica social do julgamento. São Paulo: Edusp, 2007.

CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o estado. RJ, Francisco Alves, 1978.

GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Editora UNESP, 1991.

_____ Novas Regras do Método Sociológico – uma críica posiiva às sociologias interpretaivas. Lisboa: ISCSP/Gradiva,1996a.

_____ Para Além da Esquerda e da Direita. São Paulo: UNESP, 1996b.

_____ A terceira via. Rio de Janeiro: Record, 2001a.

_____ A terceira via e seus críicos. Rio de Janeiro: Record, 2001b.

_____ Modernidade e idenidade. Tradução: Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.

_____ O Mundo em descontrole o que a globalização está fazendo de nós. Rio de Janeiro: Record, 2003.

HOBBES, Thomas. O leviatã. São Paulo: Marin Claret, 2004.

LEVY, P. Tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informáica. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.

LOCKE, John. O 2º tratado sobre o governo. São Paulo: Marin Claret, 2004.

MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Marin Claret, 2004.

MARX & ENGELS. O 18 brumário de Luis Bonaparte. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1969.

NIZET, Jean. A sociologia de Anthony Giddens. Petrópolis: Vozes, 2016.

PLATÃO, A república. São Paulo: Marin Claret, 2004.

ROUSSEAU, Jean Jacques. O contrato social. São Paulo: Marin Claret, 2004.

THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna: teoria social críica na era dos meios de comunicação de massa. Petrópolis: Vozes, 1995.

______. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis: Vozes, 1998.

WEBER, Max. A éica protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Marin Claret, 2004a.

______. Ciência e políica: duas vocações. São Paulo: Marin Claret, 2004b.

domingo, 1 de março de 2026

ECOLOGIA DAS MÍDIAS

 


O NOVO PARADIGMA DA ECOLOGIA DAS MÍDIAS

 

Marcelo Bolshaw Gomes

 

INTRODUÇÃO

A comunicação, como campo teórico, sempre oscilou epistemologicamente entre a sociologia da mídia e a sociolinguística, entre as práticas sociais e a produção de sentido, entre um mundo construído por mensagens e o lugar em que o pensamento usa a linguagem para conhecer o universo. acredita no intercâmbio simbólico entre as consciências, pressupõe, uma base consensual partilhada entre os sujeitos: a intersubjetividade.

Hoje pensamos que a comunicação é mímese, replicação, duplicação. Não há emissor nem receptor. Não há código. Todos são emissores/receptores; e tudo é processado em cada um. Deixamos a concepção que via o comunicar como ‘algo’ que saia de um lugar para outro (o paradigma transmissionista), para uma forma de pensar simultânea (o paradigma da comunicação instantânea).

A mudança no significado de como se dá a comunicação acompanha a mudança em outro conceitos e também de uma forma de pensar a ciência - que antes acreditava na objetividade e agora enfatiza o compreender para então explicar.

O conceito de sistema, por exemplo. Maturana vai redefinir Sistema em função da autorreferência (o sistema observa a si próprio) e de autopoiesis (o sistema produz e reproduz a si mesmo). O importante não é a interação dos elementos internos, mas sim a relação entre a auto-organização do sistema e seu entorno, ou ambiente externo. O novo conceito de Sistema implica em um lado de dentro que observa um lado de fora, em autorreferência. A observação de si também é uma operação sistêmica com consequências no sistema/ambiente observado.

Todo o sistema que se autoproduz, que se faz unidade de diferença, se singulariza e passa a se constituir numa identidade. O sistema também ganha autonomia, uma vez que diversifica seus acoplamentos de entrada e saída do ambiente, diminuindo sua dependência estrutural do exterior. A autopoiesis ou auto-organização é assim uma conquista de autonomia do sistema em relação às incertezas do ambiente externo.

Luhmann distingue quatro tipos de sistemas: o inorgânico, o biológico (a célula, o cérebro, o corpo, o meio ambiente, etc), o psíquico e social. Esses tipos de sistemas são interpenetrados uns aos outros. O inorgânico é ambiente externo para o sistema biológico, que por sua vez é ambiente para os sistemas psíquico e social. Somos sistemas biológicos, com suporte inorgânico, que se observam através de um sistema psíquico condicionado por um sistema social.

Os quatro sistemas têm interseções e entornos próprios, incluindo/excluindo parte dos outros dois sistemas. Nesse modelo sistêmico não existe nem ação nem estrutura, nem sujeito nem objetividade, apenas o sistema/entorno, em seu crescimento através de operações de diferenciação voltadas para dentro, reduzindo a complexidade externa através da autoorganização. Os sistemas se assemelham a filtros da complexidade.

Assim, todo sistema é autoreferente e autopoético. Não existem sistemas lineares e fechados. Todo sistema é um ecossistema aberto, todo sistema é complexo de outros sistemas acoplados. O sistema é algo que estabelece relações consigo mesmo e se diferencia dessas relações frente às de seu entorno.

Comunicação

Nesse novo paradigma, a comunicação é um sub-sistema de controle atrelado a cada sistema (uma metalinguagem reduzida e simplificada de cada sistema), justamente para cada sistema tenha uma relação com outros e se atualize e/ou reafirme em sua auto organização. A esses sistemas chamamos ‘mídias’, em um sentido geral, sejam empresas de comunicação, fenómenos culturais ou meros aparelhos celulares.

E “Ecologia das Mídias” significa o conjunto desses sistemas de diferenciação em relação ao ambiente formado por todos os outros sistemas. Há quatro formas de diferenciação: segmentação horizontal, estratificação vertical, centro-periférica e diferenciação de sistemas funcionais. Nos sistemas sociais mais evoluídos, Luhmann identifica quatro subsistemas funcionais: adaptação (economia), realização de metas (política), integração (sistema legal), manutenção de padrões latentes (instituições culturais como a escola, a igreja e … os meios de comunicação). Então, há também um conceito mais estrito de ‘mídia’ como um sistema funcional de manutenção dos padrões. A ecologia de um programa de rádio, por exemplo, seria estabelecer o programa como sistema (com entradas e saídas) dentro de vários outros agregados internos (o sistema-programação, o sistema-emissora) e externos (o sistema-público, o sistema-anunciantes, o sistema-concorrentes).

A comunicação, para Luhmann, é a permuta (de energia, informação, recursos) entre sistemas sociais e não entre pessoas. Não há transferência de informação ou de conteúdos semânticos entre interlocutores. A Comunicação é produção de redundância instantânea (uma Mímese entre sistemas). Luhmann considera que a comunicação como unidade discreta de análise sociológica é mais precisa do que a Ação Social ou a Ação Comunicativa (RODRIGUES, NEVES, 2017, 86).

Há três tipos de comunicação segundo a duração: a interação, a organização e a sociedade. A interação é a relação imediata; a organização é menos breve e serve para tomar decisões; e a própria sociedade, formada por interações e organizações, também pode ser considerada uma comunicação na perspectiva histórica. Assim, o sistema social (imbricado aos sistemas biológico e cognitivo) é formado por comunicações (trocas sistêmicas).

Segundo Luhmann, "a função dos meios de comunicação consiste em orquestrar a auto-observação do sistema social" (2005, 158). Para ele, os meios de comunicação não buscam a integração social como pensa funcionalismo ou a manipulação da realidade como imagina a teoria crítica. Sua função é “observar dos observadores”, criando uma “memória sistêmica”, um "background" para as futuras comunicações da sociedade. É através dessa memória sistêmica de fundo que a realidade é constantemente reconstruida.

 

GOMES, Marcelo Bolshaw. Autopoesis & as três mídias: máquina mimética e teoria sistêmica da comunicação. Revista Temática, ANO XVIII. N. 03. p.96-206 – NAMID/UFPB, 2022.

LUHMANN, N. A realidade dos meios de comunicação. São Paulo: Paulus, 2005.

RODRIGUES, Léo Peixoto; NEVES, Fabrício. A sociologia de Niklas Luhmann. Petrópolis: Vozes, 2017.