quarta-feira, 13 de junho de 2018

EU E MEUS EUS



Uma fenomenologia dos estados de consciência
A teoria dos oito cérebros, de Timothy Leary (1961), recentemente atualizada por Robert Anton Wilson (1987), como oito circuitos neurocerebrais. Essas teorias dividem a cognição em duas:
A Cognição Ordinária ou o lado esquerdo do Cérebro[1] responsável pela cognição atual do mundo, formada por quatro circuitos integrados: o circuito da sobrevivência (ou a Consciência), o circuito das emoções (ou o Ego), o circuito da linguagem (ou Mente) e o circuito sócio-sexual (ou a Personalidade). Esta cognição é, em parte, é consciente de si e de seu contexto de formação.
A Cognição Extraordinária ou o lado direito do Cérebro, formado por funções ainda adormecidas que correspondem às nossas possibilidades de evolução: o circuito neurosomático, o circuito neuroelétrico, o circuito neurogenético e o circuito neuroatômico. Também é chamada, por vários, autores, de Individualidade, em oposição à Personalidade.

1. Cognição Ordinária
A Consciência equivale neste sistema à percepção sensorial da realidade, que remonta à cognição dos invertebrados, ao 'cérebro réptil' ou à capacidade de agir instintivamente. A neurociência atual considera que essa consciência-percepção é produzida pelo 'Arqueocortex'.
"Este cérebro invertebrado foi o primeiro a evoluir (faz de 2 a 3 milhares de milhões de anos) e é o primeiro a ativar-se quando nasce uma criatura humana. Programa a percepção numa espécie de codificação dividida em coisas 'boas e nutritivas' (para as que se sente atraído) e 'perigosas e tóxicas' (as que evita ou ataca)." (WILSON, 1987, 1)
Assim entendida, a consciência não é algo transcendente ou metafísico, mas um circuito de informações instintivas essenciais à sobrevivência. A consciência é o 'ser-no-mundo'. Ela não é um fenômeno em si, mas o espaço em que os fenômenos acontecem, uma clareira em meio a um universo sombrio, uma abertura pela qual vemos a realidade[2].
O Ego, por sua vez, corresponde ao circuito das emoções e a uma estruturação de identidade espacial e de uma relação de poder, de propriedade em relação ao meio ambiente e a outros egos (alter-egos). O ego é uma estrutura de identidade territorial, em que o animal se apossa do espaço.
"Este segundo e mais avançado biocomputador se formou quando apareceram os vertebrados e a competição pelo território (talvez uns 500.000.000 A.C.). No indivíduo este enorme túnel de realidade é ativado quando as cintas mestras do DNA disparam a metamorfose do arrastar-se ao andar. Como sabem todos os pais, o menino que começa a caminhar já não é uma criatura passiva orientada a sobrevivência biológica, mas um mamífero político, cheio de exigências territoriais físicas e psíquicas, rápido em intrometer nos assuntos familiares e nos objetos de decisões." (WILSON, 1987, 1)
Assim, enquanto a Consciência corresponde à sensação de estar aqui e agora em corpo orientado para a sobrevivência animal; o Ego orientado por afetos e desafetos é o segundo circuito sensorial mamífero do status (atualidade-não atualidade) no grupo ou tribo. Para a neurociência é o Paleocortex ou "cérebro límbico". Atualmente, à identificação/negação da consciência com as formas do mundo estrutura o que chamamos de Ego. Dentro dessa definição, há duas formas de compreender o ego: a oriental e a ocidental. A oriental deseja que ele seja transcendido pela consciência. Um belo exemplo atual dessa forma é a de Eckahart Tolle:
“O ego é um conglomerado de formas de pensamento recorrentes e de padrões emocionais e mentais condicionados que estão investidos de uma percepção do Eu” (2002, 52-53).
Para Tolle, o Ego é o eixo do tempo/horizontal (uma sucessão de momentos – mas o passado só existe quando nos lembramos e o futuro só existe quando nós o imaginamos); a consciência (ou a presença, a sensação pessoal imediata) é o eixo místico agora/vertical. A forma ocidental é ternária e descende da ideia de que temos um demônio pessoal (o eu inferior, o instinto animal, a criança interior) e um anjo da guarda (o eu superior); e sua grande vantagem consiste em colocar o ego como observador tanto em relação aos impulsos instintivos como às demandas espirituais. Nesse modelo ternário, o Ego é um mediador externo e não há a oposição radical entre ego e consciência da tradição oriental.
A Mente, neste sistema, representa a organização do circuito da linguagem. Ela se formou quando os hominídeos começaram a se diferenciar dos demais primatas (uns 4-5 milhões A.C.) e é ativado quando o menino, já maior, começa a administrar utensílios e a linguagem de forma própria. Para Wilson, a ...
(...) "impressão desses três circuitos determina, aproximadamente à idade de três anos e meio, o grau e o estilo básicos de confiança/desconfiança que coroaram a 'consciência', o grau e estilo de truculência/sujeição que determinaram o status do 'ego', e o grau e estilo de perícia/deselegância por meio do que a 'mente' manejará instrumentos ou ideias." (1987, 2)
E, assim, do ponto de vista evolutivo, a Consciência é basicamente invertebrada, flutuando passivamente para a alimentação e a proteção do perigo; o Ego é mamífero, sempre lutando pelo status dentro da ordem tribal do grupo; e a Mente é paleolítica e formadora da cultura humana e confrontando-se com a vida através de uma matriz de instrumentos e de simbolismos. A neurociência chama de 'Neocortex' à porção de 85% da massa cerebral que desempenha essas funções. Pode-se dizer que o ego é formado pela fala e a mente, pela escrita (pelo pensamento abstrato, descontextualizado).
Osho usa uma metáfora interessante, dizendo que a Mente é um espelho, coletivo e externo, e o Ego é nosso reflexo, circunstancial e efêmero, neste suporte no qual nos vemos indiretamente, uma vez que nos recusamos a olhar frente e a frente para nós mesmos (OSHO, 2004, 62).
Ambos, no entanto, mente e ego, são estruturas de identidade construídas por nós (por nossa consciência) através dos outros.
A 'Personalidade adulta' ou 'quarto cérebro' é, para Leary/Wilson, a estrutura psíquica que organiza o circuito sócio sexual, é típico do Homo Sapiens.
Este quarto cérebro se formou quando os grupos de hominídeos evoluíram para sociedades e programaram comportamentos sexuais específicos para seus membros, uns 30.000 a.C. É ativado na puberdade, quando os sinais de DNA desencadeiam a liberação glandular de hormônios sexuais e se inicia a metamorfose ao estado adulto. Os primeiros orgasmos ou experiências de acoplamento imprimem um rol sexual característico que, novamente, é gerado de forma bioquímica e permanece constante durante toda a vida, a menos que alguma forma de lavagem de cérebro ou reimpressão bioquímica o altere (1987, 3).
Não existem estudos neurocientíficos sobre onde e como essa atividade psíquica se desenvolva. Aqui se considera que a Personalidade é um circuito de sinapses cerebrais que coordena as relações entre a Consciência, o Ego e a Mente. A personalidade assim entendida é também uma máscara, uma persona, atrás da qual se esconde uma individualidade psíquica formada pelos circuitos da cognição extraordinária.
Nos meios esotéricos chama-se de Personalidade a este ‘eu falso’, construído a partir do medo e das exigências da socialização, e de Individualidade ao ‘eu verdadeiro’.
A função da Personalidade é interpretar a Individualidade e não a esconder ou reprimir. É como uma vitrine que apresenta ao conteúdo da loja, não adianta quebrá-la ou subtraí-la, é preciso reorganizá-la. Atores e atrizes de teatro costumam ‘se trabalhar’ escolhendo personagens semelhantes aos de suas personalidades, como uma forma de reinterpretá-los e superá-los, lapidando sua individualidade.
Também se pode pensar na Personalidade como os 40% da identidade pessoal que pode ser modificada (as sinapses móveis entre os neurônios) e na Individualidade como o que não se pode mudar (os circuitos cerebrais fixos, que se formam ao longo da vida).
De toda forma, a Personalidade é uma estrutura de identidade construída pela consciência através do medo externo (o Ego) e de um espelho para se ver através dos olhos dos outros (a Mente). A consciência vive no fundo da caverna e projeta a personalidade como fachada para o lado de fora.
2. Cinema e percepção
 O místico Ramana Maharshi (1972) desenvolve uma analogia entre cinema e percepção, em que se observa o processo cognitivo descendente, do abstrato para o concreto.

CINEMA
 PERCEPÇÃO
DIMENSÃO COGNITIVA
A luminosidade acessa ou ausente.
A consciência
A CONSCIÊNCIA
A lâmpada no interior do equipamento
O Eu superior, self ou esfera luminosa.
A lente diante da lâmpada
A Mente Coletiva
A MENTE
A luz da lâmpada atravessa lente formando um foco
A Consciência se projeta através da mente gerando a atenção e o tempo contínuo.
O EGO
A luz que atravessa a lente e ilumina a tela
A Consciência atravessa a Mente e o Ego formando uma Personalidade ou um eu observador (ou jiva).
O EU OBSERVADOR OU A PERSONALIDADE
A película, as memórias externas gravadas e enviadas de fora.
A imaginação simbólica, o fluxo das imagens narrativas, arquétipos, memórias.
A LINGUAGEM SIMBÓLICA
Os vários tipos de imagem na tela
Várias formas e nomes, que surgem como objetos percebidos à luz do mundo.
A REALIDADE HOLOGRÁFICA
Projetor de filmes
Corpo
REALIDADE EXTERIOR

Em um primeiro momento, a Consciência é a percepção. Representa a luz que projetada sob diferentes objetos. Se prestarmos atenção ao que vemos, os olhos se iluminam; se buscarmos perceber os sons, a consciência se focara em nossa capacidade auditiva; e assim por diante. Nesta analogia, a consciência é a atenção que se desloca segundo nossa percepção seletiva.
Assim, como a luz é produzida por uma lâmpada, a consciência é produzida por um suporte, de uma esfera luminosa, o Self, Eu superior ou centelha divina. E este é o segundo momento da comparação de Mararshi. O terceiro momento desta analogia consiste na lente que a luz da lâmpada transpassa na projeção de um filme e a Mente Coletiva e externa por onde consciência do Self passa ao perceber as diferentes dimensões (racional, sentimental, sensorial) da realidade. A mente aqui não é individual, e sim um filtro social, intersubjetivamente construído.
No quarto momento do processo, a Consciência projeta sua luz através da Mente Coletiva com assertividade, formando um foco, um centro direcional da consciência imediata chamado de 'atenção'. A criação do Ego, este centro de direcionamento da consciência, cria também o tempo contínuo, a narrativa do passado e as esperanças futuras.
No quinto passo da analogia de Maharshi surge a comparação entre a projeção do filme e o "Observador", isto e, um eu-foco formado para observar o pensamento, a mente e as percepções da consciência. Este observador é um determinado enquadramento autoconsciente que criamos para nos tratar na terceira pessoa e existe em várias meditações. Nesse ponto também se pode localizar a Personalidade – uma vez que apenas uma minoria observa ao próprio filme, preferindo simplesmente projetá-lo. Portanto, desenvolver um 'Eu Observador' ou um 'Eu Exibidor' (a Personalidade) vai depender da consciência em relação ao Ego e à Mente.
No sexto nível da analogia, surge um elemento externo: a película. E, internamente, os fotogramas do filme projetado correspondem às variadas formas mentais (arquétipos, memórias, imagens) que formam o pensamento e a imaginação simbólica. Agora, percebe-se que realidade é semelhante à projeção das imagens na tela do cinema. A diferença é apenas no modo de representação: no cinema as imagens são projeções bidimensionais; e a realidade é holográfica e solida. Mas, também, tanto no cinema como na percepção, há as imagens de referências externas (sensoriais, mentais, emocionais); há imagens produzidas pela memória, outras pela imaginação. O sétimo nível da percepção, então, é a interpretação seletiva das imagens, em que classificamos involuntariamente os diferentes itens de nossa percepção.
E finalmente, há o mecanismo responsável pela projeção das imagens, a máquina ou o corpo. Este mecanismo recebe as imagens automaticamente e não tem consciência plena de seu significado. Chama-se aqui essa instância de espaço exterior. O importante nessa analogia entre cinema e percepção é visualizar o processo cognitivo em seu conjunto em sete etapas sucessivas: a consciência (a luz e o self), a mente coletiva, o ego, o observador/personalidade, a linguagem simbólica, a realidade interior e a realidade exterior.
3. Cognição extraordinária
Esses modelos são apenas algumas das várias fenomenologias dos estados de consciência possíveis. Estudando várias tradições religiosas diferentes, Ken Wilber (2006, 272-273) oferece um modelo de analogia universal das fenomenologias quaternárias, a partir das categorias de corpo, mente, alma e espírito.
Gurdjieff afirma que a personalidade é construída horizontalmente através do tempo e a individualidade, pela experiência vertical da eternidade. Horizontalmente, somos todos iguais, nivelados pela morte; porém, há alguns que vivem o presente de modo mais profundo. Os animais vivem suas vidas horizontalmente, apenas alguns homens, ao entrar em contato vertical com a eternidade, adquirem uma alma (OUSPENSKY, 1980, 89).
Nessa perspectiva, o homem só constrói uma individualidade quando ativa os circuitos cerebrais da cognição extraordinária. Conhecendo a si mesmo, "somos mais e mais capazes de acelerar nossa própria evolução" - acredita Wilson, propondo que enquanto os quatro circuitos do lóbulo esquerdo (Consciência, Ego, Mente e Personalidade) contêm as lições aprendidas de nossa biografia e presentes (pessoal e coletivo); os quatro circuitos do lóbulo direito (Neuro-somático, Neuro-elétrico, Neuro-genético e Neuro-atômico) é um verdadeiro anteprojeto evolutivo de nosso futuro.
O circuito neuro-somático entra em atividade quando o sistema nervoso percebe sua capacidade de lúdica e compreensiva. Este "quinto cérebro" surgiu faz uns 4.000 anos nas primeiras civilizações do ócio. Quando ativado, este circuito produz uma conexão hedonista, uma diversão extática, um desapego de todos os anteriores mecanismos compulsivos dos primeiros quatro circuitos.
Leary achava que essa sensação, no momento evolutivo adequado, desencadearia uma mutação neuro-somática ou uma desprogramação nos mecanismos de manutenção da Cognição Ordinária. Também se pode associar essa auto percepção somática como um estado propiciar de regeneração orgânica, quando entramos em um estado de consciência que "nos cura" através da compreensão e da adaptação às situações.
Já o circuito neuro-elétrico entra em atividade quando o sistema nervoso descobre sua função de meta programação, atuando como um tradutor universal das linguagens ao um padrão binário de uma linguagem primária.
Enquanto o circuito neuro-somático havia uma mudança de comportamento pela adaptação passiva, a cognição neuro-elétrica é propositiva e há uma mudança existencial por reprogramação ativa.
Para Leary ...
" (...) o sexto cérebro consiste no sistema nervoso sendo consciente de se mesmo, independentemente dos mapas de realidade impressos cognitivamente (circuitos I-IV), e até mesmo independentemente do êxtase corporal (circuito V) e suas características (...) são: a simultaneidade, a eleição múltipla, a relatividade e a fusão instantânea de todos os sentidos em universos paralelos de possibilidades alternativas."
O circuito neuro-genético é ativado quando o sistema nervoso começa a receber sinais do interior do genoma individual, por meio do diálogo DNA-RNA. Aqui o Ser se torna consciente de seu Destino. Para Leary, esta mutação leva a diferentes tipos de experiências "fora do corpo": "recordações de vidas passadas", "projeções astrais", etc. Wilson associa esse circuito ao "inconsciente coletivo" de Jung e ao "inconsciente filogenético" de Groff e Ring.
E o circuito neuro-atômico é ativado quando o sistema nervoso é percebe sua fonte de energia quântica, a luz e a ideia de espaço-tempo são eliminadas. A barreira einsteiniana da velocidade da luz é transcendida e escapamos da realidade eletromagnética das coisas e dos objetos para viver em um universo relacional. Para Leary, a "consciência atômica" é a conexão explicativa máxima do homem, que no futuro unirá a parapsicologia e a metafísica na primeira teologia científica, empírica e experimental da história. E para Wilson, "o 'cérebro' cósmico inteiro micro-miniaturizado na hélice do DNA, é a inteligência local guiando a evolução planetária."
Neste modelo, a cognição ordinária é composta por quatro circuitos neurológicos e a cognição extraordinária é construída, hipoteticamente, por quatro circuitos sinápticos possíveis. Cada circuito extraordinário corresponde ao desenvolvimento de um circuito da cognição ordinária.
4. Modelo biográfico
Segundo os chineses, em uma vida “há 20 anos para crescer/aprender, 20 anos para lutar e 20 anos para alcançar a sabedoria”. A psicologia biográfica subscreve esta afirmação e ainda subdivide em setênios (períodos de sete anos) cada uma destas três grandes fases.
Na primeira fase, do nascimento até os 21 anos, observa-se a formação do corpo e da personalidade em três etapas: até os sete anos, dos oito aos 14 e daí a maturidade. Cada uma dessas etapas de sete anos corresponde a um determinado estágio de desenvolvimento do corpo e da personalidade e a passagem de uma etapa para outra implica em uma crise e uma adaptação. Ao final dos sete anos, a criança vive uma crise de socialização; aos 14, a crise da sexualidade; e aos vinte a crise de identidade.
Da mesma forma, a psicologia biográfica subdivide a fase adulta (21-42) e fase madura (42-63) em três etapas de sete anos cada, com crises de transição. Enquanto nos primeiros três setênios da vida o indivíduo vive um predomínio dos fatores biológicos sobre os subjetivos, ele terá também um período igual em que há um equilíbrio e um período de decadência biológica e oportunidade espiritual a partir dos 42 anos de idade.
Neste último período, há um predomínio dos fatores subjetivos sobre os biológicos e as crises (ou mudanças cognitivas) são simétricas aos setênios da juventude. Dos 43 os 49, retornamos aos 14-21; dos 50 aos 56 de volta aos 7-14; e, finalmente, dos 57 aos 63, o período dos zero aos sete anos.
FASE

SETENIO

CRISE

FORMAÇÃO
0 -21
0 –7
Crise de Socialização
8 – 14
Crise de Crise de Identidade
15 – 21
Crise de Sexualidade
PLENITUDE
22 -42
21 – 28
A alma da sensação
29 – 35
A alma do intelecto
36 – 42
A alma da consciência
DECLÍNIO BIOLÓGICO
43 -63
43 – 49
Segunda crise de sexualidade
50 – 56
Segunda crise de Identidade
57 – 63
Segunda crise de socialização

Esse modelo biográfico, inspirado nas ideias da Antroposofia de Rudolf Steiner (BURKHARD, 2000) pode ser comparado ao modelo dos oito de Leary/Wilson.
 No modelo biográfico, aos 42 anos, há a possibilidade de construir uma alma imaginativa (ou manas) a partir do corpo astral (ou de reconstruir os aspectos emocionais da personalidade construídos na adolescência); corresponde ao circuito neuro-somático.
 O circuito neuro-elétrico corresponde à possibilidade de desenvolver, aos 49 anos, uma alma inspirativa (ou buddhi) a partir da mente (ou de repensar os aspectos morais adquiridos dos sete aos 14).
Aos 56, há possibilidade de formar uma alma intuitiva (ou atma) a partir do corpo vital (ou de reviver os aspectos mais profundos da formação da personalidade, moldados durante a primeira infância) – o que corresponde ao circuito neuro-genético.
E, finalmente, o circuito neuro-atômico corresponde à consciência quântica, ao nagual.
Personalidade
(Cognição Ordinária)
Individualidade
(Cognição Extraordinária)
o circuito da sobrevivência (ou a Consciência) Corpo Físico
o circuito neuroatômico Espírito, o nagual, o eu quantico
o circuito das emoções (ou o Ego) Corpo Vital ou duplo etéreo (00-07)
o circuito neurogenético Alma Intuitiva ou Atma(56-63)
o circuito da linguagem (ou Mente) Veículo Mental (07-14)
o circuito neuroelétrico Alma Inspirativa ou Buddhi (49-56)
o circuito sócio sexual (ou a Personalidade)  Corpo Astral (14-21)
 o circuito neurosomático Alma Imaginativa ou Manas(42-49)

Há um espelhamento dos três aspectos (motor, mental e emocional) da Personalidade entre a primeira e a última das etapas da vida. Ao invés do desabrochar potencial de várias almas a partir dos diversos corpos esotéricos, pensa-se aqui em termos de desenvolvimento de circuitos cerebrais da consciência e da reforma da Personalidade. Mas é apenas uma diferença de linguagem. O importante é a consciência das etapas e fases da vida, das crises etárias e possibilidades de mudanças pelas quais todos passam. E, é claro, das estratégias e objetivos de vida que traçamos para cada fase.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BURKHARD, Gudrun. Tomar a vida nas próprias mãos - Como trabalhar a própria biografia o conhecimento das leis gerais do desenvolvimento humano. São Paulo: Editora Antroposófica, 2000.
LEARY, Timothy. As sete línguas de Deus. New York: Thompson and Brothers, 1961.
OUSPENSKY, P. D. Fragmentos de um ensinamento desconhecido - Em busca do milagroso. Coleção Ganesha. São Paulo: Pensamento, 1980.
OSHO Osho de A a Z – um dicionário espiritual do Aqui e Agora. Tradução de Carlos Irineu Costa. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2004.
TOLLE, Eckhart. O Poder do Agora – um guia para iluminação espiritual. São Paulo: Editora Sextante, 2002.
WILBER, Ken. Espiritualidade Integral – uma nova função para religião neste início de milênio. Tradução Cássia Nassser. São Paulo: Alef, 2007.
WILSON, Robert Anton. Os sete cérebros de Leary. Fragmento de texto na internet, tradução anônima, original datado de 1987.


[1] Para saber tradicional, em que o (sujeito) observador é o (objeto) observado, o racional é o lado direito e o esquerdo, o lado mais emotivo. Para o saber científico, em que o observador é externo, a relação é invertida: o lado esquerdo é que é o racional; e o direito, o emotivo.
[2]Além da dimensão perceptiva, a Consciência tem também uma dimensão moral, que leva em conta os valores que a contextualiza. Ser consciente não é exatamente a mesma coisa que perceber-se no mundo, mas Ser no mundo e do mundo, referenciando a percepção em valores construídos culturalmente. Alguns filósofos chamam de consciência fenomenal à experiência da percepção, e de consciência de acesso ao processamento das coisas que vivenciamos durante a experiência. O desenvolvimento perceptivo da consciência se dá através do treinamento da Atenção. O desenvolvimento ético da consciência só é possível através de sucessivas mudanças de valores.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

O QUE É VIOLÊNCIA SIMBÓLICA


1.       O perigo da imprecisão
Há uma imprecisão significativa quando se fala de ‘violência simbólica’. A noção foi elaborada pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu em diferentes contextos e em várias partes de sua extensa obra, e, nos últimos anos, caiu no senso comum, sendo bastante utilizada pelos movimentos feministas e étnicos. Paradoxalmente, uma das definições de ‘violência simbólica’ é justamente a que a vê como uma coerção naturalizada, considerada legítima por parte dos que a sofrem. A violência simbólica sobre os corpos seria exercida sem coação física, mas com danos psicológicos e morais. Ela é invisível, consentida, ritualizada como algo comum, como algo comum que faz parte da vida e de sua lógica intrínseca.
Devido sua imprecisão, a noção de violência simbólica foi criticada por outros pensadores importantes como Michel Foucault e Jürgen Habermas. Foucault considera que toda violência física em si é simbólica, e vice-versa; e Habermas, considera que o físico é exterior ao simbólico e que a noção é apenas uma metáfora, ou uma duplicação da verdadeira violência. Tais críticas, no entanto, longe de desqualificar a noção de Bourdieu apontam para o fato de que a violência simbólica ocupa um espaço intermediário que escapa aos seus críticos, uma interseção preciosa entre o real e o simbólico.
O próprio termo ‘simbólico’ também encerra diferentes interpretações. Pierce afirma que o Símbolo é a representação de um signo por outro, uma metalinguagem. Freud acha o Simbólico é a sublimação transcendente de nossos desejos recalcados. Bourdieu utiliza o termo freudiano, mas com uma abrangência diferente, falando de ‘economia de bens simbólicos’ e de ‘poder simbólico’ como uma forma de subverter e ampliar o pensamento sociológico. 
2.       Definição e aplicações
Em um primeiro momento, a definição de violência simbólica é referente ao sistema educacional se confunde com o aspecto perverso do habitus. A violência simbólica é a interiorização da crueldade exterior e a exteriorização de seus recalques. Nesses primeiros trabalhos sobre a escola, principalmente em A Reprodução – Elementos para uma teoria do sistema de ensino (2014), a noção de habitus é mais determinista[1], a reprodução inconsciente do passado e explica porque a ação social repete esquemas subjetivos, resultantes da interiorização das regras da estrutura social, que os agentes passam adotar 'naturalmente'.
A noção de violência simbólica vem do consentimento dos dominados. Ela é uma imposição dos dominantes diante da submissão voluntária dos dominados. No caso da escola, ela se manifesta como uma ‘indiferença às diferenças’ no processo de transmissão do capital cultural. Todos são tratados como ‘iguais’ embora sejam ‘diferentes’. E esse enquadramento simbólico de todos à igualdade torna-se um fator violento de desqualificação da maioria. A uniformização das diferenças é uma violência simbólica.
Em um segundo momento, a noção de violência simbólica estará associada ao exercício do poder simbólico. Essa é a proposta dos livros A economia das trocas simbólicas (2003), em que a violência é a imposição estrutural de trocas simbólicas desiguais; e O poder simbólico (2001), em que a violência simbólica é apresentada como a prática social de dominação estrutural. Para Bourdieu, a posição de todos agentes no espaço social depende do volume e da estrutura de seu Capital (1996, 53-54). Há quatro tipos: Capital Econômico propriamente dito; Capital Cultural (conjunto das qualidades intelectuais produzidas pelo sistema escolar ou transmitidas pela família); Capital Social (definido pelo conjunto das amizades de que dispõe um indivíduo ou um grupo); e Capital Simbólico (correspondente ao conjunto de rituais ligados à honra e ao reconhecimento).
E a violência simbólica se dá justamente pela falta de equivalência desses diferentes tipos de capital entre as pessoas ou instituições. E esse ponto de vista está presente nos dois principais livros de Bourdieu: As regras da arte - Gênese e estrutura do campo literário (1996) e A Distinção – Crítica social do julgamento (2007).
Há ainda os livros Sobre a Televisão (1997) e A Dominação Masculina (1999) em que a noção de violência simbólica é aplicada em casos específicos.
Sobre a televisão é um texto militante. Bourdieu combate o poder da visibilidade midiática da TV em sua tentativa de usurpar o poder simbólico. Para ele, a televisão aspira pelo monopólio da violência simbólica (Max Weber disse que o estado detém o monopólio da violência) e é preciso detê-la. Não se trata, portanto, de uma análise descritiva sobre o campo de comunicação em relação a outros campos. O mesmo pode ser dito do jornalismo e da opinião do sociólogo sobre essa atividade profissional.
Já o livro A dominação masculina é importante porque demonstra a violência simbólica contra a mulher (principalmente o sequestro da identidade dominada pelo dominador) produz um padrão a ser repetido com outros ‘outros’: empregados, estrangeiros, subalternos, etc. Os dominados passam a se identificar (com a imagem de) seus dominadores e se sentem desqualificados como agentes.
A violência simbólica aqui é a repetição constante e contínua desta desvalorização da identidade dominada até que ela própria não acredite mais em si e concorde em ser um elemento secundário diante da identidade dominadora. Assim, por exemplo, a indústria cultural faz com que os latinos morenos idolatrem atores e atrizes caucasianos, louros e olhos azuis; copiando-lhes a aparência e o estilo de vida consumista, faz com eles não valorizem a própria cultura e os próprios valores. O capitalismo uniformiza as culturas impondo as ideias e padrões estéticos dos países dominantes.
E, assim, o comportamento machista e o imperialismo cultural são apontados como exemplos específicos de ‘violência simbólica’.
3.       Ditados
Lacan foi outro grande estudioso do simbólico. No famoso texto sobre a fase do espelho, ele demonstra que o simbólico é um campo cognitivo intermediário entre o real e o imaginário, entre o verdadeiro e o falso. As narrativas são simbólicas. E, entre as narrativas, talvez ‘as mais’ simbólicas sejam os ditados morais. Eles não só ditam (prescrevem) como as coisas devem ser, mas sobretudo eles ditam (descrevem) como as coisas sempre são. São normas de naturalização naturalizadas e normatizadas.
O ditado “quem dá o pão, dá o pau; quem dá o pau, dá o pão” – por exemplo – não apenas legitima a violência em virtude da dependência econômica mas também responsabiliza o dominador pelo sustento do dominado. Ele é um contrato informal de reciprocidade entre a violência simbólica e a física. Ou ainda: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Quem dá ordens (ou manda) é quem tem poder (dominação e/ou capacidade). A competência de ordenar é resultante do atributo de poder fazê-lo. E mais: há uma ameaça embutida aqui. Pois quem não pode mandar, deve obedecer. A menos que esteja louco e enfrente a violência simbólica. O ditado assim é uma forma de violência simbólica e a própria violência simbólica. 
A regulamentação simbólica da violência simbólica pode chegar a níveis elevados de sofisticação: “Sou responsável pelo que falo, não pelo que você escuta”. Nesse caso, há uma defesa da inocência do emissor diante da liberdade de interpretação do receptor. No entanto, a violência simbólica ocorre com quem a recebe, mesmo que sem intenção de ofender por parte de quem a induz. A violência simbólica é mais sofrida que infligida. Todos somos vítimas e ninguém se lembra do papel de algoz. Aliás, hoje chama-se ‘gatilhos’ e ‘estressores’ aos fatores sociais que desencadeiam os comportamentos violentos.
4.       Conclusão
Os estudos atuais sobre violência não utilizam mais a ideia de ‘violência simbólica’ porque existem definições melhores para descrever as situações reais em termos sociológicos. Conti (2015), por exemplo, distingue três dimensões para pensar a violência: a direta (nível: evento; fenômeno: agressão), a cultural (nível: linguagem; fenômeno: legitimação) e a estrutural (nível: processo; fenômeno: dominação). A violência direta é composta por homicídios, roubos, sequestros, estupros, tortura e atos criminosos em geral. A violência cultural é formada pelo machismo, pelo nacionalismo, pelo elitismo, entre outras formas de identidade exclusivas e exclusoras. E a violência estrutural é organizada a partir da privação, da marginalização, da discriminação. Essas três dimensões interagem entre si, gerando um esquema chamado ‘triângulo da violência’.
Ao mesmo tempo que a noção cunhada por Bourdieu deixou de ser utilizada conceitualmente para descrever a violência do ponto de vista sociológico, ela também foi naturalizada politicamente pelos movimentos sociais, que passaram a utilizá-la não apenas para definir os casos de constrangimento de várias minorias, mas também como uma forma de contra violência. A violência simbólica passou a ser utilizada para revidar, compensar ou conscientizar-nos das desigualdades estruturais da sociedade. O terrorismo poético, por exemplo[2].

Referências bibliográficas
BOURDIEU, P. As Regras da Arte: génese e estrutura do campo literário, Lisboa: Presença, 1996
____ Sobre a Televisão, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
____ O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertand Brasil, 2001.
____ A Economia das Trocas Simbólicas, São Paulo, Editora Perspectiva S.A., 2003
____ A Dominação Masculina, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1999.
____ A distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp, 2007.
BOURDIEU. Pierre. PASSERON, Jean-Claude. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Petrópolis: Vozes, 2014.
CONTI, T. V. (2015). Guerras Capitais – um estudo sobre as transformações na competição econômica e na rivalidade política internacional: a Hegemonia da Grã-Bretanha, os Estados Unidos e a Alemanha de 1803 a 1914. Dissertação (Mestrado). Instituto de Economia, Unicamp, Campinas, 2015. Disponível em: http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000946784
MIRANDA, Luciano. Pierre Bourdieu e o campo da comunicação: por uma teoria da comunicação praxiológica. Porto Alegre, RS: EDIPUCRS, 2005.




[1] Os especialistas (JOURDAIN, 2017, 49-53) destacam três conceitos de habitus em Bourdieu: o habitus determinista do livro A Reprodução (“a interiorização do exterior e a exteriorização do interior”); o habitus-inércia como uma força de resistência à mudanças em várias obras intermediárias; e, finalmente, o habitus probabilístico, formado por ‘esquemas de percepção, de julgamento e de comportamento’ incorporados semi conscientemente pelos agentes de A Distinção (2007).