terça-feira, 3 de outubro de 2017

ONTOLOGIA SOCIAL

O pensamento de Anthony Giddens
Marcelo Bolshaw Gomes[1]
1.      Introdução
Anthony Giddens é sociólogo, diretor da London School of Economics e professor da Universidade de Cambridge. Também é professor visitante de instituições importantes, como as universidades de Harvard, Standford, Roma, Sorbonne. O pensador tem 31 livros, publicados em 22 países.  
Recentemente tem colaborado no desenvolvimento de ideias políticas de centro-esquerda, popularizando a ideia de Terceira via (entre o estadismo e a agenda neoliberal), com que pretende contribuir para a renovação da socialdemocracia. Giddens trabalhou ainda como assessor do ex-Primeiro-ministro britânico Tony Blair, durante o governo trabalhista.
Quatro temas são essenciais ao pensamento de Giddens: a teoria da estruturação, a reflexibilidade produzindo risco, a política de terceira via e a democracia.
Vejamos rapidamente cada um desses temas.
2.      Teoria das teorias
A Teoria da Estruturação é uma “teoria de segunda ordem” (que uma teoria aplicada a outras teorias e não à realidade social) e é resultante de extensão revisão crítica da tradição sociológico, que abarca o funcionalismo (onde, além de Talcott Parson e Robert Merton, Giddens inclui ainda Habermas e Luhmann), o estruturalismo (incluindo também pós modernos como Derrida e Foucault), as sociologias interpretativas e o marxismo (NIZET, 2016, 15-45).
Para Giddens, a noção de função implica em atribuir ‘necessidades’ e ‘objetivos’ aos sistemas sociais, além de excluir a história e desconsiderar a ação dos indivíduos. O estruturalismo amplia a objetividade, estabelecendo a estrutura como um sistema de regras impessoais, mas ainda sem ver ação histórica dos homens. Giddens considera essas formas de pensar positivistas, pois comparam a sociedade a objetos científicos das ciências naturais e biológicas. No outro oposto, estão as sociologias interpretativas weberianas: a etnometodologia de Harold Garfinkel, o interacionismo simbólico de George Herbert Mead e Erving Goffman – das quais Giddens assimila a noção de ator. Para ele, no entanto, esses aportes abordam apenas os indivíduos e não as instituições e a questão da mudança social. E tanto Marx e quanto o marxismo, para Giddens, são ambíguos em relação à ação social[2].
Para conferir as críticas detalhadas de Giddens ao funcionalismo e ao estruturalismo, veja o livro Política, sociologia e teoria social. A crítica ao interacionismo simbólico e a etnometodologia pode ser lida em Novas Regras do Método Sociológico (1996). O livro Sociologia (2008) tem o percurso teórico completo realizado por Giddens em seu projeto de organização e síntese das ciências sociais.
A Estruturação como processo de Giddens equivale ao conceito de Práticas Sociais de Bourdieu. Ambos consideram “a dupla hermenêutica das ciências sociais”, a dialética entre ação social e estrutura, a práxis. Além disso, ambos também consideram que os atores são individuais e coletivos (instituições). No entanto, enquanto o francês tem uma queda pelo lado estrutural; o inglês é assumidamente interpretativo, defendendo a primazia dos atores e seus recursos sobre as condições coercitivas do sistema. Giddens assimila e integra o funcionalismo e o estruturalismo a uma forma de pensar fenomenológica; enquanto Bourdieu, no sentido contrário, coloca as práticas sociais dentro de contextos de condicionamentos.
Assim, não existe uma estrutura social fixa e permanente como pensava o estruturalismo e o funcionalismo, ela é processual e histórica. Não há uma única estrutura social, mas sim um processo de estruturação em que as relações sociais não são rígidas, mas sim dinâmicas no tempo e no espaço, posto que são práticas recursivas. Aliás, a reflexibilidade, neste contexto, seria ‘uma recursividade indireta’.
3.      A modernidade e modernidade radical
A tradição é uma reflexibilidade entre o passado e o presente, em que a memória formata o acontecimento que confirma a lembrança passada. A modernidade é uma reflexibilidade entre o presente e o futuro simulado, levando ao desencanto simbólico das relações sociais e à indução ao risco (e à aventura – acrescento).
Nos livros As consequências da modernidade e Modernidade e identidade (GIDDENS, 1991 e 2002) a noção de ‘reflexibilidade’ seria uma propriedade estrutural, mas depois – principalmente após seu encontro intelectual com Ulrich Beck no livro Modernização Reflexiva (BECK; GIDDENS; LASH, 1994) e a consolidação da noção de Sociedade de risco (BECK, 2010) – a ideia de reflexibilidade passou a desempenhar um papel central nas ideias de Giddens.
‘Reflexibilidade’ é a capacidade de retroalimentação realidade cultural e a vida social. Para pensar o conceito de reflexividade, Giddens realiza um contraponto entre as sociedades tradicionais e as sociedades modernas. A vida social tradicional era voltada para o passado, para repetição de ciclos históricos; a modernidade inicia uma nova concepção de tempo-espaço em que a reflexividade é voltada para o presente e para o futuro.
Assim, apesar da modernidade ser mais aberta ao conhecimento, ela também gera inseguranças pela pluralidade de opções que detém. E essa falta de certeza e de segurança, por sua vez, aumenta ainda mais a reflexibilidade, isto é, a simulação de situações de risco. “O risco é a dinâmica mobilizadora das sociedades propensas à mudança, que desejam determinar o próprio futuro em vez de confiá-lo (...) à tradição”. (GIDDENS, 2003, p. 34)
Segundo Giddens (2003, p.33), risco corresponde a “infortúnios ativamente avaliados em relação a possibilidades futuras”.
O capitalismo moderno difere de todas as formas anteriores de sistema econômico em suas atitudes em relação ao futuro. Os tipos de empreendimento de mercado anteriores eram irregulares ou parciais. As atividades dos mercadores e negociantes, por exemplo, nunca tiveram um efeito muito profundo na estrutura básica das civilizações tradicionais, que permaneceram amplamente agrícolas e rurais (GIDDENS, 2003, p.34)
Nesse sentido, a aceitação da existência do risco corresponde a uma forma calculista de ver o mundo, através da qual, simulam-se várias reações possíveis aos acontecimentos. Quanto mais a tecnologia interfere na vida social, quanto mais a objetividade científica e a mentalidade secular torna-se senso comum, mais o homem reflete a existência do risco e adota psicologicamente o ‘princípio do acautelamento’, em que se sustenta a incerteza científica (a dúvida sistemática).
Giddens, no entanto, não acredita na secularização absoluta das tradições e sim que a modernidade convive com o poder simbólico de modo diferente. Ao contrário, o que agora chamamos de tradição é algo inventado a pouco tempo pela própria modernidade. A reflexividade moderna funciona em conjunto com a reflexividade tradicional.
Da mesmo forma, Giddens não concorda com a ideia de uma ruptura histórica da modernidade com a globalização, mas sim que houve um recuo ainda maior da reflexividade tradicional e uma generalização ainda maior da reflexividade moderna, após os anos 60. Para ele, não há ‘pós-modernidade’ e sim uma ‘modernidade racial’, em que o desencantamento simbólico do mundo passa atingir as relações de intimidade, dando um caráter afetivo à família (que antes era um unidade econômica) e alterando a auto formação da identidade pessoal.
No livro A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas debate, a partir de Foucault e de outros autores, o significado da contracultura; elabora a noção de ‘democracia emocional’ e trata da globalização e desta reflexividade super exacerbada pelo risco, que tem como principal produto o hiper individualismo e a mudança nas estruturas familiares em todo mundo.
4.      Política de terceira Via
Na revolução francesa, os girondinos sentaram à direita; e os jacobinos, à esquerda. Para Noberto Bobbio (2001), tal fato caracterizou ideologicamente toda história política que se seguiu. A direita representa os que defendem a liberdade individual acima da igualdade social entre indivíduos; a esquerda corresponde aos que advogam a primazia da igualdade de todos sobre a liberdade de cada um. Os dois lados políticos seriam assim polos da contradição moderna entre liberdade e igualdade.
Porém, a contradição política entre direita e esquerda não é apenas discursiva (e filosófica); ela é ideológica e está encravada na prática política, nas formas de representação da sociedade moderna. Na verdade, pode-se dizer que toda política moderna se baseia na luta entre essas duas práticas políticas contrárias.
Para Bobbio, que era liberal e socialista, quando uma sociedade pendia demais para esquerda, tornava-se totalitária em nome da igualdade; e, quando se fixava na direita, se tornava injusta e desigual em nome da liberdade.
O ideal seria o equilíbrio entre as duas posições, o centro (a fraternidade), o único capaz de decidir a melhor opção para cada situação no momento (movimento pendular) e de negociar pragmaticamente soluções e compensações caso a caso. O centro seria menos ideológico e mais político, mais responsável e orientado por objetivos e estratégias do que por convicções e valores, para citar as éticas políticas de Weber (2004, 112-116).
Anthony Giddens retoma a reflexão de Bobbio, mas, socialdemocrata, discorda no movimento pendular do centro, apontando a simetria paradigmática insustentável da polaridade atualmente: ou temos a regulamentação econômica com anarquia moral – como quer a esquerda; ou a anarquia econômica com fortes controles morais – como deseja a direita.
Com a proposta de uma Política de Terceira Via (2001a, 2001b), Giddens elabora uma resposta ao impasse entre a socialdemocracia tradicional (o keynisianismo e o estado do bem-estar social) e o neoliberalismo (ou o estado mínimo e aberto às trocas externas) com a ampliação do papel desempenhado pela Sociedade Civil. Nem a auto regulação selvagem dos mercados, nem o Estado inoperante e falido; apenas democratização da democracia pode mediar o conflito entre os interesses econômicos e políticos. A política de terceira via seria essa despolarização pragmática do modelo esquerda x direita, em que planejamento e a liberdade se combinem criativamente.
Dentro desses parâmetros, a política de terceira via defende oportunidades iguais, responsabilidade pessoal e mobilizações constantes dos cidadãos e das comunidades, dando atenção especial à família (a entrada das mulheres no mercado de trabalho) e ao aumento da criminalidade.
Este realinhamento dos extremos desemboca na ideia de uma política sem inimigos. Para esquerda, os maus são os capitalistas, o mercado, as grandes corporações, os EUA, etc; para direita, os maus são: o estado inchado, o relativismo cultural, os imigrantes e os criminosos. “Mas não há uma fonte concentrada dos males do mundo: temos que deixar para trás a política de redenção” (GIDDENS, 2001a, p.45). E essa 'política sem inimigos', acima da direita e da esquerda, é também um forte argumento eleitoral.
5.      O que a globalização está fazendo de nós
Em 1999, Giddens deu uma série de palestras para BBC de Londres, que depois foram resumidas e organizadas como o livro O Mundo em descontrole – o que a globalização está fazendo de nós (2003). O livro é divido em cinco capítulos: Globalização, Risco, Tradição, Família e Democracia.
O primeiro capítulo analisa dois grupos de pensamento sobre Globalização o fenômeno: os ‘céticos e/ou fundamentalistas’, que acham que a globalização não traz nada de novo: é apenas o desenvolvimento imperialismo norte-americano; e os ‘radicais cosmopolitas’, que acreditam que ela está mudando tudo, destacando a onda mundial de adaptação econômica dos ‘países em desenvolvimento’ à dinâmica do mercado global, bem como a influência cultural desses países em relação aos ‘países já desenvolvidos’. A essa contra influência o autor denomina de ‘colonização inversa’.
O importante é que com a globalização, as ações não estão mais confinadas às áreas geográficas, mas têm repercussões globais. Repercussões que, ao mesmo tempo em que mudam as estruturas mundiais, interferem na identidade do cidadão que se encontra no cerne da luta entre dependência e autonomia, entre fundamentalismo territorial e cosmopolitismo sem raízes, características da globalização atual.
A globalização (econômica e cultural) começa com a aventura das grandes navegações, quando descobrimos a dimensão global da terra. A modernidade é essa aventura que rompe com as tradições. A palavra “Risco” surgiu nas áreas ainda não exploradas dos mapas marítimos dos navegadores portugueses que eram riscadas. Os temas do livro (globalização, risco, tradição, família e democracia) estão todos relacionados uns com os outros.
Giddens aponta três áreas principais em que a comunicação emocional está substituindo as relações tradicionais entre as pessoas: os relacionamentos sexuais e de amor, os relacionamentos pais-filhos e os relacionamentos de amizade.
6.      Democracia
Pode-se compreender a noção de democracia para Giddens como uma forma de governo e como um método de relacionamento (ou democracia emocional).
Como forma de governo Giddens adere ao modelo da democracia deliberativa proposto por Habermas, em que a igualdade jurídica entre indivíduos é representada pelo Estado; que a liberdade é um atributo e uma exigência do Mercado; e que a Sociedade Civil encarna o princípio da solidariedade fraterna. Habermas deseja que ampliar a esfera pública através da organização das comunidades. Giddens, adota o tripé da estrutura política moderna, bem como a de disputa entre o Mercado e o Estado pela Sociedade Civil. Porém, ao contrário de Habermas, Giddens, com a política da terceira via, deseja terceirizar o Estado através de ONGs. Acredita ainda que é necessário passar aperfeiçoar a democracia como forma de governo, através de uma passagem gradativa da democratização do Estado à democratização da sociedade e das instituições (da escola, da fábrica, dos bairros). E chama este processo histórico-institucional de “democratização da democracia”.
Mas, há também a “democracia emocional”, um método de relacionamento e de tomar decisões coletivas entre pais e filhos, entre grupos de amigos, entre marido e mulher (GIDDENS, 2003: p.61). A democracia como método não consiste simplesmente na regra de maioria (pois assim seria impossível existir democracia entre duas pessoas com interesses diferentes, como professor e aluno, por exemplo) ou o direito ao dissenso, mas sim no 'novo contractualismo', isto é, na negociação dos interesses divergentes e das próprias regras de negociação.
A democracia emocional não anula as obrigações sociais e familiares. Ele é resultante da negociação dos hábitos e valores da sociedade tradicional. Portanto, igualdade sexual, liberdade sexual das mulheres e dos homossexuais e redefinição da estrutura familiar marcam o afloramento de uma nova democracia.
A democracia vista desse modo não é o predomínio formal da maioria, mas a tomada de decisões através das regras negociadas entre os diferentes pontos de vista que formam uma unidade de ação.
A democracia como um regime de regras negociadas é 'a' utopia (o projeto de uma sociedade perfeita sempre inacabada) por excelência. Os mitos estão sempre ancorados no passado imemorial, na tradição, na origem anterior à história; a utopia, ao contrário, está projetada no futuro, em um tempo que ainda não chegou no 'fim da história'. E, no presente, na reflexibilidade moderna, a democracia real é sempre imperfeita e imprevisível, arriscada e manipulada pelo poder simbólico.
A “reflexividade cultural exacerbada pelo risco” produz comportamentos individualistas. A única saída para democracia é se democratizar ainda mais, fazendo com que todos sejam responsáveis e tenham o máximo de autonomia individual. Ou seja: a globalização gera o individualismo e a necessidade de aprofundá-lo ainda mais, através de políticas públicas contra a dependência, seja química, social, familiar, emocional, econômica ou cultural.
E, em outro oposto, Giddens também acredita que “o mundo precisa de mais governo”, isto é, que o público governe mais o privado – considera inclusive que isso o define como sendo ‘de esquerda’. Na verdade, a terceira via leva apenas à exacerbação dos dois extremos ideológicos clássicos em uma mesma proposta voltada para a globalização – o hiper individualismo e o governo da providência global em parceria com o terceiro setor; e não a superação prática e teórica da polaridade entre as perspectivas da direita e da esquerda, como promete.
Desta contradição nasce “o paradoxo da democracia”: quanto mais as pessoas se individualizam, menos participam das decisões coletivas. Giddens prova o paradoxo estatisticamente e suspeita que a mídia seja parcialmente responsável pelo problema. A apatia política (dos jovens de maior renda e nível de instrução) caminha junto com a internet e com o acesso ao consumo global de informação. Por outro lado, há os que não aceitam bem a própria autonomia individual e mergulham em diferentes tipos de dependência. Os novos inimigos da democracia são as próprias liberdades individuais que ela permite diante das instituições e do estado.
Muitos são os que minimizam a importância das ideias de Giddens, mas a verdade é que ela é enorme tanto diretamente - no Partido Trabalhista britânico, no Partido Democrata dos EUA e em todos os partidos socialdemocratas ocidentais que seguem explicitamente sua orientação; como indiretamente, através de imitadores inconfessos de diferentes tipos, professando ‘novas políticas’ sem os velhos polos extremos opostos ideológicos.
Navegando entre a autonomia cosmopolita e a dependência fundamentalista, entre o público e o privado, entre a socialdemocracia e o neoliberalismo (e entre outros opostos); a política de terceira via ajudou a terceirizar o estado (diminuir seus custos sem prejuízo do setor social), através de organizações não governamentais, políticas público-privadas e redes de agentes temporários. Por outro lado, também inspirou reformas previdenciárias e flexibilizações nas legislações trabalhistas, sequestrando direitos de trabalhadores e aposentados em todo mundo.
Bibliografia
BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. Tradução: Sebastião Nascimento. São Paulo: Editora 34, 2010.
BECK, GIDDENS, LASH; Ulrich, Anthony, Scoot. Modernização Reflexiva – Política, Tradição e Estética na ordem social moderna. São Paulo: Celta Editores, 1994.
BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda. São Paulo: UNESP, 2001.
GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Editora UNESP, 1991.
_____ A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1993.
_____ Novas Regras do Método Sociológico – uma crítica positiva às sociologias interpretativas. Lisboa: ISCSP/Gradiva, 1996a.
_____ Para Além da Esquerda e da Direita. São Paulo: UNESP, 1996b.
_____ Política, sociologia e teoria social: encontros com o pensamento clássico e contemporâneo. São Paulo: Fundação Editora da Unesp, 1998.
_____ A terceira via. Rio de Janeiro: Record, 2001a.
_____ A terceira via e seus críticos. Rio de Janeiro: Record, 2001b.
_____ Modernidade e identidade. Tradução: Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
_____ O Mundo em descontrole o que a globalização está fazendo de nós. Rio de Janeiro: Record, 2003.
_____ Sociologia. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2008.
WEBER, Max. Ciência e Política: duas vocações. São Paulo: Martin Claret, 2004.



[1] Professor-pesquisador do Programa de Pós Graduação em Estudos da Mídia da UFRN.
[2] Segundo Giddens, o jovem Marx (do período alemão) e o Marx de O 18 Brumário de Luís Bonaparte são favoráveis a primazia da ação social; já o Marx do Manifesto Comunista e do Capital defende a primazia da estrutura sobre a ação. Os marxistas também adotam os dois pontos de vista. Luckacs dá ênfase à ação social; Althusser, à estrutura social. 

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Entrevista Biográfica


OS HERMENEUTAS:


Hermenêutica e Comunicação


kambô

Fragmentos da Complexidade


O Espelho de Oxum


Interpretando Nélson Rodrigues

OS PERGAMINHOS DE AMPHIPOLIS

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Adão e Eva

Nos primórdios da história da terra, havia um casal de macacos, Adão e Eva, que viviam felizes, brincando inocentes, em uma floresta daqueles tempos: cheia de árvores frutíferas, plantas e seres encantados. A floresta era vizinha de um grande sertão, deserto e misterioso, semelhante a esse que hoje conhecemos.

No meio daquele sertão arcaico, havia um pé de jurema preta, aonde se escondia uma serpente, que se alimentava dos mamíferos comedores de insetos, que se aproximavam da árvore. E quando a seca chega, já viu, fica tudo seco e só a jurema tem água. Tudo gira em torno dela – para beneficio da cobra, que como guardiã da árvore, devorava todos que se aproximavam de sua sombra.

Na mesma jurema preta também morava uma coruja, que, para se proteger dos gaviões, fez seu ninho entre os galhos cheios de espinhos. A coruja se alimentava dos insetos que viviam na árvore e também era guardiã da árvore, mas do seu aspecto espiritual. Juntas, as duas guardiãs da árvore sagrada guardavam o segredo da consciência do bem e do mal – desconhecido então de todos os outros animais.

Certo dia, Adão e Eva saíram da floresta em busca de aventuras e chegaram ao centro do grande sertão, onde ficava a jurema preta e encontraram a serpente e a coruja.

- “Eu sou a guardiã da consciência do mal” – disse então a serpente – “se vocês descerem até aqui, vou lhes ensinar sobre o Tempo e sobre a Morte”.

- “Eu sou a guardiã da consciência do bem” – disse depois a coruja – “se vocês comerem desta árvore, lhes darei um mistério chamado Liberdade”.

Adão teve medo da morte e quis desistir, mas Eva, que era mais inteligente, ficou curiosa sobre a liberdade. Então, o desejo de saber venceu o medo de mudar e eles acabaram comendo da árvore, e se transformando em homem e mulher . Assim, eles não puderam voltar à floresta encantada e tiveram que viver no sertão para sempre, Adão com vergonha e Eva com culpa, lembrando do paraíso perdido.

A arte do conflito


A Arca de Noé

No sertão, os homens, filhos de Adão, apesar das terríveis doenças invocadas pelos animais, não se arrependeram de seus atos e seguiram em sua história de destruição da terra e de maldade consigo mesmo. Um dia, um homem, de nome Noé, dormiu e sonhou com a árvore do bem e do mal, a jurema preta no centro do grande sertão. No sonho, havia uma escada por dentro da árvore que subia para o céu e descia até o inferno, com dez andares diferentes em que viviam diferentes criaturas. Noé foi subindo, subindo pela árvore como se ela fosse uma escada. Os andares eram como se fossem galhos da árvore e salões de um grande palácio ao mesmo tempo. Primeiro, Noé encontrou os demônios dos quatro elementos: Belzebu da terra, Asmodeu do ar, Satã da água e Satanás do fogo. Depois encontrou os arcanjos cardeais: Ariel do norte, Rafael do oeste, Gabriel do sul e Miguel do leste. Até que no nono galho da árvore sagrada, na ante-sala do salão principal do palácio, Noé encontrou Enoch, sentado no trono que um dia foi do príncipe Lúcifer.

- Olá, Noé! – disse o Guardião do Limiar.

- Você me conhece?

- Sim, eu sou Enoch, seu primo, que subi aos céus interiores e estou sentado Nono Trono do Universo, à direita da Luz Eterna, a porta para o Nada Infinito. Quando cheguei aqui, o lugar estava vago e eu acabei ficando com medo de cruzar a última porta e desaparecer para sempre.

- E eu, o que estou fazendo aqui?

- Você está aqui porque vai haver um grande dilúvio e toda terra ficará inundada. E para que haja sobreviventes, você vai ter que construir uma grande arca de madeira com as juremas-pretas daqui, com dez compartimentos grandes, com essa árvore do sonho e coloque um casal de animais mágicos em cada um – disse Enoch, acrescentando - Mas, não deixe, em hipótese alguma, que os animais confinados se alimentem da madeira da arca porque ela se transformará em uma nave espacial e vocês poderão viajar sem retorno por muitos universos paralelos. Enoch, então, enumerou os animais mágicos que eram necessários e como fazer para chamá-los. E quando Noé acordou do sonho no meio do juremal, começou a providenciar a Arca e os animais para enfrentar o dilúvio.

Arqueologia Política


Moises

Durante o grande dilúvio, a arca de Nóe navegou a deriva durante 40 dias e 40 noites. Nela, os dez casais de animais mágicos eram alimentados por Noé e seus filhos. Todos os dias, ele lembrava da recomendação a todos de que ninguém poderia comer da madeira da arca, sob pena de não voltarem ao mundo após o dilúvio. E como tudo que é proibido, tem um sabor especial; alguém as alimentou da madeira e desencadeou uma viagem transdimencional da arca por vários mundos durante 40 anos. Alguns homens conseguiram se salvar. Algum tempo depois das águas baixarem, um garoto chamado Moises foi brincar perto do juremal do sertão habitado pelos seres humanos e encontrou uma pequena arca de madeira talhada. “Um navio de brinquedo” pensou. Noé finalmente tinha conseguido chegar, mas todos os viajantes da Arca haviam encolhido.

Moises resolveu levar a Arca consigo, “mas antes preciso limpa-la”. E como ela estivesse bem acabada, ele acabou com uma farta no dedo, fazendo com o espírito da Árvore do Bem e do Mal penetrasse em sua alma e ele entrasse em transe profundo. Moises fez então uma viagem semelhante ao sonho de Noé, subindo pelos dez estágios da árvore e conhecendo seus habitantes, os animais aprisionados na Arca. E, quando chegou à décima porta, Moises viu a Luz, sentiu seu silêncio e perguntou:

- Quem é você?

- Eu sou aquele que é – respondeu Jeovah - Eu sou eu e sou um grande vazio. Sou a Luz Eterna, única e universal, por isso, não tenha outros deuses senão Eu. Sou a Força sem Forma, por isso não faças imagens de mim, nem invoque meu nome em vão. 

- Sou a Bondade e a Disciplina, santifica o sétimo dia e honra teu pai e tua mãe. Eu sou o Amor e por mim não matarás. Eu sou a Beleza e por mim não trairás. Eu sou o Saber que não pode ser furtado. Eu sou a Vida, pela qual não darás falso testemunho contra o teu próximo. Eu sou o Poder para o qual não há cobiça - concluiu. 

Moises ouviu tudo aquilo e entendeu que a arca era a morada daquele espírito, que cada um de seus dez compartimentos representa uma lei para os que desejam subir através da Arvore do Conhecimento do Bem e do Mal. E quando acordou no sonho fantástico induzido pela jurema, Moises correu para mostrar aos outros, sua arca e suas dez leis.

Teoria dos Jogos a Contrapelo


Davi e Salomão


Certo dia, príncipe Salomão pediu ao seu pai, o rei Davi, um exemplo simples da inter-relação de todas as coisas. O rei sábio esperou o anoitecer e levou o príncipe a um salão térreo do grande Templo, cujas paredes, o teto e o chão estavam inteiramente cobertos por espelhos. Davi, então, acendeu uma vela no centro do aposento e a luz da chama se refletiu até o infinito. Depois mostrou a Salomão um diamante e perguntou o que ele via refletido em uma de suas faces.

- Cada mínima parcela da diversidade do universo é um reflexo particular da unidade que engloba todas as coisas - explicou o rei sábio.

- O Um no Todo, o Todo no Um: Um no um, Todo em todos - recitou o jovem, feliz por afinal ter entendido o significado da frase.

- Tenha calma, príncipe! Hoje você entendeu o que é o infinito. Para compreender a eternidade é necessário subir os nove pisos do Templo até onde está guardada a arca de nossos ancestrais - disse Davi, acrescentando - porque os reflexos fixos da luz da vela são incapazes de representar o movimento perpétuo e multidimensional do universo.

- E o diamante? Qual seu significado? – perguntou Salomão.

- Da mesma forma que, em cima há o céu, embaixo há a terra. Há o Templo e a Arca. Os mundos estão uns dentro dos outros, como as cascas de uma cebola – explicou o rei pastor, continuando - O homem se reencontra no universo olhando para dentro de si.

- Não entendi nada – reclamou Salomão – Não somos apenas um bicho mais inteligente entre outros bichos?

- Não, Salomão, nós somos as testemunhas através dos quais a Árvore da Vida adquire consciência de si – continuou o rei Davi - através de nossos olhos o universo se percebe a si mesmo. Somos seres percebedores. Ou fomos ...

- Não somos mais? – indagou o príncipe curioso.

- Na Arca está o livro com a história de nossos antepassados. Você conhece as estórias: como Adão e Eva perderam o acesso à Árvore da Vida por provar da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, como Noé se perdeu nos tempos e como Moisés redescobriu o caminho de retorno ao sagrado ...

- Mas, como iremos voltar à Árvore da Vida e à Floresta Encantada se ainda estamos prisioneiros da maldição da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal? – questionou Salomão, indignado - Porque veneramos a Arca da Aliança se estamos presos para sempre dentro dela?

- “Para sempre” não – corrigiu o rei Davi – até o fim dos tempos, quando a Arca se transformar em uma cidade celestial e quando o espírito da verdade que habita no Sol retornar ao trono de nossos corações.

- O “retorno do Messias” – zombou Salomão.

- Neste dia – concluiu o rei - o nosso corpo será nosso templo, puro como esse diamante. E poderemos voltar a viver na floresta a céu aberto.

terça-feira, 25 de julho de 2017

O QUE TRANSMITO DO QUE ME DISSERAM


Mentir para dizer a verdade


Lenda de Ogum


Conta uma lenda que ao chegar a cidade de Ifé, Ogum ficou furioso. Ele falava com as pessoas, mas ninguém o respondia. Isto aconteceu sucessivas vezes, e sempre que se dirigia a um morador da aldeia só tinha silêncio. Ele achou que as pessoas da aldeia estavam zombando dele e num ato de fúria usou seu poder e matou a todos que ele pensava estarem o humilhando.

Um dia ao passar por outra aldeia ele contou a um ancião o ocorrido e este lhe disse que na aldeia por onde Ogum passara as pessoas, naquela época do ano, faziam um voto de silêncio por alguns dias.

Ao saber de seu engano, Ogum ficou envergonhado e enfurecido. E empunhando sua espada contra si mesmo, como um guerreiro desonrado disposto a acabar com a própria vida, gritou; "Ogunhê!" Então, o chão se abriu o rei-guerreiro se tornou um Orixá do ferro, protetor dos mais fracos e todos aqueles que sofrem injustiças e perseguições.

A cultura como dupla mediação social


segunda-feira, 24 de julho de 2017

TALVEZ


Há um conto Taoísta sobre um velho fazendeiro que trabalhou em seu campo por muitos anos. Um dia seu cavalo fugiu. Ao saber da notícia, seus vizinhos vieram visitá-lo.
 
"Que má sorte!" eles disseram solidariamente.
 
"Talvez," o fazendeiro calmamente replicou. 

Na manhã seguinte o cavalo retornou, trazendo com ele três outros cavalos selvagens.
"Que maravilhoso!" os vizinhos exclamaram.
 
"Talvez," replicou o velho homem. 

No dia seguinte, seu filho tentou domar um dos cavalos, foi derrubado e quebrou a perna. Os vizinhos novamente vieram para oferecer sua simpatia pela má fortuna.
 
"Que pena," disseram.
 
"Talvez," respondeu o fazendeiro. 

No próximo dia, oficiais militares vieram à vila para convocar todos os jovens ao serviço obrigatório no exército, que iria entrar em guerra. Vendo que o filho do velho homem estava com a perna quebrada, eles o dispensaram. Os vizinhos congratularam o fazendeiro pela forma com que as coisas tinham se virado a seu favor.
 
O velho olhou-os, e com um leve sorriso disse suavemente:
 
"Talvez."

I CHING

domingo, 23 de julho de 2017

A porta aberta

Há ainda um conhecida anedota sufi sobre um jovem casal, que, chegando em sua casa nova, logo após o casamento, para passar a primeira noite da lua de mel, se esqueceu de fechar a porta de entrada. Quando já iam em beijos, a noiva lembrou:

- Meu amor, a porta está aberta.
- Pois é, meu bem, a porta está aberta.
- Vá fechar.
- Eu não. vá você.
- Eu não. vá você.
- Eu não. vá você.
- Eu não. vá você.

Combinaram, então, que o primeiro a se mexer teria que fechar a porta e ficaram parados, qual duas estátuas, imóveis no centro da sala de estar.

Acontece que passavam por ali alguns ladrões e vendo aquela casa nova, cheia de presentes, completamente aberta e com tudo acesso; decidiram levar algumas coisas.

Os vizinhos avisaram a polícia, que quando chegou só encontrou a casa vazia, ou melhor, com o jovem casal parado imóvel no centro da sala vazia. O policial, então, perguntou:
- O que houve aqui?

Como não obteve resposta, o oficial ia levar o noivo quando então a mulher falou:
- Por favor, seu policial, não leve meu noivo.

Foi então que esse disse com cara de vitorioso:
- Você falou primeiro, agora feche a porta!

Todos somos Hamlet!