l Televisão e audiovisual
Em Claros e Escuros, Sodré conceitua a televisão brasileira como um dispositivo de "controle de rostos". Ele argumenta que a mídia opera sob um simulacro de "democracia racial", utilizando uma presença negra cirúrgica — como uma "vacina" — apenas para conter tensões e simular harmonia social, mantendo a hegemonia branca no centro do discurso.
https://acervo.casasuelicarneiro.org.br/item/biblioteca/bsc_000342
l A atualização de Joel Zito Araújo:
Em sua tese (que posteriormente virou livro e um premiado documentário de mesmo nome), Joel Zito realiza uma densa pesquisa histórica e empírica sobre as telenovelas brasileiras desde a década de 1960. Ele comprova a tese de Sodré ao mapear como a televisão sistematicamente empurrou os atores negros para papéis subalternos, folclóricos ou marginalizados, servindo como uma barreira estética para o projeto de embranquecimento nacional.
A Negação do Brasil: o negro na telenovela brasileira.
https://www.facebook.com/watch/?v=367689310418011
l Outros livros importantes de Sodré:
O Fascismo da Cor: Uma radiografia do racismo nacional (2023) analisa o racismo brasileiro pós-abolicionista, cunhando o termo "forma social escravista" para explicar como a branquitude se perpetua no poder.
Pensar Nagô (2017): Uma obra que desafia a hegemonia da filosofia puramente ocidental e europeia. Sodré defende que a cultura de matriz Jeje-Nagô fundou uma filosofia estritamente brasileira, vivenciada no cotidiano e na liturgia dos terreiros de candomblé. Trata-se de um manifesto voltado para descolonizar o pensamento acadêmico.
O Terreiro e a Cidade: A Forma Social Negro-Brasileira (1988/2002): Este livro introduz a categoria de "espacialidade" nos estudos raciais. Sodré demonstra como as comunidades de terreiro funcionaram como uma reconfiguração espacial e política das terras africanas na diáspora, servindo de refúgio contra o exílio, de núcleo civilizatório e de espaço para governança comum.
l Polêmica do Racismo Estrutural
Em resposta aos textos de Antonio Risério (dizendo que não existe RE) e Silvio Almeida (contra a ideia de racismo reverso), Sodré apresenta ressalvas ao uso irrestrito do conceito de "racismo estrutural", argumentando que a noção pode, por vezes, engessar as possibilidades reais de mudança política.
l O negro no cinema
A discussão sobre a presença negra no cinema brasileiro espelha e aprofunda as teorias de Muniz Sodré sobre a TV, dividindo-se entre a crítica aos estereótipos históricos e a emergência de um Cinema Negro autoral.
Enquanto as produções tradicionais historicamente usaram corpos negros sob lógicas de subalternidade, as últimas décadas consolidaram um movimento de cineastas que assumiram a direção e o roteiro para redefinir essa narrativa.
Para compreender essa evolução, a historiografia e a crítica dividem o tema através de obras e manifestos fundamentais:
Negro Brasileiro e o Cinema (João Carlos Rodrigues)
Um dos mapeamentos pioneiros e mais citados sobre o tema. O autor cataloga a trágica recorrência de arquétipos caricaturais no cinema nacional (como o "escravo", o "malandro", o "favelado" e a "mulata boazuda"), evidenciando como a sétima arte operou historicamente para negar individualidade psicológica aos personagens negros.
O Negro no Cinema Brasileiro (Carolinne Mendes da Silva)
Fruto de pesquisa na USP, este livro investiga o papel do negro na transição para o Cinema Novo. A autora analisa criticamente obras como Rio, Zona Norte (1957) e A Grande Cidade (1966) para demonstrar como o racismo estrutural impôs limites às representações de classe e raça na cinematografia nacional.
https://ficine.org/referencias/tesesedissertacoes/
l Marcos Políticos e Estéticos
Dogma Feijoada (2000):
Inspirado no movimento dinamarquês Dogma 95, o cineasta Jeferson De e um coletivo de realizadores lançaram em São Paulo as bases do que deveria ser o Cinema Negro contemporâneo. O manifesto traçou diretrizes rígidas, como: o filme deve ser obrigatoriamente dirigido por realizadores negros, o protagonista deve ser negro e a narrativa deve evitar estereótipos folclóricos.
O Legado de Beatriz Nascimento e Zózimo Bulbul:
O curta-metragem Alma no Olho (1973), de Zózimo, é considerado a pedra fundamental da estética autônoma do cinema negro. Na mesma linha teórica, o documentário Ôrí (1989), conduzido pela historiadora Beatriz Nascimento, revolucionou a linguagem audiovisual ao colocar a subjetividade, a dor, o transe e a corporalidade negra no centro da tela.
https://youtu.be/hm4MKGxQVqc?si=ez5SXDFypc6kyAfN

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