segunda-feira, 12 de março de 2018

conclusão


Conclusão
             Em 1989, a imagem de Lula era de um sindicalista corporativista que entra na política para defender o interesse dos trabalhadores.  Em 1994, houve uma evolução desta posição, com um discurso mais amplo, buscando o apoio de outros setores da sociedade, mas, novamente, a tentativa de se contrapor a mídia (mas do que ao Plano Real em si), levou a uma imagem negativa em relação ao futuro.  Em 1998, novamente batendo de frente com a mídia, Lula ficará com uma imagem de despreparado para enfrentar a crise econômica internacional.
Tabela – Resumo do conteúdo do livro

Cenário
Mensagem
Recepção
1989
Eleição ‘solteira’ e a 1ª com TV. Divisão dos conservadores, crise e desejo de mudança
Criatividade nos HGPE’s. Conflito entre mídia e propaganda eleitoral. Tema das crianças
Alto número de indecisos e resultado imprevisível
1994
Plano Real e desejo de estabilidade econômica
O controle monetário da inflação. O Brasil-moderno.
Adesão e Previsibilidade
1998
Reeleição e desejo de estabilidade política
A crise internacional e as reeleições estaduais
Conformação e Previsibilidade
2002
Divisão dos conservadores, crise e desejo de mudança
Diálogo entre mídia e propaganda eleitoral. Tema das mulheres.
Alto número de indecisos e resultado imprevisível
Fonte: elaborado pelo próprio autor resumindo toda pesquisa

             Mas, em 2002, Duda Mendonça transformou a imagem do Lula radical, agressivo, crítico, negativo, destrutivo, intransigente; na imagem do Lula light de discurso moderado; o Lulinha paz e amor; Lula, o negociador; Lula encarnando a esperança (de mudança) contra o medo (da mudança). E após três eleições nadando contra a corrente midiática; em 2002, Lula decide voar a favor do vento e constrói, em conjunto com a mídia que tanto combateu, a imagem de negociador pacifista, ideal para o governo democrático.

VÍDEOS
TEXTOS
Posfácio
Apêndices
RESULTADOS DA PESQUISA
Seguindo a metodologia e o modelo teórico adotado por esta investigação - que nos capítulos anteriores analisou o Cenário de Representação da Política, os programas de HGPE e sua Recepção (através de pesquisas de opinião e de revisões bibliográficas específicas) em cada uma das quatro primeiras eleições diretas presidenciais brasileiras – agora se compara essas três instancias discursivas entre si abstraindo os períodos históricos, procurando extrair a partir destas analogias estruturais alguns pontos na evolução/mudança da Imagem Pública de Lula.
  1. Comparando Cenários
Em 1989 e em 2002 havia uma péssima avaliação de desempenho dos governos Sarney e FHC. E uma constatação importante desta pesquisa foi que a estabilidade do Cenário de Representação da Política é inversamente proporcional à disputa por visibilidade das imagens públicas.
Em 1989, no 1º turno da eleição houve uma disputa por Imagem Pública; e, no 2º turno, as pesquisas de opinião e a mídia formaram um Cenário de Representação Política amplamente favorável a Collor. Havia uma grande insatisfação popular com o governo Sarney, com a inflação e com a própria classe política em geral, levando o eleitor a votar em candidatos novos, que conquistaram visibilidade através da mídia, tais como Collor, Lula e Enéas. No 2º turno, houve a construção de CR-P negativo ao candidato do PT, principalmente através de simulações negativas da ideia de um Brasil governado pela esquerda.
Em 1994 e 1998 não havia a mesma insatisfação, as condições eram mais adequadas para uma ‘modernização conservadora’ do que para rupturas e o eleitorado não estava disposto a apostar em novidades.
Neste contexto, as pesquisas de opinião e a mídia apenas confirmavam (e dessa forma, reafirmavam) um CR-P construído pela avaliação de desempenho retroativo das administrações federais anteriores. Havia uma ‘disposição natural para continuidade’ tornada definitiva pela mídia, de dois modos diferentes.
Em 94, não houve disputa de Imagem Pública por visibilidade e a mídia participou ativamente da campanha de forma indireta, elaborando um CR-P favorável à continuidade do Plano Real e da estabilidade monetária, logo à eleição de FHC.
E em 98 também não houve disputa de Imagem Pública nas eleições. Ao contrário, houve um abafamento da campanha eleitoral pela mídia, que preferiu enfatizar o papel responsável do governo frente à crise econômica internacional, esquecendo-se de dizer que este disputava uma reeleição. O estudo de Oliveira (1999) sobre o HGPE de 98 nos mostra como a imagem que o candidato faz do país passou a ser um conceito importante das campanhas publicitárias nos programas de rádio e TV. FHC firmava um bom presente e simulava um futuro melhor, enquanto Lula não conseguia convencer de que o presente não era tão bom assim e que o futuro só seria melhor, se votassem nele.
Nas eleições de 2002 havia uma grande insatisfação, como em 89, e o bloco hegemônico dominante também se achava dividido. A mídia, ainda tentando ser imparcial, adotou a estratégia da hipervisibilidade, de fazer as eleições um grande show.
Também se leve em conta que nas três primeiras eleições o peso do poder econômico, dos esquemas políticos clientelistas e o conjunto da mídia (os principais jornais, revistas e redes de televisão) estiveram monoliticamente do mesmo lado. E, em 2002, houve uma diversidade de posicionamento político dentro e fora dos meios de comunicação.
  1. Comparando Campanhas
Em sua primeira eleição presidencial, Lula defendeu a suspensão os acordos com o FMI e o pagamento do serviço da dívida externa; renegociar o pagamento da dívida externa, de modo a baixar a taxa de juros e direcionar recursos para as atividades produtivas; executar uma política de integração energética com os países da América Latina; modificar a estrutura agrária e o modelo agrícola, de modo a inverter a tendência de queda na oferta interna de alimentos; e elaborar um anteprojeto de um novo Código do Trabalho, em substituição a CLT.
Em 1994, contra FHC, Lula prometia assegurar a igualdade de oportunidade e de tratamento e uma justa distribuição da terra, do poder político e da riqueza nacional; e no lugar de simplesmente não pagar a dívida externa e o rompimento com FMI, contratar uma auditoria internacional. Porém, o PT gastou boa parte de seu tempo em campanha criticando o Plano Real, sem apresentar propostas alternativas.
Em 98, suas propostas foram: dobrar o salário mínimo em quatro anos de governo; reduzir a jornada de trabalho para 40 horas semanais; estimular a criação de bancos do povo; assentar um milhão de famílias em quatro anos; incentivar a geração de novas vagas no mercado de trabalho em um programa emergencial para os jovens; abrir linhas de crédito para estudantes com juros baixos; adotar um programa de renda mínima que garanta um complemento para quem recebe menos de um salário mínimo; desonerar a produção, fazer a reforma tributária e retomar a capacidade de investimento do Estado.
Em 2002, a plataforma petista mudou bastante: modernizar a legislação trabalhista; reduzir a taxa de juros; promover o financiamento da saúde por toda a sociedade, através de recursos da União, dos Estados e dos municípios, além de contribuições sociais; atacar o problema da segurança pública através de oportunidades para os jovens; estimular a construção de moradias, racionalizar o uso de imóveis urbanos vagos, implantar o Projeto Moradia do Instituto Cidadania, impulsionar o barateamento dos materiais de construção e incentivar ações das Prefeituras; criar quatro milhões de bolsas-escola em todo o País; universalizar o ensino pré-escolar até o médio e garantir o acesso à creche.
Em 89, houve um confronto entre as mensagens da mídia e as do HGPE. Não apenas da PT com a Rede Globo, através da sátira Rede Povo, mas também de outros candidatos que desqualificavam os meios de comunicação e eram por eles desqualificados. Em 94, a mídia tratou apoiou monoliticamente o Plano Real por fora da campanha, facilitando bastante a vitória de FHC. Em 98, escondeu as eleições e em 2002 preparou em verdadeiro show para, através da hipervisibilidade, enquadrar antecipadamente os candidatos à agenda do FMI.
Não se trata apenas da visibilidade do candidato ou da campanha, a mídia oculta ou superexpõe as eleições de acordo com suas próprias necessidades de visibilidade. A superexposição das eleições na mídia gera também uma disputa de visibilidade interna, tanto dos candidatos em busca de votos como de emissoras de TV em busca de audiência.
O candidato do PT foi certamente o presidenciável que mais soube tirar proveito desta situação, tanto pelo fato de já ser bastante conhecido das outras três eleições presidenciais de que participou, mas principalmente pelo seu posicionamento de diálogo permanente com a imprensa durante a campanha.
É o que alguns analistas chamaram de Lua de mel entre Lula e a TV; e que Fausto Neto aponta como uma manobra de dupla utilização entre o candidato e a mídia, em que um dá visibilidade ao outro. Mais do que um duplo uso houve e há um diálogo entre Lula e a Mídia. Aliás, um não; vários diálogos, uma vez que o estilo do candidato do PT interage com diversos atores com e através da mídia. Lula responde a tentativa dos seus adversários de capturar o voto feminino indeciso com um belo clipe no HGPE; responde às críticas sobre sua falta de formação superior com humildade e com espírito de colaboração; responde ao mercado financeiro assumindo compromissos (na Carta ao Povo Brasileiro); revida aos ataques dos adversários com a estratégia do Lulinha, paz e amor; monitora a imprensa e briga por sua imparcialidade.
Nada Lula deixa sem resposta.
Na metodologia de apelos no HGPE de Porto, Lula foi o candidato que mais tempo dedicou às músicas e jingles (10,6%) e que menos utilizou o recurso da propaganda negativa (2,5%). Dos temas, ocupou 28,2% do seu tempo total com análise de conjuntura e ao diagnóstico dos problemas do país e, em segundo lugar (18,4%), às políticas futuras, sempre apresentadas como soluções aos problemas levantados. Os dados revelam uma profunda mudança política do PT em relação às eleições anteriores. Porto, comparando os apelos aos enquadramentos da imprensa, observa ainda que a agenda de Lula foi a que mais se aproximou da agenda da mídia em relação ao tema ‘Análise de Conjuntura’, isto é, que Lula foi quem mais interagiu com o jornalismo dentro do campo temático de seu interesse, usando o noticiário a seu favor, com alusões frequentes aos fatos noticiados e à própria mídia dentro de sua campanha.
As imagens de Lula Presidente (RUBIM in FAUSTO NETO; 2003, p. 43) estuda as principais imagens políticas da campanha de 2002 – Lula encarnando a esperança (de mudança) contra o medo (da mudança); o Lulinha paz e amor; e Lula, o negociador. Rubim ressalta ainda a importância da imagem de Lula negociador, enfatizada por Duda Mendonça principalmente em oposição às críticas sobre a falta de preparo (de experiência administrativa e acadêmica) para governar feitas pelos adversários.
Porém, o golpe de mestre em termos publicitários está na resposta às tentativas de intimidação do eleitorado por parte de José Serra (e também da mídia e, através dela, do mercado financeiro): associando o medo (invocado pelos adversários) à mudança (de si mesmo e do país como um todo), Lula associou-se à ideia de que a mudança é possível, à esperança de sua realização. Mudaram as propostas, o discurso, as alianças com outras forças políticas, o cabelo, a barba, as roupas. Lula e o Partido dos Trabalhadores mudaram? Ou terá sido o eleitor que mudou? Lula mudou porque o Brasil mudou – mudou a imagem que o país faz de si mesmo, mudou também a imagem dos que representam a própria mudança.
A ideia de que a Esperança venceu o Medo - baseada na percepção de que houve uma mudança na autoimagem de Brasil da qual Lula e sua equipe souberam tirar vantagem política – é a que melhor combina os elementos visíveis e invisíveis da estratégia petista nas eleições de 2002.
A disputa pelo voto feminino por todos os candidatos na mídia durante a campanha é um caso particular desta relação limiar entre o visível e o simbólico. Desde cedo, os marqueteiros perceberam que a grande massa de votos indecisos era feminina. Então, primeiro houve uma tentativa de emplacar a candidatura da governadora Roseana Sarney pelo PFL (abortada por escândalos de corrupção). Depois, a escolha da deputada Rita Camata, do PMDB, para candidata à vice na chapa de José Serra (com a dura missão de adicionar sensibilidade ao economista); o papel desempenhado pela atriz Patrícia Pillar, ‘mulher’ do candidato Ciro Gomes, recém-recuperada de um câncer; as constantes menções de Garotinho a sua esposa Rosinha, candidata vitoriosa ao governo do Estado do Rio de Janeiro – todos os candidatos tentaram associar sua imagem às mulheres e ao ideal feminino.
O PT colocou no ar um belo clipe com mulheres grávidas, símbolos da renovação, lembrando às eleitoras que Lula é quem realmente defende um mundo voltado para os valores femininos da solidariedade e da paz: a mudança light, sem rupturas ou sustos. O clipe tornava visível o que os outros candidatos tentavam utilizar um modo subliminar e ainda desqualificava sutilmente as outras iniciativas de cooptação do voto feminino.
Lula enquanto político (e não seus programas na TV) desenvolve duas estratégias discursivas bem características: o discurso para as mulheres (e não sobre as mulheres ou pelas mulheres) e as metáforas futebolísticas para universo masculino.
Essas duas estratégias dão a Lula o acesso direto ao imaginário social brasileiro. Observa-se também que em suas três primeiras eleições Lula adotava uma estratégia centrada na análise crítica do passado/presente; e na quarta optou por uma estratégia voltada para o futuro e para idealização.
Por outro lado, se adotarmos as categorias da ação social weberiana, constatamos que Lula e o PT amadureceram, ou seja, passaram da ética da convicção para ética responsabilidade. Em 2002, o PT combinou uma estratégia idealista com uma ética política responsável e pragmática. E a combinação de opostos funcionou.
Outras características discursivas de 89 foram retomadas em 2002. Na primeira eleição, os programas de Lula eram menos personalistas, e o próprio candidato falava sempre em nome da Frente Brasil Popular. Nas duas eleições seguintes, os programas foram mais centrados do personagem de Lula. Em 2002, o PT e seus aliados reaparecem com os atores políticos históricos no discursivo televisivo, sem com isso ferirem a linguagem do veículo.
  1. Comparando as Recepções
Na campanha presidencial de 1989, a Imagem Pública de Lula era de um sindicalista corporativista que entra na política para defender o interesse dos trabalhadores, emblematizada no slogan trabalhador vota em trabalhador.
Em 1994, houve uma evolução desta posição, com um discurso mais amplo buscando o apoio de outros setores da sociedade, mas, novamente, a tentativa de se contrapor à mídia (mais do que ao Plano Real em si), levou a uma imagem negativa do petista em relação ao futuro.
Em 98, sempre batendo de frente com a mídia, Lula ficou com uma Imagem Pública de despreparado para enfrentar a crise econômica internacional.
Mas, em 2002, a imagem do Lula radical, agressivo, crítico, negativo, destrutivo, intransigente deu lugar à imagem do Lula light de discurso moderado; o Lulinha paz e amor; Lula, o negociador; Lula encarnando a esperança (de mudança) contra o medo (da mudança).
E após três eleições nadando contra a corrente midiática; em 2002, Lula decide voar a favor do vento e constrói, em conjunto com a mídia que tanto combateu, a imagem de negociador pacifista, ideal para o governo democrático.
Houve uma mudança histórica de comportamento eleitoral em relação às eleições anteriores, uma vez que os eleitores que votavam em adversários, desta vez, resolveram elegê-lo. Segundo a pesquisa Cartografia do Voto (JACOB et al; 2003, p. 287 a 327), que estuda o comportamento eleitoral brasileiro tomando como referência as 558 microrregiões econômicas definidas pelo IBGE, Lula ampliou sua votação em regiões em que não era votado (como Goiás, Bahia e Piauí) e não absorveu os votos transferidos de seus aliados (como Sarney no Maranhão, Ciro Gomes no Ceará e Garotinho com os votos evangélicos). A julgar pelas votações obtidas por Collor (1989) e FHC (1994 e 1998) percebe-se que, em certas regiões (no interior do país), o eleitorado tende a votar de forma conservadora, enquanto noutras (as capitais e centros industrializados), de forma progressista. Esses dados apontam para uma mudança significativa do comportamento eleitoral brasileiro em 2002, em relação às três eleições anteriores.
Vários fatores contribuíram para esta mudança. Entre as mais citadas estão: a ampliação do leque das alianças políticas do PT, o programa de centro-esquerda da coligação e a nova imagem de Lula produzida por Duda Mendonça. Para chegar à Presidência, o PT atraiu um amplo leque de partidos e linhas políticas. O vice de Lula, o empresário e senador mineiro José Alencar, é do Partido Liberal. Também aceitou os apoios de José Sarney (PMDB) e de sua filha, a ex-governadora do Maranhão Roseana Sarney (PFL), ex-pretendente à sucessão e dos peemedebistas Orestes Quércia (SP) e Roberto Requião (PR), e o governador mineiro Itamar Franco (sem partido). No segundo turno, a aliança se ampliou ainda mais, incluindo as candidaturas derrotadas de Ciro Gomes e de Antony Garotinho.
Então, a pergunta é: qual foi a mudança? Foi apenas uma mudança no discurso e na atitude política do Partido dos Trabalhadores que atraiu espontaneamente os eleitores mais conservadores? Ou houve realmente um forte desejo de mudança por parte da população? Ou será que marketing político de Lula foi mais efetivo com Duda Mendonça do que com outros marqueteiros e publicitários? Ou ainda terá sido a crise no modelo neoliberal, as fraturas no bloco dominante e das oligarquias políticas tradicionais que propiciou a chegada da esquerda à Presidência da República? E a pertinência do programa do PT, as alianças sociais e partidárias, a escolha do candidato à vice, a campanha publicitária na TV e no rádio, a sintonia de Lula com o sentimento popular e sua performance na imprensa - e se considerando que cada um desses fatores contribuiu para vitória de Lula, qual o peso que cada um teve na sua eleição?
De nada servem tantas perguntas ou enumerar as determinações estruturais e as condições conjunturais, se não observamos o papel da ação social que, engendrada por esses fatores, os utiliza e transforma: Lula ganhou as eleições devido a sua capacidade política de dialogar com a mídia, com os eleitores, com os outros partidos e candidatos, com as instituições e com a realidade social brasileira.
É claro que o crescimento do PT como partido político ao longo dos anos e o grande desgaste dos governos FHC também contribuíram, mas este caráter interativo do discurso político e da Imagem Pública de Lula transpassam todas suas campanhas, mas vão progressivamente se aperfeiçoando e se consolidando.
  1. Conclusão
Além da análise descritiva dos programas do HGPE das quatro eleições presidenciais, esta pesquisa sistematizou o trabalho de vários pesquisadores. Usamos a definição de “novo comportamento não-racional” ou eleitor-consumidor de Silveira (1998). Para caracterizar os fatores específicos da decisão de voto nas eleições presidenciais brasileiras recorremos a Carreirão (2002): a avaliação de desempenho do candidato, a avaliação de desempenho do governo, as qualidades pessoais e a Imagem Pública do candidato.
A noção de Imagem Pública (como “intimidade não-recíproca à distância”) foi tomada emprestada de Thompson (1998) e aplicada particularmente à política a partir das ideias de Gomes (2004). Na pesquisa empírica utilizei, em relação às eleições de 89, as teses de doutorado de Albuquerque (1999) e de Soares (1995); em relação às eleições de 94, a tese Miguel (2000); em relação às eleições de 98, a dissertação de Oliveira (1999); e em relação às eleições de 2002, os livros de Fausto Neto (2003) e Rubim (2004a).
Vários autores e mesmo candidatos ressaltam a oportunidade de se utilizar Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral como um espaço para tentar influenciar os eleitores a terem um enquadramento alternativo ao que é formatado pela mídia. Mas, como vimos, ao longo das quatro campanhas presidenciais, esta possibilidade é irrealista e levou a três derrotas sucessivas do candidato do PT, que tentou desqualificar as interpretações da mídia através da própria mídia, como se disputassem com ela (e não com os outros candidatos) a hegemonia ideológica dos eleitores.
Por outro lado, no decorrer das quatro eleições várias medidas tomadas no sentido de diminuir o poder do HGPE: a legislação eleitoral, o aparecimento dos debates televisionados, dos spots durante a programação e das entrevistas personalizadas – além de uma campanha jornalística permanente sobre a arbitrariedade da instituição, a má qualidade da produção dos programas e o consequente desinteresse do público.
A impossibilidade de usar o HGPE como um campo de contraposição à imprensa e aos meios de comunicação para formar um CR-P contra hegemônico não deve ser entendido como sua ineficácia política ou improcedência institucional.
Longe de ser arbitrário ou antidemocrático, o horário eleitoral é uma poderosa ferramenta da cidadania e graças a ela, políticos contrários às elites podem ter acesso direto à população pela TV e pelo rádio.
Aliás, tamanha é a importância do HGPE que a mídia sempre tenta decidir as eleições presidenciais antes do início da campanha. Foi assim com Collor e com FHC. Mas, em 2002, essa mesma estratégia fracassou com Roseana Sarney e Ciro Gomes.
Valorizar o HGPE como campo de autonomia da política diante da mídia e regulamentar (estabelecer critérios para divulgação e aumentar a precisão estatística) das Pesquisas de Opinião durante processos eleitorais são ainda pequenas reformas diante do gigantesco desafio posto pelo funcionamento dos meios de comunicação em uma democracia contemporânea.
Para cumprir o papel institucional de mediação dos interesses públicos e privados, a mídia precisaria construir uma autonomia administrativa e financeira em relação ao mercado e ao Estado. É importante que, por um lado, os meios de comunicação não sejam direcionados unicamente para o consumo, mas seja um instrumento de cidadania; e, por outro, que a concessão dos serviços públicos de radiodifusão não os tornem reféns do interesse estatal. Para que a mídia não seja um poderoso ator social, mas um campo democrático para os atores políticos é preciso impor limites e obrigações em relação ao mercado e ao Estado.
Verificamos que não é possível (ou pelo menos que não foi possível), utilizando o horário eleitoral, formar um cenário contra-hegemônico em relação ao imaginário dominante. Mas, em sua quarta campanha presidencial, Lula mudou a estratégia de confronto com a mídia e ajustou sua Imagem Pública ao cenário de representação dominante produzido pela mídia e pelas demais instituições sociais. Mas, há ainda duas questões polêmicas entrelaçadas no debate teórico sobre as quatro eleições presidenciais: a dialética entre o medo e a esperança no discurso político contemporâneo e a mudança no padrão de representação de nossa identidade nacional.
Na eleição de 1989, Collor venceu Lula no 2º turno através do medo de um governo de esquerda estatizar ainda mais a economia e fazer a reforma agrária. Em 1994, FHC ameaçava que, se Lula fosse eleito, a inflação voltaria. Houve também o medo da incapacidade administrativa de Lula e o medo da crise de governabilidade devido ao sectarismo do PT. Em 98 e 2002, com a queda das bolsas e a alta do dólar, o medo se torna risco, isto é, o medo fabricado institucionalmente por um sistema político para estimular a obediência dos cidadãos a determinadas condições. Há uma evolução histórica em relação ao funcionamento conjunto desses dispositivos durante as eleições presidenciais.
Em cada um dos quatro momentos eleitorais, o medo e a esperança assumem um estágio de desenvolvimento específico. Em um primeiro momento, o medo da possibilidade da vitória de Lula era suscitado através do passado radical e da mudança de linha política. Tratava-se de convencer os eleitores que o PT estava mentindo, que logo que assumisse o poder, revelar-se-ia a verdadeira índole esquerdista do partido e todo esforço feito para controlar a inflação seria perdido, as privatizações das empresas estatais seriam desfeitas, os compromissos com o FMI seriam descumpridos, etc. Neste sentido, no final da campanha, José Serra adotará uma campanha nacionalista, usando as cores verde e amarela da Bandeira Nacional, e sempre caracterizando Lula e o PT com bandeiras vermelhas, repetindo, de certa forma, a mesma estratégia de Collor no 2o turno de 1989.
O excesso de visibilidade de Lula – que por estar em sua quarta campanha era o mais conhecido dos candidatos – e a questão sobre a validade da mudança de seu discurso político foi um dos pontos centrais da eleição: quando a atriz Regina Duarte declarou no HGPE que temia a eleição de Lula, era porque não confiava em quem antes tinha propostas diferentes das que estava defendendo. Insinuava-se que detrás da publicidade light escondiam-se bandeiras vermelhas. Tentava-se colocar a imagem passada em contradição com a imagem imediata, invocando o medo – um forte apelo emocional contra o excesso de visibilidade de Lula.
Eleições no Brasil: O medo como estratégia política (CHAIA in RUBIM; 2004a, p. 06) tem por objetivo analisar a estratégia de criar um clima de medo para combater a candidatura de Lula nas quatro eleições. O texto, no entanto, supera em muito seu objetivo inicial uma vez que, em alguns momentos, descreve também o aspecto positivo do medo no discurso político, o convite à aventura, à mudança e ao desconhecido. E vê o medo em sua dimensão social, silenciosa, não-discursiva.
Outro trabalho semelhante é o artigo O Discurso do Medo versus o Discurso da Esperança – a disputa de sentidos decisiva das Eleições de 2002 (ALBUQUERQUE, 2004). Na verdade, Albuquerque apenas resume o aspecto teórico do trabalho de Chaia, detalhando mais a análise das campanhas eleitorais e reduzindo (metodologicamente) o medo à esfera discursiva.
No entanto, pelo fato de ambas desconhecerem a bibliografia mais recente sobre a noção atual de indução ao Risco como um mecanismo coercitivo do poder (presente em inúmeras abordagens contemporâneas) e trabalhar apenas com o aspecto negativo do medo (medo ideológico em 89, medo da inflação em 94 e medo da crise internacional em 98), as pesquisadoras chegam a uma conclusão ingênua, atribuindo o medo a um discurso e a esperança a outro. Assim, o medo venceu em 89, 94 e 98; e, em 2002, a “esperança venceu o medo” e Lula foi eleito contra indústria do medo promovida pelo mercado financeiro com os institutos de pesquisa e redes de TV. Mas, o medo não é mais uma ameaça discursiva, mas sim um sistema organizado de chantagem e enquadramento formado pelo mercado financeiro, pela mídia e os institutos de pesquisa; a esperança não é mais um sonho de um dia ser feliz, mas um sofisticado dispositivo da simulação em situações de risco induzido.
O medo é dialeticamente indissociável da esperança. Um homem sem medo é um homem sem esperanças. Mas, um só existe em função do outro. Só há esperança quando tememos e só temos medo quando temos expectativa. Na prática, são duas faces da mesma moeda. E se utilizarmos o modelo das estratégias persuasivas nesta questão pode-se dizer a estratégia de situação consiste em defender a confiança no presente e fazer uma projeção negativa de futuro caso o adversário vença, em contraposição à estratégia de oposição é o pregar o medo diante do presente e a esperança em um futuro melhor.
Ambos se utilizam simultaneamente do medo e da esperança no âmbito discursivo, só que de modo invertido. Durante toda sua trajetória política, Lula também se utilizou várias vezes do medo discursivo ao seu favor na tática do quanto pior, melhor e fez ameaças, dizendo que quem tinha medo dele eram as elites, que temiam o advento da justiça social no Brasil e que este medo era real, uma vez que ele faria as reformas sociais necessárias para acabar com os privilégios caso eleito. Inspirar medo aos adversários faz parte das qualidades do herói ou do líder com que se identifica. Não é possível estudar a utilização política-eleitoral do medo sem observar também sua inter-relação com as esperanças que ele suscita.
Pode-se colocar a ideia de uma dialética entre medo e esperança tanto no patamar conjuntural (o medo de mudança de nosso modelo econômico e da esperança de mudança da situação social injustiça) como no âmbito estrutural da Imagem de nossa identidade nacional (o medo e a esperança de ser brasileiro)[1]. 
Na contextualização histórica, constatou-se que o voto personalista para presidência no Brasil (Vargas, JK, Jânio Quadros) é anterior à TV e ao ambiente social midiocêntrico. Observando-se as quatro eleições presidenciais, após o período ditatorial constata-se que a mídia amplificou esta tendência histórica, construindo gradualmente uma popularidade de novo tipo, a Imagem Pública.
E além de comprovar o tremendo impacto da imagem pública em processos eleitorais, esta pesquisa contatou ainda que a atual luta política, mais que uma luta meramente por visibilidade ainda é uma disputa entre interpretações de mundo. E que a mídia enquadra a política, mas também é por ela agendada, principalmente em momentos de grande incerteza política e/ou pouca previsibilidade eleitoral.
É claro que existem os que acreditam que Lula venceu porque os brasileiros acharam que eram necessárias mudanças na estrutura do poder e no modelo econômico e, racionalmente, decidiram por aquele que melhor representa esta opção. Como também perduram os que pensam na predominância de fatores invisíveis na determinação da intenção de voto, como, por exemplo, na fantasiosa variável freudiana de que o símbolo de Pai dos Pobres condiciona o voto presidencial no imaginário brasileiro.
Demonstrou-se aqui um terceiro ponto de vista: de que Lula venceu a eleição porque amadureceu e se apresentou de forma mais responsável, não apenas com proposta mais viáveis e confiáveis, mas também como uma imagem diferente: de barba branca, como um pai de família preocupado com o futuro e com as próximas gerações. A mudança para uma imagem mais madura fez com que as pessoas se sentissem mais seguras com Lula e não o rejeitaram como um revoltado inconsequente de propostas impossíveis como das outras vezes. Apenas mudando significativamente, não somente seu programa político e suas alianças partidárias, mas, sobretudo, sua Imagem Pública, foi possível a um candidato contrário às elites, três vezes derrotado em eleições anteriores, ser eleito presidente.

Marcelo Bolshaw Gomes



[1] Uma polêmica paralela a essa se refere à mudança na representação da identidade nacional e ao fato novo que é o eleitor brasileiro eleger, em 2002, pela primeira vez em toda sua história, alguém que não faz parte da elite e que contesta seus interesses. A esperança de ser alguém superou o medo de não ser ninguém. Será que a eleição de Lula representa dissolução histórica de complexo de inferioridade cultural dos brasileiros em relação ao Primeiro Mundo? Sendo assim não se trata apenas de uma mudança de embalagem ou fachada, ao aperfeiçoar sua imagem no sentido a atender esta demanda de autoestima nacional, Lula deu uma cara ao país e sua vitória termina com nossa inferioridade étnica de mestiços colonizados, “nosso complexo de inferioridade nacional”.  (RUBIM in FAUSTO NETO; 2003, p. 62).

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O golpe e a disciplina


Golpe e contragolpe
Semana passada, o Ministro da Educação, Mendonça Filho (DEM/PE), solicitou à Advocacia-Geral da União, ao Tribunal de Contas da União e ao Ministério Público Federal a apuração de improbidade administrativa, em relação a criação de uma disciplina facultativa do Instituto de Ciência Política da Unb pelo professor titular, Luiz Felipe Miguel, chamada “O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”.
O pedido gerou uma avalanche de reportagens e protestos contra o retorno da censura, inclusive uma nota de repúdio da Compolítica - a Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política, que reúne os principais especialistas da área. 
Porém, há quem diga que a disciplina de Luís Felipe Miguel sobre o golpe de 2016 é apenas um golpe de marketing para multiplicar a iniciativa crítica em diferentes universidades. Argumentam que não há distanciamento histórico dos acontecimentos estudados e que bibliografia é formada por textos jornalísticos e não teóricos de sociologia ou ciência política.
Estudando o golpe
Mas, não é exatamente isso que se vê na ementa da disciplina.
“O que é um golpe de Estado” de Álvaro Bianchi é um texto teórico e encabeça toda uma discussão sobre mudanças arbitrárias de governo. Miguel, em seu programa, revisa a bibliografia sobre a história brasileira do golpe de 64 à nova república, discutindo a Constituição de 1988 e o sistema político dela emergente: o presidencialismo de coalizão.
Nem tão novo assim, uma vez que as elites brasileiros são parlamentaristas e o povo presidencialista desde os tempos da monarquia parlamentar e do poder moderador. A verdade, no entanto, é que, apesar do plesbicito de 1991 (previsto pela constituinte) sobre as formas de governo, o presidencialismo nunca foi regulamentado e que o congresso brasileiro foi dotado poderes constituintes permanentes, colocando o legislativo acima do executivo e do judiciário. Tal situação institucional gerou uma ingovernabilidade para todos os governos desde então: Collor foi deposto, FHC governou como refém do congresso, Lula foi pego comprando votos no mensalão.
Miguel elenca ainda vários trabalhos acadêmicos e políticos sobre o lulismo (Sader, Singer, entre outros), visto como um “reformismo fraco” em relação às desigualdades sociais e em relação ao próprio sistema político que o elegeu. O pesquisador questiona também a “impermeabilidade do sistema político” diante das jornada de junho de 2013 (em que milhões de pessoas foram às ruas pedindo mudanças) e as desastrosas eleições do ano seguinte.
No final do segundo governo Lula, éramos a oitava economia do mundo. Houve uma recessão mundial, que fez apenas uma ‘marolinhas’ por aqui. O Brasil descobriu que tinha um mercado interno e que podia crescer com autonomia em relação à economia internacional. A distribuição de renda, via o bolsa-família, teve um efeito macroeconômico inegável, com crescimento econômico e baixa inflação.
O que foi que Dilma fez em cinco anos que deixou o país quebrado? Como foi que passamos de uma situação em que a dívida pública podia ter sido quitada para a atual, em que a hiperinflação pode voltar em virtude do descontrole das contas públicas? Por que o governo petista gastou uma fortuna na construção de estádios e obras de mobilidade; em detrimento de escolas, de hospitais e das polícias? Por que os principais beneficiários das obras, aliados na reeleição de Dilma, foram os principais defensores do impeachment? Vítima da traição de seus próprios aliados, Dilma e o PT sucumbiram em virtude de um golpe branco.
Infelizmente, a proposta de disciplina não aborda o aspecto econômico da história, se limitando aos aspectos políticos e sociais.
A ementa da disciplina promete ainda abordar a campanha pela deposição de Dilma (o novo ativismo de direita, os papeis da mídia e do judiciário); o projeto do governo Temer (retirada de direitos e a redução do Estado); e, principalmente, a relação da conjuntura política brasileira com o cenário global. A título de contextualização internacional, há ainda um texto da pesquisadora Nancy Fraser (a herdeira de Habermas) e uma entrevista do cientista político Juarez Guimarães, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) ao site do Sul21.
No entanto, verdade seja dita, não há nada sobre os escandalosos estádios de futebol e aeroportos construídos; sobre os empréstimos do BNDES à Nicarágua, Angola e Venezuela; sobre os motivos que levaram a Petrobrás a construir uma refinaria no México ou as investigações da operação Lava jato em si.
Escola e Universidade
O certo é que a pasta com o conteúdo da disciplina foi colocado na internet, permitindo a todos reproduzi-la e que a versão oficial (e da mídia) dos fatos, sejam eles posverdadeiros ou não, será historicamente contestada por várias outras interpretações críticas. O Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp acaba de criar uma disciplina idêntica à da Universidade de Brasília (UnB). O Departamento de Filosofia da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) oferece, esse semestre, um curso de extensão com o mesmo nome e conteúdo.  Departamento de História da Universidade Federal do Ceará (UFC) também ministrará a disciplina de forma colaborativa por todo seu corpo docente. A USP também aderiu. E várias outras devem aderir à proposta.
Estudar e problematizar o contemporâneo deve ser uma obrigação das instituições universitárias. Agora, então, que a escola de samba Tuiuti já fez o dever de casa, bem que as universidades podem provar que aprenderam alguma coisa.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Erving Goffman

PUXANDO A BRASA PARA PRÓPRIA SARDINHA
Entre o internacionalismo simbólico e a sociologia compreensiva

RESENHA: NIZET, Jean; RIGAUX, Natalie. A Sociologia de Erving Goffman. Tradução Ana Cristina Arantes Nasser. Petrópolis, Vozes, 2016. (Coleção Sociologia: pontos de referência)
Marcelo Bolshaw Gomes[1]

A interação teatral
Erving Goffman é um analista das interações, do que acontece quando duas ou mais pessoas se encontram face a face. ‘Inter-ação’ é uma relação mútua e recíproca entre o Eu e o Outro (dentro de mim). Respeitar o outro assim como a si mesmo, implica em amor próprio e consideração, em porte e deferência. Há também uma audiência, um público, os olhares que apenas observam a ação dentro do jogo das interações. E, havendo público, há também o palco e os bastidores; o espaço de exposição e os locais de recolhimento.
O palco é composto por quatro elementos: a) expressões explícitas (comunicação verbal), b) expressões indiretas (gestos, faces, posturas corporais), c) objetos (figurino, acessórios) e d) cenário (representando os contextos). Há dois níveis de representação da interação. O primeiro é o imediato: um professor e seus alunos – por exemplo. No segundo nível, representa-se o conjunto dos professores diante da juventude. O segundo nível de representação é a própria realidade social que simbolizada no interior da interação. Por exemplo: em uma conferência intitulada ‘A conferência’, na Universidade de Michigan em 1976[2], Goffman analisa as interações da situação, e que, no final das contas, o conferencista e público produzem uma realidade externa sobre a qual tecem considerações (NIZET, 2016, 61).
Outra distinção chave é entre o palco (a visibilidade púbica) e os bastidores (muitas vezes comparado ao inconsciente). A dicotomia é vista de forma semelhante ao par figura/fundo da teoria da imagem da Gestalt. O fundo é tudo o que está fora de foco. A figura é o foco da percepção.
A análise de Goffman contempla várias nuances: o controle das impressões (do público pelos atores) substituindo a realidade; a nota falsa (quando há uma ruptura na representação entre os atores e/ou o público ou na representação entre o que a figura diz e o que fundo mostra); e as trocas reparadoras, necessárias para corrigir as rupturas representacionais. Além das noções de ator, cenário, papeis; Goffman analisa as interações através de noções e conceitos singulares. Por exemplo, a noção de equipe (ator coletivo que conduz uma representação) é quando um conjunto de pessoas estabelecem uma cumplicidade, escondendo elementos negativos ou desnecessários do público. Toda equipe é uma “sociedade secreta”, em que a imagem de unidade esconde divergências e atritos. Ou ainda, a noção de envolvimento, a atenção afetiva em relação à interação e aos seus elementos. Há o envolvimento na conversação, o envolvimento nas ocasiões sociais, o envolvimento nas ocasiões públicas não focalizadas.
O Estigma é um conceito diferencial nas interações sociais, uma marca simbólica que desqualifica a identidade de seu portador nas relações imediatas. Ser negro ou mestiço, deficiente físico ou mental, mulher, homossexual, estrangeiro, obeso, doente e divorciado são os estigmas mais recorrentes. O estigmas afetam principalmente a área chamada de ‘fachada pessoal do indivíduo’ e tem como efeito principal ‘desacreditar’ seus portadores. Goffman estuda as estratégias dos estigmatizados, seja se adaptando individualmente, seja formando comunidades, com outros que partilham do mesmo estigma, buscando a aceitação social do seu grupo, mas, na verdade, reafirmando a diferença que tentam reduzir.
Outro conceito marcante é o de ‘instituições totais’ – desenvolvido no livro Manicômios, prisões e conventos:
[...} “um lugar de residência e de trabalho, onde um grande número de indivíduos, colocados em uma mesma situação, afastados do mundo exterior por um período relativamente longo, levam conjuntamente uma vida reclusa, cujas modalidades são explícita e rigorosamente regradas” (GOFFMAN, APUD NIEZET, 2016, 75).
Infelizmente, Nizet não compreende a afirmação de Goffman de que “a loucura é a incapacidade de se orientar pelas regras sociais” (que interpreta como sociologismo), como também do papel das instituições totais na modernidade – pontos que aproximam o americano ao pensamento de Michel Foucault, em relação à Sociedade Disciplinar e ao confinamento como um adestramento ao cotidiano e às rotinas da vida industrial.
A interação ritual
Segundo os especialistas (BRANAMAN, 1997 APUD NIZET, 2016, pág. 12), embora Goffman tome as interações sociais como objeto de análise em todos seus livros, elas são abordadas de diferentes pontos de vistas, através de metáforas.  E cada livro não faz referência aos outros, “como se a cada vez a pesquisa recomeçasse a partir do nada”. Assim, há trabalhos (referenciado no teatro e nos jogos) que se aproximam mais do ‘Individualismo metodológico’ do interacionismo simbólico, isto é do idealismo que crê que os agentes cria sua realidade; enquanto os trabalhos da metáfora ritual são mais próximos de Durkheim e das regras sociais, em que as pessoas não têm autonomia diante dos mecanismos sociais abstratos.
Ao longo do seu percurso intelectual, Goffman utilizou os termos ‘fachada’, ‘face’ e ‘imagem’ para caracterizar a experiência de palco. O ‘face work’ ou a ‘figuração’ significa perseverar a própria face e face do outro, a dupla representação da interação é chamada tanto pelo par ‘amor próprio/consideração’, como também pela oposição entre ‘porte’ e ‘deferência’, nas obras mais recentes.
Tabela da produção de Erving Goffman

LIVROS/ANO
METÁFORA TEATRAL
METÁFORA RITUAL
Ritual de interação – Ensaios sobre o comportamento face a face (1967)
Relações em público: micro estudos sobre a ordem pública (1971)
METÁFORA LÚDICA
Encounters (1961)
Strategic interations (1969)
METÁFORA AUDIOVISUAL
Os quadros da experiência (1974)
Forms of talk (1981)
Fonte: Elaborado pelo autor a partir de Nizet, 2016.
Ao chamar as interação sociais de representações teatrais Goffman está fazendo uso de uma metáfora? Prefiro pensa-las como ‘categorias descritivas’. Considerá-las como metáforas ou analogias poéticas significa esvaziá-las de seu poder cognitivo. E Goffman descreve as interações a partir da própria experiência e não através de um observador externo como faz a sociologia objetivista, associando as interações às regras estruturais. Nizet considera os livros ‘da metáfora ritual’ mais próximos da sociologia holística da tradição de Durkheim. Há inclusive uma demonstração de que Goffman não se considerava parte do interacionalismo simbólico e de que os membros do movimento também não o consideravam como interacionista (NIZET, 2006, 103).
Nizet utiliza essa dupla rejeição como argumento para aproximar Goffman de Durkheim, mas, a verdade é que a análise goffimaniana das interações está mais próxima da sociologia compreensiva de Max Weber do que do objetivismo sociológico das regras estruturais. E, a despeito do que todos dizem, a afinidade teórica entre a escola de Chicago e Goffman é inegável. Talvez o mais adequado seja dizer que ele é a expressão mais sofisticada do interacionalismo simbólico – justamente por ter um horizonte mais abrangente das relações sociais, e dos constrangimentos estruturais impostos aos atores que produzem a realidade social.
Nizet tem razão quando considera que houve um avanço qualitativo entre os livros mais teatrais para os que entendem as interações como rituais. Porém, ele tem uma visão superficial da mudança (uma troca de metáforas) e simplesmente não entende a evolução do pensamento de Goffman os trabalhos posteriores sobre teoria dos jogos[3] e sobre a noção de enquadramento.
A interação audiovisual
O livro Os quadros da experiência social, o último de Goffman, tem características bem peculiares em relação aos seus trabalhos anteriores. Não é uma coletânea de artigos e sim um livro contínuo e extenso, em que o autor assimila os elementos dos trabalhos anteriores, de modo diferente. Ao invés de analisar situações reais e fictícias, Goffman utiliza-se recortes de jornais, peça de publicidade e de outros fragmentos da mídia para fazer suas análises.
O próprio conceito de ‘enquadramento’ (framing temporal, no gerúndio; e não de um ‘quadro’ instantâneo e estático) é tomado de um teórico da comunicação Gregory Bateson, que o utiliza neste contexto de análise específico de como a mídia constrói a realidade social. Ele nos remete a um recorte temporal, em que uma forma de interpretar os acontecimentos é sempre repetida. Goffman define enquadramentos como os princípios de organização que orientam os eventos sociais, a construção de como as pessoas organizam a experiência. São marcos interpretativos mais gerais, construídos socialmente, que permitem às pessoas dar sentido aos eventos e às situações (PORTO, 2004).
O conceito de enquadramento passou a ser utilizado por vários autores de comunicação para entender como a mídia constrói culturalmente uma imagem da sociedade, destacando alguns elementos da realidade em detrimento de outros. Quais são os critérios de seleção, ênfase e exclusão; não apenas de notícias, mas também do entretenimento? Tornou-se uma ferramenta de análise empírica dos Estudos da Mídia, ao lado da Agenda-Setting[4], do Gatekeeper[5] e do Newsmaking[6].
Como utilizar o enquadramento como instrumento de investigação empírica da realidade social? Integrando uma extensa análise quantitativa (o tempo e/ou o espaço dedicado a determinados enquadramentos ou temas nas mídias) a uma abordagem qualitativa (interpretação textual).
Para Nizet e os sociólogos clássicos, adeptos da estrutura sociais e das regras que as constituem, os quadros primários equivalem a fatos sociais e os quadros secundários são interpretações (modalizações ou fabricações, caso parte dos participantes não tenha consciência da representação). No entanto, para um olhar mais contemporâneo, é evidente que os quadros primários são os recortes da mídia e os secundários são as formas de reinterpreta-los.
Tipos de Quadros segundo Nizet
Quadros primários
Quadros naturais
Quadros sociais
Quadros secundários
Modalizações
Fabricações
O Quadro ou Enquadramento de Goffman não substitui um fato social objetivo, mas se tornou uma ferramenta crítica para desmascarar o papel político da mídia pela falta de objetividade ou imparcialidade das mensagens. Desmitificado o mito da objetividade, o conceito de enquadramento é hoje instrumento para examinar empiricamente o papel da mídia na construção da hegemonia.
E a interação lúdica?
Nizet nada nos fala sobre as interações vistas como metáforas dos jogos. Talvez ele suspeite que Goffman considere a possibilidade da natureza lúdica das interações. Talvez desconfie de que Goffman entendia a representação como uma atividade cognitiva de si mesmo, e que tenha descoberto que a interação tem um prazer lúdico ainda mais essencial que a dimensão teatral.
Mas, isso jamais saberemos.




[1] Professor do Programa de Pós Graduação em Estudos da Mídia da UFRN.
[2] Publicada depois em Forms of Talk.
[3] Cujos os textos ainda não foram traduzidos nem para o francês e nem para o português.
[4] Agenda-setting – Metodologia que compara as agendas da mídia, das pessoas e das autoridades públicas sob dois aspectos: a ordem do dia dos temas, assuntos e problemas; a hierarquia de importância e de prioridade pela qual esses elementos são dispostos.
[5] Os gatekeepers (selecionadores de notícias - editores) - zonas de filtro controladas por sistemas objetivos de regras ou por gatekeepers (pessoa ou grupo que tem o poder de decidir se deixa passar a informação ou se a bloqueia); na seleção e na filtragem de notícias, as normas ocupacionais, profissionais ou organizacionais parecem ser mais fortes do que as preferências pessoais; seleção como processo hierárquico, ordenado e ligado a uma rede complexa de feedback; mais do que recusa ou aceitação, inclui todas as formas de controle da informação - codificação, edição, difusão, programação, etc.
[6] Newsmaking (critérios de noticiabilidade) - Quais acontecimentos são suficientemente interessantes, significativos e relevantes para virarem notícia? 1) Importância - determinada por quatro variáveis: a) grau e nível hierárquico dos envolvidos no acontecimento noticiável; b) impacto sobre a nação e sobre o interesse nacional; c) quantidade de pessoas envolvidas; e d) relevância do acontecimento e suas implicações futuras. 2) Interesse - determinado por fatores subjetivos. 3) Produto - disponibilidade, brevidade, atualidade, frequência, qualidade, importância, ineditismo, equilíbrio. 4) Meio de comunicação, qual repórter, com que recursos, formato, frequência; 5) Público - compreensão, adequação da linguagem. 6) Concorrência - o furo, fragmentação, expectativas recíprocas, referência. 

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

ENCANTARIA MODERNA



Princípios da Feitiçaria Midiática

Marcelo Bolshaw Gomes[1]

(…) A magia em suas formas mais primitivas é normal­mente designada como “arte”. Acho que isso é bastante literal. Eu acredito que a magia é arte e que a arte, quer por escrito, música, escultura ou qualquer outro meio é literalmente mágica. A arte é, como mágica, a ciência de manipular símbolos, palavras ou imagens para realizar mudanças na consciência. Conjurar um encantamento é somente encantar, manipular palavras para mudar a consciência das pessoas. Então eu acho que um artista ou escritor é a coisa mais próxima que você vai ter de um xamã no mundo contemporâneo. (...) O fato de que agora esse poder mágico degenerou o nível de entretenimento barato e manipulação é uma tragédia. Atualmente, aqueles que utilizam xamanismo e magia a moldar a nossa cultura são os anunciantes. Ao invés de acordar as pessoas xamanismo é a droga usada para tranquilizar as pessoas, para torná-las mais mane­jáveis. A sua caixa mágica da televisão, com as palavras mágicas, seus slogans, pode fazer com que todos no país pensam nas mesmas palavras e tenham os mesmos pen­samentos banais exatamente ao mesmo tempo. The Alan Moore Mindscape (2003, 23:43 – 32:37).

Sem arrodeio: enuncia-se aqui a seguir quatro princípios da feitiçaria midiática, amplamente utilizados e escondidos pela publicidade contemporânea. Depois, explicamos melhor os fundamentos e as consequências desses princípios.
São eles:
1)      Princípio da Singularidade Artesanal. Em oposição à noção de reprodutividade técnica de Walter Benjamim, a dessacralização da arte pela produção em série promovida pela industrialização de todos os objetos da sociedade[2]; enuncia-se aqui o princípio da singularidade técnica, em que o objeto único e original, manualmente produzido sem cópias é uma forma de arte. Em uma sociedade industrial, todo objeto artesanal é culturalmente um talismã da diferença, um oásis cognitivo no deserto da uniformização serial da objetividade. O objeto mágico é aquele que não tem cópia.
2)      Princípio da Propagação da Singularidade. O objeto mágico é artesanal e único, mas sua imagem pode ser reproduzida ao infinito pela indústria cultural, aumentando significativamente seu poder. Todos o desejam, mas ele é apenas um. O encantamento do amuleto se propaga. Da união da cobiça das massas com a singularidade do objeto desejado forma-se uma assimetria unilateral daquele conceito com um público não presencial, uma “intimidade não-recíproca a distância” (THOMPSON, 1998). A midiatização da singularidade universaliza a imagem do objeto no espaço e no tempo. O objeto mágico tem uma imagem icônica multiplicada ao infinito.
3)      Princípio da Associação Narrativa O objeto artesanal artificialmente propagado precisa ainda ser alimentado por imagens, sentimentos, alimentos e energia. O objeto mágico se nutre de narrativas simbólicas e factuais. E seu poder deriva diretamente de sua presença nessas narrativas. Aliás, o objeto torna-se mágico através de uma narrativa, associando-o a uma ideia indicando a superação simbólica de vários opostos geralmente irreconciliáveis: sujeito/objeto, natureza/sociedade, vida/morte. O objeto mágico é também um índice, uma associação narrativa entre contradições simbólicas e acontecimentos.
4)      Princípio da Identificação Absoluta: A ubiquidade: não há mais diferença entre o objeto mágico e sua imagem serializada e propagada ao infinito. É o próprio objeto que está presente (e não sua reprodução ou cópia) em todos os lugares e tempos. É a fusão entre ator e personagem, entre jogador e avatar, entre médium e orixá. O objeto mágico é um deus encarnado em nosso universo. E a identidade de contexto e o universo narrativo através do qual o observador se observa: o paradigma. A imagem invertida do universo dentro de cada um.

Reza a lenda que a palavra francesa ‘fétiche’, tradução recente da palavra portuguesa ‘feitiço’, foi utilizada por engano na tradução de uma etnografia para o alemão sobre os povos da África ocidental. E antes que esse “mal entendido” fosse percebido a noção de fetiche já havia sido utilizada pelos maiores materialistas modernos (Karl Marx e Sigmund Freud). 
Por um lado, como ninguém sabe ao certo os nomes do autor e do texto, os antropólogos procuram, em vão, outras explicações para a etimologia dessas palavras (PIRES, 2009) e suas curiosas interpretações. Por outro, a própria origem das palavras (do latim facticius: “artificial, fictício”) sugere um engodo, em que uma realidade só se sustenta enquanto houver crença em sua veracidade. Há mistério e encantamento nos próprios termos e em sua história.
Segundo o Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, de Antônio Geraldo da Cunha, [...]
[...] “depois de ter contribuído, portanto, para a criação da palavra francesa fetiche, o português recorre ao francês para tomar-lhe emprestado o termo fetiche, que tem traços semânticos que a aproximam de feitiço, mas desta se diferencia por necessidade de especialização semântica”. (1986, pág. 623)
O feitiço é, geralmente, um termo acusatório (algo reprovável feito por outros); enquanto o fetiche é uma espécie de obsessão pessoal por alguma coisa, uma situação, pessoa, ou parte da pessoa, uma atração ou fixação incontrolável que dá origem a um prazer intenso (nem sempre sexual). Por extensão também há equivalências e diferenças semelhantes entre os termos ‘fetichismo’ e ‘feitiçaria’. Feitiçaria era, para Inquisição, a religião do Diabo. O fetichismo, por sua vez, era, para os primeiros cientistas sociais, o sistema de crenças mágico, anterior às religiões institucionalizadas. Outras definições pensam a feitiçaria como um conjunto de práticas mágicas utilitárias (a mandinga); e o fetichismo como a crença em objetos-deuses.  
Já o feitiçaria ...
Acho importante ter em conta três aspectos do problema do feitiço, todos eles revelando a sua ambiguidade. Primeiro, a ambiguidade entre construção e verdade: o feitiço poder ser falsificação e engano, mas existe a suspeita de que esse artifício, essa ficção, de fato seja verdadeira, que funcione, ou ainda, que tenha um “segredo”, um “fundamento” que o acusador não conhece. Segundo, ambiguidade entre acusador e acusado: o feitiço sempre é antes uma acusação do que uma prática auto definida; mas se reconhecendo como tal, o feiticeiro pode adquirir paradoxalmente poder sobre o acusador, o poder oculto da feitiçaria. Terceiro, e último, a ambiguidade entre sujeito e objeto do feitiço: a feitiçaria é uma arte da sedução e da sujeição, através da qual as pessoas se tornam objetos, ou, pelo contrário, os objetos podem ser vistos como pessoas. A feitiçaria é uma trama, que embrulha acusado e acusador, pessoas e objetos, verdade e ficção. (SANZI, 2009, pág. 128)
A feitiçaria, para os colonizadores portugueses, não era africana, arcaica ou tradicional; mas uma prática ordinária, universal, contemporânea e comum. Enquanto, o fetichismo é uma palavra europeia para designar uma prática religiosa africana.
Hoje as palavras fetiche e fetichismo têm pelo menos quatro significados: a) o sentido psicanalítico (parte do corpo ou objeto que desperta excitação sexual); b) o sentido marxista (o mecanismo ideológico que transforma tudo em mercadoria); c) o sentido xamânico (um objeto enfeitiçado, amuleto ou ídolo; e d) o sentido figurado, o fetiche pode representar uma pessoa admirada por outra, que é seguida e cujas ordens são obedecidas cegamente.
Na verdade, cada sentido da palavra fetiche corresponde a um dos princípios midiáticos apresentados no começo. O fetiche sexual da psicanálise se explica pela áurea da singularidade. O fetiche marxista é baseado na reprodução em série de condições de produção que excluem a maioria. O fetiche xamânico corresponde ao ‘assentamento’ do candomblé. E o sentido figurado (“fulano tem um fetiche por sicrano” – por exemplo) é análogo ao princípio da identidade.
No âmbito da psicanálise, o termo fetichismo é utilizado para definir o desvio do interesse sexual para algumas partes do corpo do parceiro, para alguma função fisiológica, para cenários ou locais inusitados, para fantasias de simulação ou para roupas e adornos.
Para Marx, o fetichismo é a lógica da mercadoria, um regime em que os homens tornam-se objetos (mercadorias) e as coisas (os produtos) se comportam como pessoas. O fetichismo é uma relação social entre pessoas mediada por coisas, com a aparência de uma relação direta entre as coisas e não entre as pessoas. Disso resulta que a mercadoria (ou o mercado) parece determinar a vontade do produtor e não o contrário. O ‘fetichismo da mercadoria’ seria então a magia do capitalismo.
Após Marx, outros autores retomaram a noção marxista de fetichismo, como Adorno em relação à música e cinema; e Guy Debord (2000) mostrando que o fetiche de mercadoria e a coisificação do mundo, foi levado a um nível de objetividade muito além do que Marx imaginou.
A história do fetichismo no sentido xamânico foi pesquisada por William Pietz, numa série de artigos titulados The Problem of the Fetish (1985, 1987, 1988 APUD SANZI, 2009). Nesta perspectiva, o objeto mágico é uma associação entre narrativas simbólicas e acontecimentos. Por exemplo: um fato natural (a chuva) em sincronia com acontecimento social (a alegria das plantas e pessoas do deserto) é uma narrativa que associa mudanças meteorológicas à comunidade de supostos sentimentos entre humanos e vegetais – tornando essa correspondência de interpretação universalmente verdadeira. O encantado é sempre uma associação entre o natural e o social, entre o sujeito e o objeto, entre o vivente e o extraordinário. E a associação narrativa é sempre feita de coincidências crescentes e repetidos. A narrativa cria o encantamento, em uma história de origem, mas o encanto pode se multiplicar em outras narrativas.
Para Michael Taussig (1993) e Bruno Latour (2002), antropólogos contemporâneos leitores de Pietz, apesar da feitiçaria e do fetichismo terem sido descritos como parte das tradições pré-modernas em oposição à objetividade científica, na verdade, a objetividade da cultura moderna ocidental também é, em última instância, mágica e fetichista. A modernidade é um encantamento macabro de identidade: a ilusão do observador externo.
Durante a modernidade (esta imagem objetiva e coisificada que fazemos de nós mesmos), fomos prisioneiros da própria ilusão, forçados a sobreviver em mundo violento e sem sentido, jogados em um universo frio e sem alma, não passamos, aos olhos da ciência objetiva, de mamíferos tecno degenerados da crosta orgânica de uma bola de pedra girando em torno de uma bola de fogo.
Por outro lado, também não se pode retroceder, considerar os astros como são deuses e recolocar o observador como sujeito no centro do universo, como se fez antes da modernidade. É preciso perceber que universo é vibracional, constituído de energia e de relações entre diferentes estados de ser. Não há um único universo objetivo, mas vários universos virtuais (microcósmico, astrofísico, subatômico, etc).
E, apesar da ciência contemporânea (a mecânica quântica, por exemplo) não ter mais objetos, ainda vivemos no mundo fetichista das coisas e não no universo reencantado das relações entre energias.
E o que os feiticeiros pensam?
Para Carlos Castaneda/don Juan Mathus, a Feitiçaria pode ser definida como a “arte de acumular e redistribuir energia com o propósito de escapar à segunda morte”. A “antiga arte” seria um sistema mágico-cognitivo meta religioso, cético de todas as crenças, pragmático em relação à experiência empírica na mudança dos estados de percepção e terminantemente avesso a transcendências metafísicas ou representações das divindades. A feitiçaria nessa definição é o oposto complementar do fetichismo, responsável pela organização do mundo ordinário e ilusório das coisas, sob o qual se percebe o reino das energias. Os fetiches (e a ilusão de que o mundo é formado por objetos) seriam formas de aprisionamento da atenção (e da energia) das pessoas para alguns aspectos da realidade em detrimentos de outros.
Para don Miguel Ruiz (2005), há dois sonhos coletivos em desenvolvimento: o sonho que chamamos de realidade – “o tonal, a primeira atenção ou sonho do inferno” – e o sonho dos guerreiros, um sonho alternativo de realidade - “o nagual, o sonho da segunda atenção”[3]. Para Ruiz, o sistema de crenças é uma estrutura parasita de energia. Sonhamos um sonho coletivo que nos aliena da vida e nos mantêm em uma realidade virtual, uma ‘Matrix’ formada por nossas crenças e valores.
Enquanto Ruiz gnóstico sonha em salvar a terra e a humanidade, Castaneda intenta antes salvar-se do destino da humanidade de ser absorvido pela terra.
Ruiz entende a tarefa do xamã em uma dimensão social: o sonho coletivo do medo só poderá ser transformado com grande número de sonhadores que desejem a liberdade pessoal. Ruiz acredita poder romper com o sonho social de medo tecendo um novo sonho. Segundo ele, é libertar nosso sonho pessoal do sonho coletivo do medo de exclusão, do sonho de domesticação social engendrado pela sociedade; e, em conjunto com outros sonhadores conscientes, transformar esse sonho social de destruição planetária, induzindo toda humanidade a um salto quântico evolutivo.
Para Castaneda, o tonal é uma ilha (ou bolha da percepção) e o nagual a um oceano-universo que o engloba: o mar escuro da consciência. A vida orgânica (o tonal) é uma gota em um universo inorgânico. A tarefa do feiticeiro é sair individualmente do seu ovo tonal e viver em um universo nagual.
Antes a palavra fetiche resgatava a dignidade dos cultos africanos diante das acusações da Inquisição de feitiços. Hoje, a feitiçaria tornou-se libertária e deseja desencantar a modernidade fetichista. Confirma-se assim o dito que sempre os feitiços se voltam contra os feiticeiros.



Referências Bibliográficas
BENJAMIM, Walter. A obra de arte na época de sua reprodutividade técnica. Obras Escolhidas (trad. S.P. Rouanet). São Paulo: Brasiliense, 1985.
DEBORD, G. Sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2000.
FETICHE. In: FERREIRA, A.B. H. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p. 623.
LATOUR, Bruno. Reflexão sobre o culto moderno dos deuses fe(i)tiches. Florianópolis: Editora Edusc, 2002.
MOORE, Alan. The Mindscape of Alan Moore. Directed by DeZ Vylenz, Starring Alan Moore. Music by Drew Richards; RZA Distributed by Shadowsnake Films Release dates October 24, 2003 (San Francisco World Film Festival). Language English.
PEREZ, Clotilde. Mascotes Semiótica da vida Imaginária. São Paulo: Cengage Learning. 2010: 144.
PIRES, Rogério Brittes Wanderley. O Conceito Antropológico de Fetiche: Objetos Africanos, Olhares Europeus. Dissertação (mestrado) – Orientador: Márcio Goldman. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social – Museu Nacional, 2009- Rio de Janeiro, PPGAS-MN/UFRJ, 2009.
SANSI, Roger. Feitiço e fetiche no Atlântico moderno. Revista de Antropologia, São Paulo, v. 51, n. 1, p. 123-153, jan. 2008. ISSN 1678-9857. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/ra/article/view/27303>. Acesso em: 15 dec. 2017. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0034-77012008000100005.
TAUSSIG, Michael - Xamanismo, colonialismo e o homem selvagem - Um Estudo Sobre o Terror e a Cera. Paz e Terra, 1993.
THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis: Vozes, 1998.
RUIZ, Miguel. Os Quatro compromissos. Rio de Janeiro: Best Seller, 2005.


[1] Professor-pesquisador do Programa de Pós Graduação em Estudos da Mídia da UFRN.
[2] A Obra de Arte na era de sua reprodutividade técnica (1983, 5-28) Benjamin ressalta o impacto que a produção em série de objetos pela indústria teve sobre a percepção. A obra de arte era única no tempo e no espaço e isso lhe conferia uma áurea, uma presença sagrada. Hoje praticamente tudo é reproduzido de modo idêntico.  A arte, então, deixou de ser sagrada, 'objeto de culto' para se tornar expressiva dos sentimentos e crítica da injustiça social.
[3] Os conceitos de Tonal e Nagual representam campos perceptivos opostos e complementares, em que o primeiro é nossa percepção ordinária (sensorial-mental) do mundo como algo formado por objetos concretos e coisas sólidas; e o último é a percepção de que estamos em um universo de relações, em que tudo é feito de energia em diferentes níveis de organização e de adaptação.