segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

leis da comunicação no mundo

ANEXO 2: REGULAÇÃO E REGULAMENTAÇÃO DA MÍDIA PELO MUNDO1

'Regulação' é o nome dado ao processo de mediação entre mercado, estado e público consumidor através de uma agência governamental; e 'regulamentação' se refere a criação de leis, normas e regras para princípios e práticas já ordenados pela Constituição e pela legislação federal.


Na França, o princípio da regulação foi formalmente reconhecido por lei em 1982, com a criação da Alta Autoridade da Comunicação Audiovisual, depois transformada em Comissão Nacional da Comunicação e das Liberdades. A criação da CNCL acontece em 1986, com a definição do marco regulatório que, a partir daquele momento, orientaria a operação das emissoras públicas e privadas.

O objetivo desse marco, além da proteção e promoção da cultura nacional, é garantir a liberdade expressão com os demais direitos fundamentais, e da liberdade econômica com o pluralismo da mídia - exemplo disso é o fato de que nenhum grupo pode controlar mais de 30% da mídia impressa diária.

Além da lei de 1986, outros instrumentos normativos franceses autorizam a restrição da liberdade de expressão para proteção de direitos fundamentais, como a lei de combate ao racismo e xenofobia; a lei da reforma do processo penal, que trata da presunção de inocência; a de proteção aos direitos individuais, que inclui a privacidade; e leis de restrição à pornografia para a proteção de crianças.

Em 1989, a regulação ganhou novos poderes e passou às mãos do Conselho Superior do Audiovisual, e fiscaliza a manutenção da diversidade da cultura francesa, além de monitorar o cumprimento de obrigações pela mídia como a função educativa e a proteção aos direitos autorais. O CSA também conta diretores para os canais públicos e outorga licenças para o setor privado.


Em Portugal, a Agência Reguladora de Comunicação Social (ERC), criada em 2005, emite relatórios periódicos, separando jornais e revistas privados dos canais de radiodifusão, que são metade públicos e metade concessões do Estado.

Além de ajudar a elaboração de políticas públicas para o setor, ela concede e fiscaliza concessões para audiovisual e telecomunicações, mas também regula jornais impressos, blogs e sites independentes. A Agência zela também pela não constituição de monopólios, oligopólios e pelo equilíbrio entre os sistemas público e privado.

A regulação do conteúdo visa promover pluralismo de vozes, isenção e transparência, além de proteger o público mais jovem e minorias contra conteúdos considerados ofensivos. Ao mesmo tempo, atende e dá encaminhamento a queixas vindas da população. Os conselheiros da ERC são indicados pelos congressistas e aprovados pelo Presidente da República.

O relatório da pluralidade política categoriza em positivo e negativo as notícias relacionadas ao governo e à oposição, buscando identificar possíveis prevalências e distorções temáticas.


A regulação da mídia nos Estados Unidos, ao contrário do que ocorre em diversos países europeus, é pautada por regras contidas em diversas legislações. O setor de audiovisual (além de internet e telefonia) é fiscalizado desde 1934 pela Federal Communications Commission (Comissão Federal de Comunicações), a FCC. A Comissão é composta por seis membros, escolhidos pelo Presidente da República e aprovados pelo Senado.

A regulação da FCC ocorre especialmente nas questões econômicas ligadas ao mercado. No caso do conteúdo, a Comissão apenas age em casos de abuso, já que existe o entendimento de que este deve ser regulado pela opinião pública. A legislação norte-americana garante a possibilidade de ações judiciais em casos de difamação por parte da mídia e obriga os canais de televisão a exibir, no mínimo, três horas por semana de programação educativa para crianças.

Um dos pontos centrais da regulação é o estímulo à competição. Há regras, por exemplo, no que diz respeito ao número de emissoras de rádio e TV de uma mesma empresa. O objetivo é controlar a audiência local para que não haja monopólio de determinado veículo.

Sob a mesma justificativa, também é proibida a chamada propriedade cruzada dos meios. Isso significa que uma mesma empresa não pode ser proprietária de um jornal e de uma emissora de TV ou de rádio na mesma cidade.


No dia 30 de outubro de 2013, a rainha Elizabeth II sancionou um sistema de regulação da mídia do Reino Unido, que tem como objetivo coibir abusos de revistas e jornais por meio de um órgão de fiscalização do governo. A discussão entrou em pauta após tabloides britânicos serem acusados de grampear telefones, de forma ilegal, para conseguir informações.

A agência reguladora pode aplicar multas, adotar medidas gerais para proteção do cidadão, além de poder obrigar jornais, revistas e sites com conteúdo jornalístico a publicar correções de matérias e pedidos de desculpas.

A adesão das empresas de mídia ao órgão é voluntária, mas a não adesão implica o risco de punições ainda maiores caso elas sejam enquadradas nas normas.

Além dessa lei, há outra regulação, mais antiga, para emissoras de TV e rádio, cuja fiscalização fica a cargo do Ofcom. Entre as atribuições do Ofcom estão garantir a pluralidade da programação de TVs e rádios, garantir que o público não seja exposto a material ofensivo, que as pessoas sejam protegidas em sua privacidade. No exercício de suas funções, o Ofcom leva em conta fatores como a concorrência de mercado e as diferentes necessidades e interesses de todas as pessoas que desejam utilizar o espectro eletromagnético.


A regulação da mídia na Argentina visa coibir os abusos na concentração e na conduta dos veículos de comunicação. A lei surgiu em meio à disputa entre o governo e os meios de comunicação de oposição, em especial o Clarín que, com a decisão, deveria abrir mão de mais da metade das suas cerca de 200 concessões de TV. A decisão obedeceu à Corte Suprema que declarou a constitucionalidade da Lei da Mídia, aprovada pelo Congresso em 2009 e encaminhada pelo governo de Cristina Kirchner.

A lei define regras para emissoras de rádio e TV, e propõe mecanismos destinados à promoção, descentralização, desconcentração e incentivo à competição dos meios de comunicação.

Exemplo disso ocorre nos canais abertos de TV, que devem emitir no mínimo 60% de produção nacional, 30% de produção própria que inclua noticiários locais e, no caso das TVs nas cidades com mais de um 1,5 milhão de habitantes, pelo menos 30% de produção local independente.

Dentre os pontos da lei que merecem destaque estão a criação da Autoridade Federal dos Serviços de Comunicação Audiovisual, órgão autárquico e descentralizado, que tem a função de aplicar, interpretar e fiscalizar o cumprimento da lei; a criação do Conselho Federal de Comunicação Audiovisual da defensoria pública de serviços de comunicação audiovisual, para atender reclamações e demandas populares diante dos meios de comunicação; o fato de que nenhum operador pode prestar serviços a mais de 35% da população do país. Além disso, quem possui um canal de televisão aberta não pode ser dono de uma empresa de TV a cabo na mesma localidade.

1 http://memoria.ebc.com.br/regulacaodamidia - com informações do Ipea.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

filmes brasileiros sobre história


Lamarca: 
https://www.youtube.com/watch?v=Wy1g8kRMD5Q

ARAGUAYA conspiração do silencio:
https://www.youtube.com/watch?v=SKagL2WmH-0

O Que É Isso, Companheiro?
https://youtu.be/ZIPn2I5-knA

Zuzu Angel:
https://www.youtube.com/watch?v=duCoCVG2tt8

O dia que durou 21 anos
https://youtu.be/ltawI64zBEo

O Ano em que meus Pais Saíram De Férias:
https://youtu.be/yplwrQIWgIw

Pra Frente, Brasil
https://youtu.be/d3M-ybJiBZQ

Cidadão Boilesen - Um dos Empresários que Financiou a Tortura no Brasil:
https://www.youtube.com/watch?v=yGxIA90xXeY

Documentário | João Goulart: Jango:
https://www.youtube.com/watch?v=1O4SZQZ-ikk

marighella - retrato falado do guerrilheiro
https://www.youtube.com/watch?v=4BP-OMjP08Q

Eles não Usam Black-tie:
https://www.youtube.com/watch?v=Uzl2K1bDRog

Ação entre Amigos
https://youtu.be/Qm6yxx6ycgU

Cabra Cega:
https://youtu.be/h8zRYbrwLFQ

Militares da Democracia: os militares que disseram NÃO:
https://www.youtube.com/watch?v=6hD8JIHbu3w

Osvaldão
https://m.youtube.com/watch?v=cZEMVK2VtKo&feature=share

Batismo de Sangue
https://youtu.be/YuwY9vkkAYw

Retratos de Identificação
https://youtu.be/7tmN6VMaP8o

Carlos Eugênio Paz (Clemente) - Depoimento completo
https://youtu.be/OEPCT8E9ArA

Chumbo Quente, a série sobre a Ditadura Militar no Brasil
https://youtu.be/UTuC0r4KZo0

Cúmplices? - A Volkswagen e a Ditadura Militar no Brasil
https://youtu.be/1iWmAmvNMNg

Janto- O filme
https://youtu.be/SaU6pIBv9f4

30 Anos de Anistia
https://youtu.be/IMAQJIIjue4

Carlos Marighella - Quem samba fica, quem não samba vai embora
https://youtu.be/KkFozCuVm1M

Advogados Contra a Ditadura
https://youtu.be/Vuyz-M6vRyE

Tempos de Resistência
https://youtu.be/J2MrSLoB6BI

Araguaia, Presente!
https://youtu.be/dEZS0OKl2eE

Guerrilha do Araguaia - As faces Ocultas da História
https://youtu.be/jJV8DrN8-uc

Brasil: O Relato de uma tortura 1971
https://youtu.be/CCmA80YgwDY

Caparaó
https://youtu.be/qGlbHfG8aGA

Memórias Femininas da Luta Contra a Ditadura Militar
https://youtu.be/YWtuhUsn5ao

1964 - Um golpe contra o Brasil
https://youtu.be/GhoI8FdFF6w

Barra 68 - Sem Perder a Ternura.
https://youtu.be/XgK50b7oUf8

(A.H.F.) Vladimir- 30 anos depois
https://youtu.be/pB8XCSwyOeU

Soldados do Araguaia
https://youtu.be/dg6UE6hFYzM

Se um de nós se cala
https://youtu.be/Uu-VzWN6m_I

Setenta
https://youtu.be/8lJ-_IaI2z4

Hércules 56
https://youtu.be/J3ZOtHwSc9Q

Verdade 12.528
https://youtu.be/7l9OJOGfOc0

Manhã Cinzenta
https://youtu.be/3p-ozsRH0xY

Em busca da verdade
https://youtu.be/BUiFjNBP77Y

Memória para uso Diário
https://youtu.be/Ys4781EYPBU

Que bom te ver viva
https://youtu.be/zqpybT37k9A

Vala comum
https://youtu.be/2AheyN37l8Q

Camponeses do Araguaia - a guerrilha vista por dentro
https://youtu.be/4q8hoZTrc30

Do Buriti a Pintada - Lamarca e Zequinha na Bahia

sábado, 5 de novembro de 2022

cinco aforismos sobre o poder

 

O PODER em aforismos curtos


Marcelo Bolshaw GOMES


#1 Brevíssima história do poder

Poder significa capacidade mas também dominação. Poder como dominação significa impor uma vontade à outra, mesmo que esse não a deseje. A vontade pode ser imposta pela força ou de forma legítima, pela autoridade. Max Weber (1992) distinguiu três formas de dominação legítimas: a dominação tradicional (a ação social motivada por valores), a dominação legal (a ação social orientada por objetivos e regras) e a dominação carismática (quando a ação social é orientada pela admiração à personalidade). Talcott Parson vai instituir a noção de 'autoridade' em oposição funcional a categoria de 'poder', enfatizando o lugar da estrutura social enquadrando a ação e seus conflitos em um novo patamar. Lebrun (1999) inverte essa oposição estrutural-funcionalista, ressaltando que é o poder histórico do estado (da soberania, do Leviatã de Hobbes) que configura a autoridade institucional.

É o poder que se legitima como autoridade ou é a posição social que confere o poder?

Anthony Giddens (1997) revisa esse debate entre os que acreditam que a dominação através da força e do medo antecede à autoridade (Platão, Maquiavel, Marx) e os contractualistas (Aristóteles, Rousseau) e neocontractualistas (Mauss, Lévi-Strauss, Bourdieu), que defendem a primazia da autoridade/capacidade (do vínculo social através da cooperação grupal) sobre o poder. E, para ele, ninguém ainda deu a última palavra e o debate está longe de acabar.

Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Quem dá ordens é quem tem poder, seja o poder de dominação ou de capacidade. Há um duplo sentido no ditado. O primeiro é poder-capacidade. Comanda quem é capaz de comandar, é comandado quem reconhece seus limites. Mas, há também o poder entendido como dominação: manda quem tem força para tal, quem for sensato se submete. Em ambas interpretações, a competência de ordenar é resultante do atributo de poder fazê-lo (pela força ou de forma legítima). O ditado nos mostra as duas faces do poder, ou pelo menos, as duas formas principais pelas quais ele é compreendido: a da imposição pela força e o da submissão voluntária.

E Antônio Gramsci (1982) transformou essa oposição entre o Poder e a Autoridade, inspirado na polaridade maquiavélica do Medo e do Amor, na contradição dialéctica entre Coerção e Consenso: obedecemos às instituições pela ilusão da ideologia e pela opressão da violência social. O poder teria um braço violento (o aparelho repressivo) e outro simbólico (formado por igrejas, escolas, meios de comunicação). Daí surgiram as ideias de um poder mais 'hard' e de um poder mais 'soft'.

#2 A subjetivação do poder

O poder microfísica de Michel Foucault não é propriedade de uma classe ou grupo social e não está centralizado no Estado. Ele não visa necessariamente a manutenção da exploração, é uma forma de vontade coletiva de todos sobre o corpo de cada um, composto por técnicas, táticas, disciplinas. O poder foucualtiano é uma estrutura perversa de comportamento que nos forma e machuca; não é uma forma de organização das instituições e/ou do estado de se fazerem obedecidos. O poder microfísico também não tem a dialética entre Coerção e Consenso, alternando amor e medo como imaginou Gramsci inspirado em Maquiavel.

Como explicou Deleuze (2005): o poder não pertence a nenhum grupo e não pode ser tomado; ele não é local nem global; não funciona ora por violência e ameaça, ora através do afeto e do elogio como dita a tradição maquiavélica; toda ideologia é coercitiva e todo ato de força é ideológico. Pode-se dizer que Deleuze faz uma leitura muito antimarxista de Foucault, mas, a verdade, é ele mostra uma nova forma de ver a imposição das vontades, o poder microfísico (FOUCAULT, 1982).

Outro erro frequente em relação a Foucault, é pensar que as relações de poder são discursivas. Não são. Elas estão inscritas nos discursos, mas residem além de toda linguagem, na correlação invisível de forças e vontades políticas. O biopoder não é performance ou atos da fala que possam ser analisados - como acredita Judith Butler (2013).

Passados algumas décadas, pode-se agora distinguir três momentos no pensamento de Foucault:

  • A fase da arqueologia do saberes científicos, jurídicos e clínicos, presente em seus primeiros livros (1961-1975);

  • A genealogia do poder microfísico (ou a passagem da punição cruel para a punição pedagógica), expresso nos livros Vigiar e punir (em 1975) e A vontade de saber (em 1976);

  • E, nos últimos anos de vida (1977-1984), a fase da estética da existência e da hermenêutica do sujeito, em que passa da concepção de ‘governo dos outros’ (ou biopoder) para a de ‘governo de si’ (ou ‘poder pastoral’ que cuida de cada um), em que ele repenlsa seus trabalhos anteriores à luz de uma visão mais ampla da subjetividade.

Tabela 1: Livros e projetos do percurso de Foucault

LIVROS (datas de publicação original)

PROJETOS

História da Loucura (1961)

As palavras e as coisas (1963)

O Nascimento da Clínica (1966)

ARQUEOLOGIA DO SABER (Formas x forças)

Vigiar e Punir (1975)

Vontade de Saber (1976)

Microfísica do Poder (coletânea brasileira, 1979)

GENEALOGIA DO PODER (ou o lado de fora)

A hermenêutica do sujeito (1982)

O Uso dos Prazeres (1984)

Cuidado de Si (1984)

ESTÉTICA DA EXISTÊNCIA (ou lado de dentro)

Fonte: elaborado pelo autor

Em seus primeiros trabalhos, Foucault irá se definir pelo método arqueológico e estudará prioritariamente o ‘saber’. Entretanto, este saber será sempre um duplo de uma determinada correlação de forças. Daí o primado do ‘dizer’ sobre o ‘ver’, dos enunciados sobre as formas não-discursivas, uma vez que a linguagem tem um sentido e este sentido é politicamente imposto.

Assim, para desvendar o verdadeiro sentido deste saber duplicado seria necessário construir uma genealogia do poder. Este projeto foi iniciado em Vigiar e Punir (2009). As instituições carcerárias e o direito penal são o pano de fundo para a construção de uma analítica do poder. Tratava-se então da ‘emissão e distribuição de singularidades, dos vetores não estratificados que agem através do saber, vindos do lado de fora’. Já na conclusão de A Vontade de Saber (1982), o manicômio, a clínica, o presídio e toda arqueologia descontínua das instituições explica ao mudança na forma através do qual o poder se exerce: do poder baseado na morte e na punição exemplar para o poder das punições simbólicas e administrativas.

A cumplicidade involuntária de Foucault com o poder foi denunciada impiedosamente por Jean Baudrilard (1986). Para ele, ao descrever o poder englobando as resistências, Foucault teria anulado qualquer possibilidade de mudança estrutural da sociedade. Outros consideraram que Foucault ‘regrediu ao estruturalismo’, elaborando uma analítica do poder como um formalismo atemporal duplamente sem sujeito: sem agentes nem intérpretes.

Em seus últimos livros, mesmo sem responder diretamente às críticas, Foucault adota uma mudança importante: o ressurgimento da subjetividade, do ‘lado de dentro’, não como uma entidade consciente, mas como uma auto referência diante do poder e dos seus duplos, os discursos. Foucault agora estuda “o modo como um ser humano se transforma em sujeito”. Sujeito, tanto no sentido de ‘submetido a outro por controle e dependência’, quanto no sentido vi de ‘consciência, identidade de si’.

E é para escrever uma história do sujeito que Foucault irá detalhar esses confrontos de resistência entre as pessoas e essa ‘racionalização excessiva’ da sociedade. O Uso dos Prazeres (1984) e O Cuidado de Si (1985) são os livros principais dessa última etapa, em que não se estuda mais os discursos ou as relações de poder, mas a procura de um ‘lado de dentro’, do controle de si. Deleuze sustentará que o ‘Si’ no final da História da Sexualidade não é um retorno ao sujeito antropocêntrico do conhecimento assassinado em As Palavras e as Coisas, mas sim uma evolução ‘para dentro’, uma ‘dobra’ que amplia ainda mais o campo de investigação foucaultiana da crítica política para construção da subjetividade.

O importante aqui é ressaltar que o saber, o poder e sujeito não são simplesmente fases temáticas do pensamento de Foucault, mas também três níveis de abordagem (o sujeito do lado de dentro, a mediação da linguagem e a correlação de forças externas) e que o poder em Foucault não é um objeto em si, são relações de podem que transcendem a organização institucional; são imanentes aos discursos; formadas na luta invisível entre as vontades de poder.

A princípio, Foucault imaginou identificar as origens desse poder ‘da razão perversa’ na história das instituições e práticas sociais dos últimos trezentos anos da Europa, mas já no final da vida ampliou sua pesquisa até os gregos e a passagem do ‘governo dos outros’ (ou biopoder) para o ‘governo de si’ (ou poder pastoral). E é essa transição que ele procura compreender: de uma política imposta pela força da violência para uma política auto impositiva, de um poder físico para um poder mental.

#3 Psicopoder

O poder pastoral é aquele que prefere o consenso à coerção? Não ou em parte. Observando as mudanças históricas qualitativas no sistema de punições e castigos, segundo Foucault e Deleuze, pode-se esbouçar o seguinte quadro:

Tabela 2 – Sistemas de punição segundo Foucault e Deleuze

SOCIEDADE

PODER

Sociedades de soberania

Poder do estado como extensão do corpo do rei

Sociedades disciplinares

Poder a partir do confinamento e duração

Sociedades de controle

Poder baseado na moratória ilimitada

Fonte: elaborado pelo autor

O presídio, a escola, o exército, o hospital, a fábrica nascem junto com o adestramento individualizado dos corpos. O regime da disciplina é baseado no ‘Panóptico’, um olhar central supervisionando compartimentos paralelos de confinamento. Este é tema de Vigiar e Punir e da Vontade do Saber: a passagem de um sistema de punição baseado no suplício público para um sistema mais eficaz e pretensamente humanista, o encarceramento em massa. Foucault estuda e a passagem da sociedade de soberania (em que o poder se fundava no suplício e na morte exemplar) para sociedade disciplinar das instituições.

O poder disciplinar das instituições de confinamento não é menos violento que o poder das punições exemplares, da escravidão e da pena de morte, anteriores ao encarceramento em massa. Ele é apenas mais eficaz! O mesmo serve para o controle em redes à céu aberto e o dispositivo da moratória ilimitada, substituta laica da culpa cristã. Eles apenas atualizam os métodos de sujeição instituídos pelo poder através da história da sexualidade (1988, 1984, 1985). O que se vê é a progressiva subjetivação do poder e não seu abrandamento.

Deleuze (1998, 219) partindo dos estudos de Foucault sobre as mudanças no sistema de punição, prevê o fim do regime disciplinar das instituições de confinamento e sua substituição por novos dispositivos de controle em redes a céu aberto. Para Deleuze, um novo regime, o da moratória ilimitada, está gerando um novo estatuto de responsabilidade social e um poder, mais subliminar que a disciplina: o controle contínuo, simultâneo e descentralizado a partir de um sistema numérico de cifras e senhas. Neste novo regime de moratória ilimitada, formação e trabalho são ininterruptos; a escola e a empresa ficam dentro de casa; a produção de subjetividade – tida secundária em relação à produção de bens materiais – se torna a principal atividade econômica da sociedade; as redes digitais desempenhando um papel estruturante no cotidiano.

Deleuze não considera a sociedade de controle globalizado melhor que as antigas sociedades disciplinares. Embora haja avanços: o atendimento médico domiciliar deve ser melhor que o hospital, os serviços comunitários para delitos leves devem ser melhores que o encarceramento em massa, a microempresa e a participação nos lucros são melhores que a fábrica e o salário. Para ele, no entanto, o importante é descobrir formas de resistência a este novo poder. O poder disciplinar e de controle representam uma nova conduta de poder, que, diferentemente da conduta do biopoder não se baseia apenas na força ou da ação coletiva sobre os corpos, mas também na admoestação individual das almas e da subjetividade pelo espírito de rebanho e das redes sociais. O novo poder não abre mão do direito ao uso da força mas defende agora expedientes mais ideológicos e complexos. O medo imediato da morte, o medo do inferno no pós vida e o medo de não ser aceito foram sobrepostos. As relações de poder (em conjunto com as práticas de exploração e de produção de sentido) transformam indivíduos em sujeitos, seja submetendo-os e subjugando-os a uma falsa imagem de deles próprios, seja despertando a consciência de sua real situação. Porém, isso não significa que o poder tenha se tornado mais 'soft' – como pensa Han (2015) na Sociedade da preguiça. O poder torna-se cada vez pior.

Assim, resumindo: concordo com Deleuze, discordo de Butler e acho Han exagerado em sua interpretação humanista da evolução dos meios de punição.

#4 O poder como o vejo

Em nossa perspectiva, o poder é um dispositivo formado por três práticas políticas: a manipulação, a submissão e contestação. Após estudar os padrões de relacionamento de vários grupos de animais (mamíferos, répteis, insetos, etc), Kurt Lewin (1989) observou que três atitudes recorrentes, três comportamentos biológicos possíveis no interior dos rebanhos de diferentes espécies: se identificar com o poder (dominação), ser contra o poder (contestação) e aceitar o poder como algo fora de si (submissão).

Em Um mapa, uma bússola (GOMES, 2000), esses três papéis – de identificação, contestação e submissão – passaram a ser designados por três agentes: pastor, lobo e ovelhas.

Os lobos são os que não aceitam ser usados ou usar os outros, os que recusam as relações de dominação e entendem o poder como capacidade e potência.

[...] As ovelhas trocam afeto por manipulação. São elas que dominam o pastor, mas, dissimuladas, fingem que é ele que as domina. Elas usam enquanto fingem ser usadas e só desejam se divertir. Transformam tudo em espetáculo e em divertimento.

[...] Os pastores são os que se identificam com o poder. Embora se considerem protetores das ovelhas, são escravizados pela bajulação do rebanho e usados como espantalhos contra a liberdade dos lobos (GOMES, 2000, 93).

É claro que esses papéis foram transformados de diferentes modos pelos homens e por outras espécies. Não existem 'lobos' nas sociedades das abelhas, das formigas e de outros insetos gregários; não há 'ovelhas' entre os répteis; os peixes não têm 'pastores'.

No ensaio Em conflito - conhecimento e confrontação (GOMES, 2013, 06) essa associação foi ampliada: o Pastor é o macho-alfa, gerente do capital do grupo, a Dádiva; o Lobo expressa o inconsciente grupal, a Dívida; e as ovelhas representam o povo, sempre garantindo a estabilidade do rebanho.

Assim, um grupo é (mais e menos que) a soma dos seus componentes. O trabalho coletivo é mais que a soma dos trabalhos individuais gerando um excedente, o resto que sobra do todo menos as partes (o Capital, que passaremos a chamar de 'Dádiva'). Porém, o grupo também é menos que a soma das suas partes e recalca as qualidades de seus componentes. A esse déficit inibido das partes através do todo, chamamos 'Dívida' (ou Inconsciente). A disputa política pelo excedente simbólico do grupo e o recalque da energia psíquica é que torna nosso vínculo social tão violento.

(...) À luz das noções de Dádiva e Dívida, no entanto, observa-se que os pastores representam o capital do grupo, enquanto, os lobos expressam seu Inconsciente.

Acrescenta-se, assim, os três papéis biológicos vistos como prática sociais (dominação, contestação e submissão) ao esquema de poder pastoral de Foucault. Ou seja: o poder originariamente é um dispositivo grupal arcaico e não um fenômeno social oriundo dos conflitos entre o estado e as instituições.

A maioria das pessoas tem, na maioria das vezes, uma atitude de conformidade e submissão ao poder. Muitas nem percebem que têm. Ser contra o poder geralmente é mentira porque dá trabalho e exige superar muita rejeição. E mais fácil se render. Ou se tornar uma ovelha negra ou um cão pastor.

Nessa perspectiva: o poder pastoral é aquele exercido pelas ovelhas sob o pastor e não o contrário (BAUDRILARD, 1985). Quando pastamos, somos um rebanho de ovelhas, somos a cultura de massa, inércia opaca que absorve toda energia em uma imobilidade indiferenciada. É a 'massa' que domina a vanguarda e não as elites que comandam as multidões. Essa inversão, de que são os dominados que dominam os dominadores, é um viés nietzschiano dos pós-modernos em relação ao poder.

Os estudos sobre violência também lançam luz sobre o tema do poder, consistindo em uma contribuição importante. Galtung (1990), por exemplo, distingue três dimensões para pensar a violência: a direta (nível: evento; fenômeno: agressão), a cultural (nível: linguagem; fenômeno: legitimação) e a estrutural (nível: processo; fenômeno: dominação).

A violência direta é composta por homicídios, roubos, sequestros, estupros, tortura e atos criminosos em geral. A violência cultural é formada pelo machismo, pelo nacionalismo, pelo elitismo, entre outras formas de identidade exclusivas e exclusoras. E a violência estrutural é organizada a partir da privação de acessos às necessidades, da marginalização urbana periférica, da discriminação racial, da exclusão social e de gênero. Essas três dimensões interagem entre si e se retroalimentam, gerando um esquema chamado ͚triângulo da violência. Nesse modelo, a violência direta é visível; a violência cultural é discursiva e visual; e a violência estrutural é invisível e corresponde ao que chamamos de relações de poder. O poder se manifesta através da violência cultural e direta.

#5 O poder positivo

Lebrun, Foucault e Han gostariam de mostrar o lado positivo do poder – visto por (quase) todo mundo como opressão das vontades livres. Para Lebrun, o poder é necessário à soberania (e também à autonomia harmônica dos indivíduos). É um argumento hobbesiano. Para Foucault, é a proibição quem produz a delinquência; e são relações de poder quem produzem a disciplina e a sua transgressão. O poder, com suas restrições e encantos, engendra a liberdade, a capacidade de superar esses impedimentos objetivos e ilusões subjetivas. A função desse poder invisível (visto apenas através de seus desvios: o infrator, o louco, o deliquente) seria domar os instintos e sublimar os desejos. O poder seria assim um projeto de desanimalizar a humanidade através do autocontrole.

Byung-Chul Han (2019) aposta na confusão. Para ele, há um 'caos teórico' em torno do conceito de poder. O poder tanto é associado à opressão e ao arbítrio quanto ao exercício do direito e da liberdade. Han considera que o poder é uma relação contínua entre o Eu e o Outro, em uma rede de sujeitos dependentes entre si. Han afirma que o poder é um fenômeno demasiadamente complexo que “só existe numa relação de continuidade e de mediação entre o Ego e o Alter, que ambos devem transformar o Não em Sim”. Neste caso, o poder consiste na capacidade que o Ego tem, de prolongar a sua própria vontade em vontade dos outros, fazendo com que o poder seja concebido como “liberdade de carácter comunicativo”. Poder é conseguir que digam sim e também dizer sim a demanda alheia.

Mas, quando crianças, aprendemos a obedecer ao poder através de 'não's aos nossos desejos. Depois, na adolescência, aprendemos a ser lobos e a resistir ao poder através de 'não's. Com a maturidade, nos tornarmos rebanho e dizemos sim a tudo que não nos ameace. O regime das ovelhas é aquele em que 'os Outros dominam cada Eu'. Ele parece ser democrático e pacífico, mas é tão violento quanto a ditadura dos pastores e do terrorismo dos lobos.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUDRILARD, J. Esquecer Foucault. Rio de Janeiro, Rocco, 1988.

_____ À sombra das maiorias silenciosas - O fim do social e o surgimento das massas. Tradução: Suely Bastos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.

BOBBIO, Norberto. O futuro da Democracia. São Paulo: Paz e Terra, 2000a.

____Teoria Geral da Política. Brasília: Editora da UnB, 2000b.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão de identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Editora 34, l998.

___ Foucault. São Paulo: Brasilense, l985.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 36ª ed. Petrópolis: Vozes, 2009Cadernos de Esoterismo Contemporâneo

___ A vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1982.

___ As Palavras e as Coisas. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

___ O Uso dos Prazeres. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984.

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