segunda-feira, 12 de março de 2018

1994

Lula X FHC (1994)

               Em 1994, Lula se candidata pela segunda vez à Presidência. De janeiro a março, liderava as pesquisas. Em julho, logo que foi lançado o Plano Real, Fernando Henrique Cardoso, ex-ministro da Fazenda de Itamar, passou à frente, disparou e ganhou no primeiro turno. Brizola chama o Real de estelionato eleitoral, acusando FHC de lançar o pacote de estabilização da moeda para se eleger presidente. Lula permanece calado, nem defende nem critica o Plano Real, com medo de perder votos – fato que foi amplamente denunciado pelos outros candidatos. E FHC acaba vencendo a no 1º turno com 34.364.961 ou 54,27% dos votos válidos. Lula, favorito antes do plano econômico, somou apenas 17.122.127 votos (27,04%).
Resultado eleitoral em 1994
Presidenciáveis
Votos
Válidos (%)
FHC
34.364.961
54,27
Lula
17.122.127
27,04
Enéas
4.671.457
7,38
Orestes Quércia
2.772.121
4,38
Leonel Brizola
2.015.836
3,18
Esperidião Amin
1.739.894
2,75
Votos apurados
77.948.464
82,23 (sobre os apurados)
Votos brancos
7.192.116
9,2 (sobre os apurados)
Votos nulos
7.444.017
9,55 (sobre os apurados)
Votos válidos
63.312.331
81,22
Abstenções
16.834.339
17,76 (sobre 94.782.803 eleitores)
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE)


VÍDEOS




A ELEIÇÃO DE 1994
1.         Cenário de Representação da Política
Duas questões centrais marcaram o CR-P das eleições presidenciais de 1994: as mudanças restritivas na legislação eleitoral e o Plano Real. Tamanha foi a influência da mídia, principalmente da linguagem televisiva, dentro e fora do HGPE, nas eleições de 1989 que, em 1994, decidiu-se tomar providências para limitar essa influência. A lei 8.713/93, artigo 76, proíbe externas, efeitos especiais e participações de outros no discurso do candidato na TV. Tudo deveria ser feito em estúdio e os VT’s não poderiam ser editados, evitando montagens e trucagens - como no debate Lula x Collor, televisionado ao vivo tarde da noite e reapresentado de forma parcial pela Rede Globo e pelo próprio programa de Collor às vésperas do segundo turno de 1989.
Mas, as restrições impostas por esta legislação acabaram por prejudicar a estratégia de campanha de Lula para TV, que esperava poder utilizar os vídeos da Caravana da Cidadania, uma série de viagens pelo interior do país. Aliás, além de Lula, todas as campanhas (as próprias eleições) foram prejudicadas por essas restrições legais aos efeitos da mídia nos processos eleitorais. Evidentemente, o fato foi tema de discussões entre os estudiosos. Para Miguel e Albuquerque, a audiência dos HGPE’s não diminuiu em 94, mas sim sua eficácia persuasiva. Em contrapartida, o papel da imprensa ganhou destaque.
No entanto, o fundamental passou despercebido pelos analistas do cenário político: a segmentação da agenda. Não só pelas restrições legais ao uso da linguagem televisiva no HGPE e na valorização do papel da imprensa, sobretudo a escrita, mas, principalmente, através do advento da TV por assinatura; houve uma diferenciação da audiência mais sofisticada em relação às classes C e D. A segmentação da audiência e a criação de duas agendas (uma de elite e outra de massas), no entanto, tem consequências sociais e políticas, profundas, na sociedade brasileira e a eleição de Fernando Henrique contra Lula, após o fracasso do governo Collor, está certamente entre uma das mais importantes. A dupla agenda beneficia diretamente FHC porque ele articula as elites e se vende como elite para as massas, deixando o candidato do PT identificado com a falta de perspectiva das classes mais pobres. Repete-se assim, a estratégia de Collor, mas de forma ainda mais sofisticada.
Também teve razoável importância o Caso Ricupero. No dia 1º de setembro, antenas parabólicas de todo o país captaram uma conversa em off entre Ministro da Fazenda Ricupero e o jornalista Carlos Monfort, da TV Globo. O ministro dizia ao jornalista que tanto ele quanto a Globo estavam ajudando a eleger Cardoso. Apesar da oposição ter insistido na denúncia, o efeito do escândalo nas pesquisas de intenção de voto foi insignificantemente pequeno. FHC usou como estratégia desconsiderar a denúncia e deu pouco destaque ao assunto, estratégia que surtiu bons resultados, uma vez que, apesar do episódio e das denúncias do PT no horário eleitoral, ele não caiu nas pesquisas de opinião.
O fato das eleições presidenciais serem casadas com as eleições gerais em 1994, eleições majoritárias para os governos de Estado e eleições proporcionais para o Congresso Nacional - apenas um 1/3 do Senado Federal não foi renovado - teve várias consequências e distingue-se bastante das eleições presidenciais de 1989. Houve apenas nove candidatos à presidência da República, e destes, Flavio Rocha, do PL, desistiu em plena campanha, vítima de denúncias de corrupção eleitoral, e Walter Queiroz, candidato do PRN, foi substituído durante a campanha por Carlos Gomes. Os partidos, que pouca ou nenhuma influência tiveram na eleição anterior, passaram a desempenhar um papel importante tanto do ponto de vista da mobilização, como no plano das ideias. Foi proposto um sistema de controle de contribuição para campanhas.
Outra diferença significativa, com várias consequências para o CR-P eleitoral de 94, foi a bipolarização precoce entre Lula e FHC. Enquanto em 89, Collor se apresentava como oposição ao governo Sarney; em 94 todo o governo Itamar Franco apoiava (de várias formas) a candidatura do ex-Ministro da Fazenda e do Itamarati para a sucessão. Na verdade, FHC foi ‘pré-eleito’ pelas elites para ser seu candidato contra Lula. Compreendendo estas diferenças, o PT, por sua vez, também foi bem mais moderado, do que em 89.
O impeachment do presidente Collor e o plebiscito em que o presidencialismo foi mais uma vez escolhido como forma de governo do país também tiveram grande influência na constituição desse cenário. Agora, além da grande rejeição à política e aos políticos, havia também uma grande rejeição aos comportamentos messiânicos aparentemente apolíticos (como os de Collor) e ao uso exagerado de técnicas midiáticas. O próprio perfil de FHC (sociólogo crítico ao personalismo na política brasileira e defensor dos partidos como atores da democracia) parecia se moldar melhor a este CR-P do que o de um novo salvador da pátria.
2.         Horário eleitoral
A campanha de Fernando Henrique Cardoso contou com um tempo maior e com mais recursos do que as demais, resultando em um material tecnicamente mais elaborado sob vários pontos de vista, com mais jingles e clipes, filmada em película de 35 mm com melhor definição de imagens, mas, sobretudo, com sofisticado planejamento conceitual de marketing. O simbolismo da mão aberta (inspirada em Tancredo Neves), combinada com as cinco metas (agricultura, segurança, saúde, educação e emprego - copiados de JK) teve um significado simbólico marcante e foi utilizado em diferentes momentos da campanha e da propaganda eleitoral. Como a comparação entre uma queda de braços e um aperto de mão (16/9) ou ainda a analogia entre um comício de punhos cerrados e uma multidão acenando as mãos abertas (19/9), para perguntar que tipo de governo o eleitor deseja.
Outro conceito importante da campanha, utilizado no jingle principal e no discurso político, foi o slogan Gente em primeiro lugar. Inicialmente, a ideia tentava apenas desfazer a imagem de tecnocrata insensível do ex-ministro da Fazenda de Itamar Franco, mas no decorrer da campanha se tornou um diferencial importante do candidato, que afirmava se importar mais com as pessoas, do que com as instituições.
Também nessa linha da humanização de FHC foi dada muita ênfase às qualidades pessoais do candidato, apresentado, no jingle, como firme, honesto e competente. Durante toda a campanha, foi exibido o vídeo da balança, no qual se dizia que os políticos brasileiros, até o momento, ou não eram confiáveis (mas sabiam realizar obras); então, na imagem, um dos lados da balança pesava mais - ou eram bem intencionados (mas não eram capazes); então o outro lado predominava. Só FHC era honesto e competente, sendo representado pelo equilíbrio dos lados da balança. Mas, o grande trunfo eleitoral de FHC foi o Plano Real – como se detalha adiante.
Com o segundo maior tempo, Orestes Quércia, o candidato do PMDB (ou de parte dele) começou bem sua participação no horário eleitoral, apresentando seu programa de governo de forma serena e consistente e dando como principal garantia seu produtivo desempenho à frente do Governo do Estado de São Paulo. Um verdadeiro show de obras públicas e programas. Além de propostas municipalistas e desenvolvimentistas (com ênfase no crescimento econômico e na geração de empregos), pensando o município como principal parceiro do governo federal nas áreas de saúde, educação e habitação, Quércia defendeu a ideia da constituição de 90 Regiões de Desenvolvimento (REDES), subdividindo os estados brasileiros em áreas de diferentes vocações econômicas e situações socioculturais.
Mas, além, de não explicar direito de onde viriam os recursos, Quércia também não disse que deixou o Estado de São Paulo completamente quebrado:
Quando cheguei no governo de São Paulo também disseram que não havia recursos e, mesmo assim, consegui fazer significativas obras para melhoria da vida da população. (Fita DOXA-IUPERJ, 94/05, 25:11)
O candidato apresentou um lado ainda mais anacrônico, defendendo o controle da inflação através de tabelamento dos preços e a reindexação da economia com um reajuste universal e linear de 12% para todos os trabalhadores, pensionistas e aposentados. Para Quércia, o reajuste não seria inflacionário porque ele impediria os preços de subirem na marra, colocando na cadeia os especuladores. O candidato do PMDB também defendeu o presidencialismo e o fato de seu partido ser maioria do Congresso de uma forma polêmica ao afirmar que todos os planos econômicos haviam fracassado por falta de um governo forte. No fim da campanha, Quércia se tornava cada vez mais unilateral e repetitivo tentando polemizar com FHC.
Outra participação interessante e construtiva no horário eleitoral foi realizada pelo ex-governador Espiridião Amim, candidato malufista à presidência. Fazendo uma oposição de direita ancorada em valores progressistas (juventude, afetividade, dinamismo, etc), Amim fez uma campanha de ideias, com destaque para a sua proposta (então pioneira) de investir no Turismo como ferramenta de desenvolvimento das Regiões Norte e Nordeste. Isto não o impediu de fazer praticamente as mesmas críticas que o PT ao governo federal, porém em um tom menos contundente: o aumento da mortalidade infantil, resultante da queda dos investimentos em saúde; o caso Ricupero; o atraso no financiamento agrícola e os artifícios em torno dos índices inflacionários. Também foram bastante significativas suas colocações sobre as pesquisas de opinião e sua argumentação tentando convencer os eleitores conservadores da possibilidade em ir para o 2º turno.
Em relação às pesquisas de opinião, Amim afirma que elas não podem substituir as eleições e o voto, antecipando seu resultado; e, em relação aos seus adversários, argumenta, ainda, contra o voto útil, provado pelo medo de uma vitória do candidato de esquerda. Não vote (em FHC) contra (Lula) no primeiro turno; vote em seu candidato (Amim) e deixe para votar contra (Lula) no segundo turno. Para ele, o primeiro turno é ideológico; o segundo, político. (19/8)
Por suas próprias palavras “o único candidato contra o Plano Real e contra a Rede Globo” (Fita DOXA-IUPERJ, 94/02, 45:15), a participação do ex-governador Leonel Brizola no horário eleitoral foi marcada por críticas e ataques contundentes contra o governo. O Plano Real era, no seu entender, semelhante ao Plano Cruzado de Sarney, de caráter meramente eleitoral. Para ele, terminadas as eleições, assegurados os interesses das elites, os preços voltariam a subir. No dia 28/8, Brizola usa o espaço do horário eleitoral para denunciar que a Rede Globo aumenta a violência do RJ e esconde a situação em outros estados, com o objetivo de desestabilizá-lo. No dia 21/9, o candidato reproduz entrevista do mesmo dia no telejornal Bom Dia Brasil da Rede Globo quando afirma que a TV incita a violência e manipula a eleição.
As redes de comunicação em conjunto com os institutos de pesquisa de opinião são uma gigantesca máquina de propaganda eleitoral fomentada e dirigida por grandes grupos econômicos [...] [os mesmo grupos] [...] que elegeram e apoiaram Collor, hoje querem eleger Fernando Henrique Cardoso (Fita DOXA-IUPERJ, 94/02, 12:15, dia 12/8).
Para Brizola, Lula estava programado para perder, pois “apesar de bem intencionado, é [era] incapaz de vencer FHC no segundo turno”. As eleições não passavam de uma monstruosa farsa orquestrada pela Rede Globo e pelas elites coloniais para enganar o povo e manter o modelo econômico imperialista, favorável aos bancos internacionais.
O marqueteiro americano desaconselhou o uso do tucano porque é muito brasileiro e não é que FHC tirou o bicho da campanha. (Fita DOXA-IUPERJ, 94/03, 25:17, dia 25/9)
Já a campanha de Luis Inácio Lula da Silva passou por vários sobressaltos. As acusações de falta de preparo e experiência voltaram a incomodar o candidato do PT, que chegou a pedir e conseguir direito de resposta contra Enéas (que afirmou que Lula não trabalhava e que poderia estudar, se quisesse) e falou do ‘preconceito do diploma’ em diversos momentos da campanha. Segundo o próprio candidato, o preconceito do diploma é um preconceito contra o povo, que o próprio povo tem consigo mesmo (12/9). Fica, então, bem explicado, o complexo de inferioridade em que o candidato se perdeu, com o assunto explorado por todos os outros candidatos, inclusive Brizola.
Outro ponto problemático do PT foi a sua posição ambígua em relação ao Real. A campanha começa com Lula explicando que não é contra o Plano Real. O próprio nome de seu programa (Brasil Real) parece explicitar que sua intenção é levar o princípio da realidade às suas últimas consequências, insinuando que seu adversário não apresentava toda a verdade a respeito do país.
Em 1989, disseram que ia confiscar a poupança, que a gente não tinha experiência para administrar. Agora estão dizendo que eu vou acabar com o Real. (Fita DOXA-IUPERJ, 94/02, 17:13)
Na verdade, Lula quer manter a estabilidade da moeda, mas também discutir o que é real. No dia 26/8, no entanto, Aloísio Mercadante fala que o Real é um plano eleitoreiro. Mas é só. Amim, Quércia e Brizola criticam tanto o Plano Real como essa ambiguidade do PT. Lula chega a manifestar que gostaria de dar continuidade ao Plano em seu governo, aperfeiçoando-o. (Fita DOXA-IUPERJ, 94/03, 35:09) E FHC fatura: “Agora todos apoiam o Real, mas antes foram contra”. (05/9) Em mais uma inversão irônica, ele não considera prudente colocar “a raposa para tomar conta dos ovos” (a imagem tinha sido utilizada originalmente pelo programa do PT) e até elogia (no dia 11/9) a “posição corajosa” de Brizola, por ter combatido o plano durante toda a campanha. Porém, além das acusações de falta de preparo e da ambiguidade em relação ao plano Real, de uma forma geral, pode-se dizer que a propaganda eleitoral do PT foi muito crítica e pouco propositiva, sendo neutralizada pela estratégia de FHC que enfatizava as soluções e não os problemas.
Na primeira quinzena de campanha (03 a 14/8), Lula compara seu adversário a um governante trancado em um palácio, “cercado de puxa-sacos, incapaz de conhecer a realidade do homem comum” que passa fome, enquanto ele é o candidato que foi o em pessoa; lá, em um município no interior do sertão nordestino e assumiu um compromisso olho-no-olho, com as reais necessidades do povo. Do ponto de vista propositivo, o PT lança a proposta de gerar oito milhões de empregos em quatro anos (indicando as fontes de financiamento de forma genérica), afirmando que vai apoiar a pequena e média empresa e assume o compromisso de realizar uma reforma agrária de verdade, uma vez que “não tem o rabo preso” com os latifundiários.
Grande parte do tempo é gasto com críticas ao governo e a FHC – principalmente com o aumento da mortalidade infantil provocada pela falta de investimento no setor de saúde durante o governo Itamar. FHC, por sua vez, reconhece que o “Brasil tem problemas, sim; mas nós temos a solução”. Rei dos trocadilhos e das inversões irônicas, o candidato do governo chega às raias da brincadeira: “Dizem que o Real é eleitoreiro. Não, não é não. Aliás, sou candidato para que as mudanças que comecei continuem”. (Fita DOXA-IUPERJ, 94/02, 56:06) Ele é o dono do futuro (“o futuro não é um salto no escuro, o futuro está perto, na palma da mão” – diz o jingle). Para firmar a imagem de um homem preocupado com as pessoas, FHC afirma que, ao contrário de todos os governos que até então deram mais importância aos ministros da fazenda, na sua administração as pastas mais importantes serão as da saúde, da educação e da agricultura.
Nesta linha, seu programa fala das três carteiras: a de trabalho (o emprego), a de dinheiro (a estabilidade da moeda) e a da escola; e defende o programa Toda criança na escola (semelhante ao programa petista nenhuma criança fora da escola). Também promete dobrar o salário mínimo de 70 para 140 reais. E, sempre que pode, FHC sugere: “Escolha um presidente do tamanho do Brasil”. 
Na segunda quinzena (15 a 30/8), o horário eleitoral começa com a repercussão do debate realizado pela TV Bandeirantes, em que a maioria dos candidatos criticou o governo Itamar Franco, com cada candidato tentando se apresentar como vitorioso e editando (com fotos e áudio) seus melhores momentos. Menos FHC. Para ele, o povo não quer bagunça, violência, conflitos.
Não é com raiva, com brigas, jogando patrão contra empregado, uma região contra outra, a cidade contra o campo, que vamos resolver os grandes problemas nacionais. (Fita DOXA-IUPERJ, 94/03, 28:15, dia 19/8)
No dia 26, Lula gastou todo seu tempo no último programa (3’45”) atacando o governo sem apresentar nenhuma proposta – fato imediatamente denunciado por FHC no dia 28, dentro da estratégia de combater críticas com propostas.
Enquanto isso, FHC continuava despejando uma avalanche de propostas para diferentes regiões brasileiras e áreas administrativas como segurança, agricultura, indústria, saúde - quatro promessas por minuto, segundo contou Aloísio Mercadante (12/8).
Quando se revê o programa de FHC no horário eleitoral de 1994 pergunta-se por que ele não levou a frente suas propostas, como por exemplo, a promessa de que o programa Comunidade Solidária substituiria a Campanha Contra a Fome. Na segurança, FHC enfatizava que crime organizado não devia ser combatido como resultado de desigualdades sociais. Prometeu a criação de uma Secretaria Nacional de Segurança Pública, a informatização integrada dos órgãos de segurança, aumentar o número de juízes e modernizar o judiciário, usar as forças armadas contra o narcotráfico. (17/8) No entanto, no governo FHC nada fez a respeito. Em outros momentos (26 e 28/8), FHC promete promover o crescimento econômico e prevê falta de energia elétrica e racionamento caso não haja investimentos e controle do desperdício.
Dois assuntos dominaram os programas da terceira quinzena (01 a 14/9) de campanha no horário eleitoral: a incontinência verbal do ministro Ricupero e a divulgação da inflação de agosto pelo IBGE e pela FIPE.
No dia 2 de setembro, depois de uma entrevista para um telejornal da Globo em canal aberto o então ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, fez uma série de comentários graves ao jornalista Carlos Monfort, que foram transmitidos pela Globonews, o canal fechado de notícias da emissora. Segundo Ricupero o governo federal estava realmente apoiando a candidatura de FHC: a) escondendo a inflação de agosto (“A gente não tem escrúpulos: o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”); e b) divulgando o Plano Real (“sou o maior eleitor do presidente”). (Fita DOXA-IUPERJ, 94/03, 45:09)
Além disso, ficava também patente o apoio da própria Rede Globo ao governo e à candidatura de FHC, com o próprio ministro se escalando para aparecer no programa Fantástico. Mas no domingo, dia 04/9, o que se viu foi a denúncia de todos os candidatos adversários. Amim reproduziu as manchetes dos principais jornais e revistas da impressa escrita. Lula apresentou uma edição gravada do próprio canal, com áudio e imagens originais (violando impunemente a legislação eleitoral). Brizola, triunfante, interpretou o fato como a prova de que suas denúncias contra o pacto entre o governo e a Rede Globo eram verdadeiras. Quércia lançou a campanha dos 12% JÁ – exigindo a reposição imediata da inflação dos dois primeiros meses do Plano Real de acordo com o IPCR. O episódio rendeu a demissão de Ricupero, mas não inviabilizou o processo eleitoral como queria Brizola. Nem a Rede Globo se pronunciou sobre o assunto.
No dia sete de setembro, dia da independência, Lula e Brizola lembraram que há dois anos os cara-pintadas iniciaram a campanha cívica do impeachment de Collor, sugerindo que a moralização da atividade política passava agora pelo repúdio às manobras midiáticas do governo e de seu candidato. O Brasil tem escrúpulos. O Brasil vota Lula – passou a ser o slogan veiculado pelo PT no HGPE. No mesmo dia saiu o índice da FIPE (1,95% de inflação em agosto), inferior ao IPCR (5,46%) do IBGE. A informação mostrava que a inflação estava realmente em queda e que, ao contrário do que afirmavam os adversários, a economia estava cada vez mais estável.
Reforçando esta ideia, FHC mostrou ainda declarações na imprensa de Roberto Freire e de D. Luciano Mendes, aliados de Lula, dizendo que o caso Ricupero não inviabiliza as eleições nem desabona o plano real. Na sexta, 09/9, Roberto Freire escreve carta repudiando o uso não autorizado de seu nome por FHC e reafirmando seu voto no PT. 
Lula fez ainda duas outras denúncias importantes no decorrer dos acontecimentos: a) o pacote agrícola para financiar a safra é uma farsa, na verdade, o dinheiro não havia sido liberado para não aumentar a inflação; (11/9) e b) o congelamento dos salários (14/9) e a greve de metalúrgicos no ABC, em que Vicentinho havia negociado uma saída através da redução dos impostos e não do achatamento salarial. Ainda pensando em termos de correção monetária indexada à economia, para o PT (e principalmente para Quércia), o Plano Real deixava livres os preços, as tarifas públicas, mas impedia que os salários fossem reajustados.
E enquanto Quércia insistia na sua estratégia dos ‘12% JÁ! para todos os trabalhadores, aposentados e pensionistas’ (contabilizando os IPCR’s de julho e agosto utilizados pelo próprio governo para medir a inflação); Lula afirmava ser possível diminuir impostos e crescer, gerando mais empregos sem achatar os salários, bastando para isto um redirecionamento das prioridades governamentais.
Na última quinzena (16 a 30/9) de campanha no horário eleitoral não houve maiores novidades: Brizola disse que "Lula quer agradar a todo mundo e até cortou a barba" (Fita DOXA-IUPERJ, 94/04, 12:15) (16/9) e denunciou, várias vezes, que não haveria debates porque FHC e a Globo não queriam; FHC, respondendo a críticas, falou de seu passado de esquerda (18/9) e que não mudou de lado “está onde sempre esteve, do lado do equilíbrio”; Lula continuou com a estratégia de tentar reacender a campanha cívica do impeachment de Collor contra FHC (23/9) e a reclamar do preconceito do diploma.
Também nesse período, tanto FHC como Lula apresentaram o apoio de vários artistas. Nesse ponto as pesquisas de opinião apontavam para uma vitória de Fernando Henrique ainda no 1º turno (45% de FHC contra 21% de Lula). O atraso proposital do financiamento agrícola para evitar aumento no cálculo da inflação do mês de agosto foi bastante explorado, tanto pelo PT, como por Amim e Quércia, sem nenhum sucesso.
Ao contrário: fazendo-se de vítima, FHC deitava e rolava com suas inversões irônicas: “Reta final de campanha, lá vem os boatos. Não vamos privatizar o BB, não vamos tirar o direito dos aposentados”. (26/9)
Lamentava-se ainda que o PT tinha [...]
[...] passado dos limites, atacando com mentiras, acusando FHC de racista. Eles estão desesperados e perderam a cabeça, usando as mesmas armas que Collor usou contra nós no 2o turno em 89. (Fita DOXA-IUPERJ, 94/03, 21:14, dia 28/9)
Também o episódio do depósito de Paulo Cezar Faria na conta de um assessor de Marco Maciel, para subornar os parlamentares do PFL durante o impeachment de Collor, foi amplamente denunciado. O PT foi forçado a ceder, no último programa da campanha, direito de resposta ao candidato à vice-presidente da chapa de FHC.


3.         Recepção
Evolução da intenção de voto nas pesquisas de opinião de 1994

Fonte: DATAFOLHA
Na pesquisa de opinião da DataFolha no início de março, Lula tinha 42% das intenções de voto, mais do que a soma dos outros três candidatos mais votados (16% de Fernando Henrique Cardoso, 8% de Brizola e 7% de Orestes Quércia). Então, o Plano Real é lançado e começa a queda de Lula e a subida de FHC. No fim de julho, há um empate técnico em que Lula tem uma pequena vantagem (32% contra 29%); em agosto, há a virada (FHC 45%, Lula 23%); no dia 30 de setembro, FHC chegava aos 48% das intenções de voto, enquanto Lula tinha 22%, Brizola 5% e Quércia 4%. A queda da inflação e a estabilidade econômica foram determinantes na vitória de Cardoso. O horário eleitoral não apresentou nenhum efeito sobre as tendências de subida de FHC e de queda dos outros candidatos nas pesquisas de opinião. Mas, vários estudos discutiram os HGPE’s e suas repercussões políticas.
Em A eleição presidencial de 1994 e os meios de comunicação de massa: uma análise da propaganda eleitoral gratuita de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva na televisão (JORGE, 1995) usa-se um modelo simplificado de leitura de HGPE’s com apenas três itens: Autopromoção, Propaganda Negativa e Tema Dominante. Para ele, na eleição de 94, o Plano Real foi o tema dominante, ou melhor, a garantia de estabilidade da economia é o fator decisivo das intenções de voto.
A política na TV: o horário eleitoral da eleição presidencial de 1994, (PORTO, GUAZINA, 1999), utilizando o modelo de leitura de HGPE’s a partir de seus “apelos”, aponta para o pessimismo crítico do PT, observando que enquanto “33% do tempo de FHC eram gastos no item de ‘políticas futuras’, 28% do tempo de Lula era gasto com ‘propaganda negativa’.”
Há, pelo menos, três trabalhos de referência obrigatória sobre o papel da mídia nas eleições de 1994: a coletânea Eleições: mídia, cenários, atores, da revista Comunicação & Política nº 03; a revista Textos de Cultura e Comunicação nº 33 Mídia e Política - Eleições de 1994, reunindo artigos do 1º Encontro (Inter)nacional de Estudos de Comunicação e Política (1996); e a tese Mito e discurso Político - uma análise a partir da campanha eleitoral de 1994 (MIGUEL, 2000).
A revista Comunicação & Política traz uma análise importante sobre os erros políticos do PT do ponto de vista do PSB (AMARAL, 1995), julgando poder ganhar sozinho a eleição, devido às pesquisas de opinião antes do período eleitoral.
Já a revista Textos de Cultura e Comunicação da Facom/UFBA tem seu ponto alto no artigo De Fernando a Fernando II - Caleidoscópio mediático-eleitoral 1994 (RUBIM, 1996, p. 5), onde se analisa o Plano Real como uma construção midiática e as restrições da legislação eleitoral como condicionantes de um esfriamento político-midiático das eleições.
Em eleições com ênfase na disputa de visibilidade das Imagens Públicas (como 1989 ou 2002) é evidente o condicionamento do voto através de valores culturais e da presença de elementos simbólicos. Mas, em eleições frias, em que o voto parece ser condicionado por avaliações racionais sobre o desempenho do governo e das propostas dos candidatos, como as de 1994, a presença de elementos míticos é menos visível.
E este foi o desafio enfrentado por Miguel (2000).  Em relação ao mito político da autoridade, Miguel estuda os discursos de Orestes Quércia, Enéas Carneiro e Leonel Brizola, observando inclusive os diferentes apelos feitos pelos candidatos à vitória do presidencialismo no plebiscito sobre as formas de governo e a necessidade de combater a corrupção do Poder Legislativo.
Miguel estuda também o mito político da experiência administrativa nos discursos do ex-governadores Quércia, Amim e Brizola - que apresentam a aprovação às suas gestões nos estados, como garantias de que seriam bons presidentes.
Mas, além de enaltecer suas qualidades, a escolha desses mitos também desqualifica os dois principais candidatos (FHC e Lula), ambos parlamentaristas e sem experiências em cargos majoritários. Assim, cada um deles adota uma estratégia de resposta a esses ataques simbólicos indiretos. Para Miguel, FHC adota o mito político da competência, travestida de racionalidade. Em primeiro lugar, tenta apresentar uma imagem de que também é firme e tem autoridade, desfazendo a imagem de personagem três vezes indeciso (como intelectual distante da ação, como político tucano em cima do muro e como ministro do governo imobilista de Itamar Franco). Depois, investindo na ideia de sua superioridade intelectual sobre os outros candidatos, encarnando a racionalidade científica como uma de suas principais características políticas.
A grande vítima dos discursos míticos da experiência administrativa dos ex-governadores e da competência intelectual de FHC foi o candidato do PT. Para Miguel, Lula adotou os mitos políticos da transparência e da vivência como uma estratégia de combater esses discursos. A valorização do conhecimento empírico e da intimidade com o público (e com sua situação de vida) é o grande trunfo de Lula. Mais personalista do que em 89, quando falava sempre na 1ª pessoa do plural; no HGPE do PT em 94, a biografia do candidato se sobrepõe ao programa do partido e Lula conjuga seu discurso preferencialmente na 2ª pessoa do singular, enfatizando o olho-no-olho - para Miguel, símbolo do compromisso pessoal com a realidade do interlocutor.


1998


Lula X FHC (1998)
             Em 1998, a campanha de reeleição de Fernando Henrique Cardoso ofuscou a terceira tentativa de Lula de chegar ao Planalto, ainda no 1º turno.  O petista fez 21.475.218 votos (31,71% dos válidos). FHC, que colheu a segunda safra de frutos políticos da estabilização e fim da inflação com o Plano Real, e teve 35.936.540 votos (53,06% dos válidos).
Resultado eleitoral em 1998
Candidato
Votos e % sobre válidos
Votos e % sobre apurados
Fernando Henrique Cardoso (PSDB)
35.936.540 (53,06%)
Apurados
83.297.773 (78,51%)
Válidos
67.722.475 (81,30%)
Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
21.475.218 (31,71%)
Brancos
6.688.403 (8,03%)
Ciro Ferreira Gomes (PPS)
7.426.190 (10,97%)
Nulos
8.886.895 (10,67%)
Eleitores
106.101.067
Enéas Carneiro (Prona)
1.447.090 (2,14%)
Abstenção
22.803.294 (21,49%)
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE)

            Desta vez, o candidato do PT foi derrotado pela crise econômica internacional e pelo pacto da reeleição - em que a Presidência, os governadores e os partidos da maioria do governo se apoiaram de modo a garantir sua continuidade no poder por mais quatro anos.  A mídia, cúmplice   fiel   do   poder, escondeu   a campanha eleitoral no noticiário.


A ELEIÇÃO DE 1998
  1. Cenário de Representação da Política
Como vimos na contextualização histórica, o primeiro governo de FHC foi um desastre: privatizações, perda das reservas cambiais, queda da renda salarial media, desemprego, deterioração dos serviços públicos, aumento do endividamento interno e externo, vulnerabilidade internacional ao fluxo de capitais. Bem diferente das cinco prioridades sociais da campanha de FHC em 94 (a mão): saúde, educação, emprego, agricultura, segurança (LESBAUPIN; MINEIRO, 2002).
Na área da saúde, a falta de verbas e a utilização de parte da CPMF (o imposto sobre movimentação financeira, na época provisório e voltado exclusivamente para a área de saúde) para o PROER levou ao pedido de demissão do ministro da saúde Adib Jatene. Lesbaupin também lembra os episódios da epidemia de dengue no Rio de Janeiro (LESBAUPIN, 2002, p. 43) e do aumento abusivo nos preços dos remédios (LESBAUPIN, 2002, p. 45), que ocorreram por causa do corte de verbas e da falta de fiscalização do Ministério da Saúde levaram a um verdadeiro caos durante 6 dos 8 anos do governo FHC. Com a entrada de José Serra, no entanto, haverá uma mudança significativa na administração. E na área de educação, para investir no ensino básico e médio, o governo decidiu privatizar o ensino superior. Congelou os salários, cortou verbas de manutenção, diminuiu o número de bolsas, ameaçou aposentadorias. Ao mesmo tempo, o BNDES financiou o crescimento do ensino privado superior. Antes de FHC, o ensino superior era 70% público; depois de FHC, 66% dos estudantes universitários estão em universidades privadas – sem que isto tenha mudado o fato de que os alunos mais pobres estudam nas universidades privadas enquanto os de melhor renda estudam nas universidades públicas.
Na área de agricultura, somando os dois governos de FHC, foram assassinados 243 trabalhadores rurais e houve duas chacinas (Corumbiara e Eldorado dos Carajás). E os números do governo e do MST sobre o número de assentamentos é bastante discrepante. Também na área de segurança pública, nenhuma de suas propostas de campanha foi adotada e houve um aumento da violência. Mas, das prioridades sociais de campanha de FHC em 94, aquela que ele mais se esqueceu foi a questão do emprego.
Qual a razão do apoio monolítico da imprensa e dos meios de comunicação a FHC antes e durante seus dois governos? Em primeiro lugar, FHC governou para a TV – e em vários sentidos. Para aprovar a emenda da reeleição (com um detalhe institucional inédito na história das democracias republicanas: sem a exigência de se licenciar do cargo que disputava) promoveu uma segunda leva de concessões de canais de rádio e TV para políticos, contemplando os interesses regionais das empresas de comunicação na privatização das telecomunicações, aprofundando ainda mais o coronelismo eletrônico, que passou a partir de então a também controlar os mercados de telefonia e Internet (KUCINSKI in LESBAUPIN, 1999, p. 184).
A revista Veja (07/10/98, p. 28-33, reportagem de Expedito Filho) afirma que FHC procurou os principais empresários de comunicação pedindo para não colocarem fatos desfavoráveis ao governo em 98 e ameaçando desistir de se candidatar à reeleição. E, certamente, houve pelo menos duas grandes abafadas de escândalos: em maio de 97, foi descoberto que o deputado federal Ronivon Santiago do Acre vendeu ao governo seu voto em favor da emenda da reeleição; e, em novembro de 98, os acordos e propostas das escutas telefônicas não autorizadas no BNDES. Mas, o apoio monolítico da mídia não era à pessoa de FHC ou ao seu governo, mas sim ao projeto neoliberal de desmonte do estado e de abertura comercial. O apoio da mídia apenas expressava e reforçava o apoio da população brasileira a esse projeto, o único que se apresentava como viável e responsável.
Três fatores marcaram as eleições presidenciais de 1998: a crise internacional das economias emergentes, o alto nível de desemprego e o instituto da reeleição.
Em 1997, já havia estourado a crise dos tigres asiáticos. As bolsas de valores ficaram imprevisíveis e houve fuga de capital especulativo nos países emergentes, inclusive no Brasil. Em junho de 1998, uma nova crise explodiu na Rússia. Em setembro, poucos dias antes das eleições, a situação se agravou e houve pânico nas bolsas. Dia 06, a Bovespa caiu 8,6% e US$ 15 bilhões abandonaram o país. O governo aumentou os juros e anunciou um pacote de medidas fiscais. FHC faturou eleitoralmente o fato, tranquilizando a todos e se apresentando como o único com preparo e capacidade para superar a crise. Ruim comigo, pior sem mim – sugeriam os últimos HGPE’s tucanos. Enquanto isso, Lula quis explorar a crise responsabilizando FHC pela situação ao invés de apresentar propostas para resolvê-la – repetindo assim o mesmo erro da campanha anterior.
O desemprego foi o principal tema da campanha dos dois candidatos, mas enquanto Lula responsabilizava a política econômica recessiva e neoliberal do governo do PSDB, FHC afirmava que só quem venceu a inflação, pode derrotar o desemprego - como se a estabilidade monetária do Real nada tivesse a ver com a queda vertiginosa do crescimento econômico e do PIB. Porém, tanto a postura de superioridade intelectual diante da crise internacional, como a atitude otimista frente ao problema do desemprego, realçaram os atributos pessoais de competência e capacidade de FHC, diante de um Lula ainda revoltado e irresponsável.
Há também um importantíssimo fator de posicionamento que é a aprovação da emenda de reeleição - com todas as suas consequências: adesão política dos governadores, também candidatos à reeleição, a aliança entre os três principais partidos nacionais (fazendo com que em alguns estados os dois principais candidatos a governador apoiassem o candidato-presidente), mais tempo nos programas de propaganda eleitoral do TSE, entre outras. Esse posicionamento deu uma grande vantagem a FHC, fazendo com ele surgisse como franco favorito nas pesquisas de intenção de voto, mesmo antes de a campanha eleitoral começar.
E, nas eleições, o número final de votos brancos e nulos, venceu a soma dos votos dos candidatos. Em 1998 não houve mudança na intenção de voto. Sendo assim, pode-se dizer que, nesta eleição, a agenda da mídia como um todo durante um largo período de tempo, combinado com outros fatores extra midiáticos, como a reeleição, foi mais importante do que os HGPE’s.
A resolução n. 20.106/4, de março de 1998, determinou que, além dos 50 minutos de HGPE’s, houvesse também 30 minutos de spots (de 30 segundos) durante todo o horário comercial das programações de TV. Porém, a proibição de externas foi mantida. Não houve debates (FHC não aceitou participar de nenhum). Novamente, houve abusos e denúncias em jornais e telejornais, e desta vez, a imprensa passou a ser investigada pela justiça eleitoral.
Em relação à agenda através da imprensa, o trabalho mais importante foi Imprensa, Campanha Presidencial e agenda da Mídia (AZEVEDO, in: RUBIM, 2000, p.31). Nessa pesquisa, a campanha presidencial em 98 teve duas etapas distintas separadas pela derrota do Brasil na Copa da França (junho/julho). Na primeira etapa (abril/maio) havia uma agenda negativa para o governo: seca no NE, saques de flagelados, um mega incêndio florestal em Roraima, invasões do MST, e a declaração de FHC de que os aposentados com menos de 50 são vagabundos. Esta agenda de mídia negativa ao governo espelhava um empate técnico entre FHC e Lula na pesquisa Data Folha (10/04). Porém, em uma segunda etapa (agosto/setembro) observa-se uma mudança significativa no comportamento da mídia, que passou a esconder a campanha eleitoral, dando prioridade a outros assuntos. Houve um distanciamento da campanha eleitoral presidencial da agenda da mídia (crise financeira, corrupção no futebol, as campanhas estaduais e proporcionais). E o mais importante: excluindo-se a cobertura da campanha eleitoral como um todo, a presença do Presidente e do Executivo ocupa boa parte do noticiário. A agenda da mídia é favorável a FHC porque o enquadra de forma positiva como o presidente (que é candidato) e não um candidato (que está presidente). A pesquisa mostra claramente que a Rede Globo escondeu a campanha eleitoral presidencial e o fato chegou a ser denunciado por outros candidatos (houve até um manifesto contra a omissão da mídia, assinado por Ciro e Lula).
Também se pode dizer que, o fato de FHC aparecer muito à frente de seus adversários nas pesquisas de opinião do segundo semestre, evitando o efeito Horse Race e a inexistência de debates televisados diminuiu o interesse do público pela disputa eleitoral, que já parecia decidida desde o início. Através da metodologia da agenda da imprensa, constata-se que não foram a imagem e as propostas de campanha de FHC que ganharam as eleições, mas a sua ausência como candidato do governo, aliada à sua presença no noticiário como Presidente da República dentro de um agendamento temático, principalmente em relação à crise internacional do momento. O silêncio da mídia, em conjunção com o posicionamento de sua candidatura (conquistada a partir da aprovação da emenda constitucional da reeleição) garantiu antecipadamente o resultado da eleição de 98.
Outro importante trabalho sobre a agenda da imprensa escrita nas eleições presidenciais de 98 (durante os 30 dias que antecederam a votação) é a pesquisa de Cunha (2000), que também conclui que Fernando Henrique Cardoso foi o grande beneficiado - com maior exposição e maior número de matérias positivas. O presidente ganhou mais espaço, teve mais fotos publicadas, foi personagem de mais reportagens e seu nome apareceu mais vezes – além dos editoriais que recomendaram o voto no candidato do PSDB. O autor analisou as edições dos 30 dias que antecederam o pleito, concluindo que a cobertura feita por sete dos principais órgãos da mídia impressa ([1]) [...]
[...] não é imparcial, tanto em virtude de o conteúdo publicado refletir preferências partidárias e ideológicas como também porque as práticas jornalísticas que adotam rotineiramente favorecem tratamentos desiguais e privilegiam os políticos que se encontram no poder. (CUNHA, 2002, p. 115)
Em relação à agenda através de telejornais, Miguel (CUNHA, 2002, p. 81) aponta os quatro pontos em que o Jornal Nacional da Rede Globo favoreceu indiretamente ao governo e ao seu candidato: a) demora em noticiar a crise internacional; b) ênfase no caráter externo dos problemas; c) elogios à competência da equipe econômica; e d) a invisibilidade da oposição.
E, para disfarçar, no dia 15 de agosto, o Jornal Nacional colocou Lula no ar acusando "o governo de pedir e conseguir dos meios de comunicação, que suprimissem do noticiário informações sobre a seca e o desemprego". Manobra bem explicada por Miguel: “a presença da acusação no próprio noticiário servia como o melhor desmentido ao acusador: passava como evidência a imparcialidade da emissora.” (CUNHA, 2000, p. 68)
  1. Horário eleitoral
Fernando Henrique Cardoso contou com mais tempo e com programas mais bem produzidos do que seus adversários. Uma vantagem perigosa se não for bem utilizada. Como a estratégia era de não debater com os outros candidatos, boa parte dos programas foi composta de videoclipes, jingles e políticas futuras. E muitas obras públicas apresentadas, não apenas como resultados do trabalho do governo federal, mas sim como garantia de que FHC era o único com experiência, com capacidade e com propostas para governar. As obras não eram apenas federais, mas também das administrações estaduais e municipais, fruto de convênios com a União (e do acordo feito em torno do apoio dos governadores à reeleição de FHC e do governo federal às reeleições estaduais). Em muitos estados, a propaganda política estadual também pegava carona no programa do FHC e, em alguns, mais de um candidato a governador apoiou (e se apoiou) na propaganda da campanha presidencial.
O slogan Avança, Brasil sintetizava a principal mensagem da campanha. “Muito já foi feito, mas não podemos parar, temos que avançar realizando o que ainda falta”. Outra ideia subliminar, insistentemente repetida, era “você se lembra do tempo em que havia inflação”, “não podemos retroceder”. Dois spots (veiculados durante a programação comercial das TVs, mas também usados no HGPE) vendem bem essa ideia: no primeiro, a câmera mostra a imagem fechada de uma alavanca de câmbio de um carro com cinco marchas, o carro arranca e a cada marcha o locutor, em off, fala uma das realizações de FHC, quando o carro já está bastante acelerado e chega na hora de passar a quinta marcha o locutor diz que “não podemos engatar a marcha ré”. Em outro spot, aparece um comandante de avião de grande porte argumentando que, para pilotar uma aeronave de grande porte, é preciso experiência.
Outro destaque do programa eleitoral de FHC foi o quadro Bom Dia, Brasil imitando o estilo de programa jornalístico de entrevistas. Geralmente rodado às tardes (e reeditado à noite com os melhores momentos), o programa tinha até intervalos semelhantes aos breques comerciais (quando se veiculava os spots) e entrevistou o próprio FHC, a sua esposa, Dona Ruth Cardoso (sobre o programa Comunidade Solidária) e Pelé (seu ministro de esporte).
Já a campanha de Lula primou pela propaganda negativa contra o governo. O PT simplesmente não conseguiu exorcizar o Outro do seu discurso. Houve uma constante e exaustiva comparação entre o Brasil verdade, mostrado por Lula e o país das maravilhas, inventado por FHC e sua equipe de marketing. O slogan coração brasileiro e a escolha da cor branca para campanha acabaram por se perder, bem como a ideia de apresentar um candidato mais humano e preocupado com as questões cotidianas das pessoas simples. Outra estratégia do PT era a de contrapor o HGPE de FHC ao noticiário da imprensa, tentando mostrar que a publicidade do presidente estava fora da realidade, vendendo uma visão fantasiosa do país. Nesse sentido, o PT produziu um spot Plantão Eleitoral, que imitava os plantões jornalísticos das redes de TV.
Na 1ª semana de HGPE (18, 20 e 22/08) os candidatos apresentaram suas biografias, seus jingles de campanha e suas propostas principais. FHC, através da entrevista com sua esposa, Dona Ruth Cardoso, sobre o programa Comunidade Solidária tentou desconstruir o argumento de que seu governo não tinha atuação na área social e só se preocupava com questões econômicas. No programa do PT, o destaque ficou pela dramatização humorística que mostrava uma família de Taiwan agradecendo ao presidente Fernando Henrique por seus empregos em uma fábrica de ratinhos eletrônicos de brinquedo. A dramatização lembrava bastante a linha crítica e irônica, adotada na campanha do PT no primeiro turno de 1989, mas logo foi abandonada por uma propaganda mais séria e agressiva. No sábado, enquanto FHC apresentava uma reedição dos dois primeiros programas, Lula alertava para o pânico na Bovespa e para as declarações do Ministro da Fazenda, Pedro Malan, de que haveria aumentos de impostos (pacote fiscal) após as eleições.
Já na 2ª semana, FHC apresenta programas temáticos sobre educação (25/08) e saúde (27/08), mostrando os avanços de seu governo nestas áreas (utilizando a entrevista de Pelé e dando ênfase ao projeto Toda criança na escola) e Lula insiste em desmascarar a visão ilusória do programa de seu adversário, colocando no ar um grande número de pessoas insatisfeitas e respondendo a cartas de eleitores. Também há um significativo discurso de Lula, voltado para juventude, contra a alienação eleitoral e um programa (27/08) dedicado ao problema da fome. No sábado (29/08), enquanto FHC reedita os programas passados durante a semana, Enéas, Ciro e Lula falam da crise econômica na Rússia e de seus possíveis efeitos no Brasil. Lula, em especial, acusa o governo de esconder a verdadeira situação do país e cobra mudanças econômicas imediatas, como a queda da taxa de juros e o fim das importações predatórias.
Na 3ª semana, FHC apresenta um show de obras públicas feitas por seu governo em vários estados brasileiros (01/9). O presidente-candidato promete, ainda, criar 7,8 milhões de empregos, detalhando onde e como vai fazer para gerá-los. O programa questiona abertamente o PT e a sua proposta de criar 15 milhões de empregos, sem dizer de que forma. “Todos falam de gerar empregos, mas só nós mostramos como e onde. A experiência é a diferença”. O programa do PT, por sua vez, reedita a fala de Lula sobre a crise e apresenta várias repercussões (Brizola, Maria da Conceição Tavares, Vicentinho). Nos dias 03 e 05/9, o programa de FHC critica as críticas sem solução e apresenta Lula e Aloísio Mercadante criticando o plano real no HGPE de 1994, afirmando que o mesmo está acontecendo em 98. O PT continua repercutindo a fala de Lula sobre a crise.
A 4ª semana é marcada pela divulgação de uma pesquisa do IBOPE que mostra um aumento de sete pontos percentuais da intenção de voto para FHC após o começo do HGPE. O candidato governista conta agora com 47% contra 23% de Lula. FHC lidera em todas as regiões geográficas, entre os jovens e entre as mulheres. Seu programa tenta faturar a diferença não só através da meta-campanha (divulgando os dados), mas também tenta consolidar e aumentar o saldo com propostas específicas para os setores. Enquanto isso, Lula tenta contrastar o programa de FHC com as notícias veiculadas pela mídia, sobre a crise. No dia 10.9, FHC apresenta um programa especial voltado para a região nordeste do Brasil; Lula lembra que na derrota da final da Copa do Mundo, “esconderam a crise do jogador Ronaldinho por causa do patrocínio de uma multinacional” (Fita DOXA-IUPERJ, 98/04, 35:17), afirmando que agora o governo esconde a crise econômica.
Nesse momento, a crise econômica chega ao clímax, fazendo com que o Banco Central suba ainda mais a taxa de juros. No sábado (12/09), os programas debatem o assunto.
Na 5a semana de campanha, apesar de Ciro Gomes dizer que FHC é “cara de pau” porque diz que é o único capaz de resolver a crise que ele criou (15/09) e que há um pacto entre institutos de pesquisa e redes de televisão, a candidatura governista continua subindo, chegando aos 49% das intenções de voto pelo IBOPE. FHC agora ensina a votar na urna eletrônica e começa a utilizar a imagem dos dois brasis (inspirados nos dois nordestes), um pobre e outro rico, que precisam se unir para vencer a crise e o desemprego. Lula continua com um discurso reativo em relação ao governo (votem em mim porque sou contra eles) e faz algumas denúncias contundentes na área da saúde pública (17/9). Porém, no programa do dia 19, FHC surpreende admitindo que ainda há muitos problemas na área da saúde, mas mostrando os esforços feitos pelo ministro José Serra e dizendo que precisa de mais quatro anos para concluir seu trabalho. No mesmo dia, Lula investe contra a tentativa de reforma da Previdência feita pelo governo e lembra que o presidente chamou de vagabundos os que se aposentam antes de 50 anos.
A penúltima semana de HGPE é marcada pelos direitos de resposta da campanha de FHC concedidos pela justiça eleitoral contra o programa do PT e principalmente pelo pronunciamento do presidente FHC em cadeia nacional de rádio e TV (logo, fora do horário eleitoral) sobre a necessidade de tomar medidas urgentes contra à crise econômica. “Ao tomar medidas impopulares Fernando Henrique mostrou não temer agir como presidente e não como candidato [...]” – afirmou seu programa, escondendo no próprio argumento o uso eleitoral das medidas administrativas.
Enquanto falava como presidente, dentro e fora do programa eleitoral, FHC também não deixava de criticar que [...]
[...] o PT estava passando [novamente] dos limites com agressões pessoais, da mesma forma que fez em 94 quando estava perdendo e da forma de que foi vítima em 89. (Fita DOXA-IUPERJ, 98/07, 45:13)
O PT, por sua vez, continua reclamando que “FHC baixa a cabeça para a agiotagem internacional”, pagando juros em vez de “investir na produção para gerar empregos através do crescimento econômico” e repetindo o VT em que o presidente chamou os aposentados de vagabundos. Nos dias 24 e 26/09, FHC reedita seu pronunciamento como presidente dentro do horário eleitoral e Lula o critica, sem perceber que o reforça.
A última semana de campanha transcorre sem surpresas. FHC mostra que se gasta o mesmo valor (menos de um real) para fazer um bolo tanto em 94 como em 98. Lula e Ciro dão uma entrevista coletiva à imprensa, denunciando um “complô” da própria imprensa contra as candidaturas de oposição. No dia 01/10, último dia da campanha, FHC presta uma bela homenagem a dois de seus colaboradores, recentemente falecidos (o ministro Sergio Motta e o presidente da Câmara dos Deputados, Luis Eduardo Magalhães, filho de ACM), e termina seu programa com seu jingle, executado por um coral, de forma emocionante. Lula apresenta seu único programa sem propaganda negativa contra o governo, mostrando o sertão, origens de Lula e suas propostas.
  1. Recepção
Evolução da intenção de voto nas pesquisas de opinião de 1998

Fonte: DATAFOLHA
Nas pesquisas de opinião, Lula e FHC estiveram em empate técnico no final de maio e início de junho (FHC 34%, Lula 30%); em julho, Lula cai para 28% e FHC sobe para 40%; em agosto, a diferença aumenta (FHC 42%, Lula 26%). Durante o período de propaganda eleitoral, Lula permanece estável, em torno de 26%; FHC começa com 48%, cai para 46% no final de setembro e sobe novamente, em outubro, para 49%. Também não se pode dizer que, nesta eleição, houve efeito de impacto do HGPE sobre as pesquisas de opinião eleitoral. O tempo das campanhas diminuiu de 60 para 45 dias.
O mais completo trabalho sobre a eleição presidencial de 1998 e o HGPE é A disputa política na televisão – Uma análise das estratégicas discursivas dos candidatos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva no Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (OLIVEIRA, 1999). Além de uma revisão bibliográfica dos trabalhos sobre metodologia e sobre outras eleições presidenciais brasileiras, Oliveira elege os seguintes critérios mais simples para a leitura de HGPE’s dos candidatos: a) Construção da Imagem do candidato; b) Construção da Imagem do País; c) Os temas; d) Posicionamento; e) Adaptação do discurso político para a TV.
Segundo Oliveira, o personalismo foi predominante na construção das imagens dos candidatos. FHC é o homem que mudou a história do país e Lula é o Homem-coração, o único sensível às necessidades das pessoas simples. Em relação à imagem do país, FHC apresenta um futuro otimista (até mesmo irreal) para o Brasil; enquanto Lula, com o Brasil-verdade, enfatizava uma visão crítica e pessimista.
No campo temático, ambos trataram o desemprego como tema dominante, mas enquanto Lula tentava responsabilizar a política econômica recessiva do governo, FHC afirmava que só quem venceu a inflação, pode derrotar o desemprego. Quanto ao posicionamento, Lula afirma que a crise econômica pioraria com a reeleição de FHC, mas a opinião pública preferiu acreditar que a crise pioraria com ele. E do ponto de vista da adaptação do discurso político à linguagem da TV, os programas de FHC tiveram, para Oliveira, o melhor nível técnico, em vários aspectos.
Oliveira considera que FHC logrou transformar “o cidadão com problemas particulares do cotidiano, em um público eleitoral” (OLIVEIRA 1999; p.87). Para ele, nos HGPE’s há uma tríplice estratégia: reforçar os votos dos seus eleitores, mudar a intenção de voto dos eleitores, dos adversários e convencer os indecisos. Lula conseguiu manter seus votos, mas não conquistar novos; FHC conseguiu manter e ampliar a sua vantagem.
No entanto, sendo um pouco mais realista, constata-se que o aparecimento de spots durante a programação diária (pequenas inserções na TV e no rádio durante os comerciais), na propaganda eleitoral brasileira, a partir de 1998, diminuiu ainda mais o caráter cívico (de ferramenta da cidadania) do HGPE. Isto adicionado a outros fatores (a audiência segmentada da opinião pública, a ação da imprensa em relação às elites, a própria performance individual dos candidatos) acabou por fazer os programas menos eficazes. Outra obra de referência para o estudo dos HGPE’s dessa campanha é a coletânea Mídia e Eleições 98 (RUBIM, 2000), resultante dos trabalhos apresentados no II Encontro (Inter)Nacional de Estudos de Comunicação e Política. Neste livro, encontram-se estudos específicos sobre o uso e a linguagem dos spots; artigos interessantes sobre a construção das Imagens Públicas dos candidatos presidenciais; um estudo de Soares sobre o CR-P das eleições presidenciais de 98; bem como um texto panorâmico do próprio Rubim (Novas Configurações das Eleições no Brasil Contemporâneo).
Porém, na perspectiva dessa pesquisa, o texto desta coletânea com maior importância: Reflexões sobre o marketing político de Lula em 98, (ALMEIDA, 1999, p. 159), que estuda detalhadamente as três estratégias utilizadas pelo PT nos HGPE’s (a linha light, a linha emotiva e a linha de crítica social) concluindo que, mesmo com a forte influência do papel da imprensa e da crise internacional, faltou um programa político consistente que fosse capaz de conquistar a hegemonia do processo político. Tal ausência resultou na adoção hesitante e sem sucesso de diferentes estratégias.
Utilizando-se do modelo de análise de Estratégias de Persuasão (FIGUEIREDO, ALDÉ, DIAS, JORGE, 1998), pode-se dizer que tanto em 94 como em 98 Lula adotou uma estratégia de desafiante (que afirma que o mundo atual é Ruim e pode vir a ser Bom) e FHC, uma estratégia de mandatário (em que o mundo atual é Bom e pode melhorar). Seguindo estes parâmetros pode-se dizer que na primeira eleição, FHC apresentava a continuidade do plano Real como sua principal tarefa e oferecia sua capacidade administrativa e intelectual como garantia, enquanto Lula afirmava que a estabilidade da moeda era um blefe e que apenas ele faria as mudanças estruturais necessárias à retomada do crescimento. Há, portanto, uma certa oposição entre estabilidade e desemprego. Ou seja: ou bem se controla a inflação ou bem se tem crescimento econômico. Em 98, FHC, aproveitando-se desta oposição, vai eleger o desemprego e o crescimento como suas principais tarefas, roubando as bandeiras de seu adversário na eleição passada. Só quem venceu a inflação, pode acabar com o desemprego.
Como garantia, o presidente-candidato apresentava não apenas sua capacidade administrativa e o fato de ter estabilizado a moeda, mas, sobretudo, sua capacidade de articular apoios, tanto no Congresso Nacional para aprovação das reformas necessárias ao crescimento, como também em nível internacional dos credores e autoridades públicas de outros países.
Lula, por sua vez, que na primeira eleição apresentava apenas as ideias de honestidade e credibilidade como garantias de sua proposta de ruptura com o modelo econômico injusto e concentrador de renda, vai evoluir para a ideia de um governo de coalizão, que defenda os interesses nacionais e não apenas os interesses do mercado financeiro. Como garantia, o PT passou da honestidade para a ideia de amadurecimento.


[1] O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, O Globo, JB, Veja, Época e Isto É.