Na teoria do cerco guerrilheiro, o procedimento
conhecido por ‘alternância repetida de operações táticas contrárias’ é
geralmente atribuída a Mao Tse-Tung, mas com notável influência das artes
marciais chinesas, do jogo de tabuleiro “Go”
e do livro A arte da guerra[1].
Essa estratégia é composta por três princípios: 1)
tenha e mantenha a iniciativa; 2) ataque se defendendo e se defenda atacando; e
3) ataque apenas os pontos fracos do inimigo e defenda apenas seus pontos fortes
(ou nunca ataque os pontos fortes do inimigo e nunca defenda seus pontos
fracos).
Alguns comentaristas unem esses dois princípios em
um: ataque sempre os pontos fracos adversários, defenda apenas os seus pontos
fortes. A ideia é (através da repetição alternada desses movimentos) forçar o
inimigo a defender seus pontos fracos (que atacamos para nos defender) e
induzir os adversários a atacarem nossos pontos fortes (que defendemos sempre
como movimento de ataque). Essa manobra força o inimigo a sair de sua área de
conforto e entrar em nosso campo, permitindo encurralá-lo.
A estratégia foi criada para a guerrilha
territorial, mas pode também ser aplicada a um debate ideológico. Imagine uma
pessoa de esquerda (ponto forte: programas sociais; ponto fraco: estado
ineficiente e corrupto) debatendo com uma de direita (ponto forte: liberdade
individual; ponto fraco: desigualdade). O esquerdista ataca defendendo os
programas sociais e se defende atacando o mercado. O direitista ataca o estado
e defende o livre comércio. Caso o esquerdista defenda o Estado e clame pela
regulamentação da liberdade econômica, vai estar caindo no campo de
argumentação da direita. Porém, se ele insistir na defesa dos trabalhadores e
atacar as injustiças sociais poderá acontecer o inverso. Caso o direitista
ataque os programas sociais e defenda diretamente o capitalismo estará caindo
no campo discursivo de esquerda.
É claro que a estratégia só funciona graças ao
primeiro princípio (tenha e mantenha a iniciativa) e a capacidade de estar sempre
um passo à frente do inimigo no planejamento das ações, fazendo planos dentro
de planos contrários, armadilhas dentro de armadilhas, atraindo o adversário
para seu campo até cerca-lo.
Aplicado ao conflito colonial, essa estratégia implica em que os colonizados ‘joguem’ juntos contra o colonizador. Lenin tinha um planejamento estratégico baseado em uma dupla dialética entre a luta de classes e a luta contra o imperialismo. Porém, considerava a contradição interna principal.
Já Mao Tse-Tung inovou considerando o imperialismo (o capitalismo internacional) como seu inimigo principal secundarizando o conflito interno. Além disso, utilizou vários elementos simbólicos da cultura chinesa tradicional: adotou a ideia de cerco do popular jogo tradicional ‘Go’; adicionou as táticas de ‘guerra de movimento’ x ‘guerra de posição’, elaboradas na Arte da Guerra; e aproximou a dialética marxista da alternância de movimentos defesa e ataque (representados pela mandala do ying e yang) do Tai-Chi e do Kung-fu.
Reza a lenda que Vietnam, Nicarágua e o PC do B na
guerrilha do Araguaia no Brasil utilizaram esse modelo de “cerco chinês”,
baseado na “alternância repetida de operações contrárias” em seus movimentos,
mas, a verdade é que não existe uma explicação completa dessa teoria, nem nos
manuais de guerrilha rural do passado, nem no campo da guerrilha cultural da
globalização contemporânea.
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