Vilém
Flusser (1998) caracteriza o ‘modo de ser brasileiro’ como um protótipo do homo
ludens, um novo homem consciente de que joga com e contra outros; e de que
outros jogam com e contra ele. A miscigenação nos fez ‘lúdicos’, um exemplo
para outros povos. Flusser vê o brasileiro de modo semelhante a Darcy Ribeiro descrevendo
três estratégias de jogo colonial.
É possível engajar-se de várias
maneiras nos jogos. Por exemplo: jogar para ganhar, arriscando derrota. Ou
jogar para não perder, para diminuir o risco da derrota e a probabilidade da
vitória. Ou jogar para mudar o jogo. Nas duas primeiras estratégias o engajado
se integra no jogo, e este passa a ser o universo no qual existe. Na terceira
estratégia o jogo não passa de elemento do universo, e o engajado está
"acima do jogo". Se ciência for jogo, o técnico se engaja nela pela
estratégia um ou dois, e o cientista pela estratégia três (procura mudar o
jogo, alterar suas regras e introduzir ou eliminar elementos). Se língua for
jogo, o participante da conversação se engaja nela pela estratégia um ou dois,
e o poeta pela estratégia três (pelas razões indicadas). O mesmo pode ser assim
formulado: quem aplica estratégia um ou dois esqueceu que está jogando (por
exemplo: técnico, participante de conversação, industrial, político, general e
líder estudantil esqueceram que estão empenhados em jogo). Quem aplica
estratégia três sempre conserva distância suficiente para dar-se conta do
aspecto lúdico da sua atividade (por exemplo: cientista teórico, poeta filósofo
e futurólogo). (Flusser, 1998, 108).
A
estratégia um é a dos que jogam para vencer, mesmo arriscando a derrota – como
os norte-americanos. A estratégia dois é o jogo dos excluídos que jogam para
não perder, buscando reduzir os riscos tanto do fracasso como do sucesso – como
a maioria dos povos latinos americanos. Já a estratégia três é o jogo dos que
jogam para mudar o jogo, que caracteriza o ‘modo brasileiro’. A estratégia três
corresponde a uma forma de resistência criativa à aculturação colonizadora, uma
identidade híbrida, que não se identifica nem rejeita a cultura do colonizador:
a absorve e a recria com sua própria linguagem.
Não se trata mais de identidade de um povo ou estratégia de sobrevivência dos dominados, mas sim de um comportamento cultural resiliente a ser adotado por todos os povos em um futuro global. As alteridades, aproximações, estranhamentos e a maneira como os grupos interagem ao longo da história acabam criando relações de poder de acordo com o desconhecimento e reconhecimento do outro.
Flusser reconhece que, para os povos colonizados, afirmar sua identidade
cultural é um ato de resistência muito doloroso porque implica em superar o não
reconhecimento do outro (e de si mesmo projetado no colonizador), mas também
compreende a antropofagia como um método de diálogo dentro de um contexto da
interculturalidade, reconhecendo que cada um tem sua história e uma identidade
própria a ser respeitada, cultivada e celebrada.